Abordagem sucinta da estória Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos

 

É nosso propósito tentar fazer uma abordagem , decerto incompleta, de uma das três “estórias” constitutivas da obra Luuanda - obra de transição - de Luandino Vieira ( de seu nome José Vieira Mateus da Graça) ,a saber: Vavó Xixi e o seu neto Zeca Santos .

            Ser- nos- á deveras agradável trabalhar, o melhor que nos for possível, a referida “estória”, porquanto muitas são as afinidades que nos ligam com as realidades geográfica, cultural, social e humana de tão precioso e belo país – Angola – devido ao facto de lá termos nascido e vivido.

Vista parcial de Luanda

                        A abordagem será feita em termos gerais, dando especial relevância, no entanto, à vertente de inovação linguística de Luandino e aos aspectos sociais aos quais alude ao longo do texto.

            A acção desenrola-se num dos musseques de Luanda, onde se movimentam duas personagens sui generis que vão protagonizá-la, são elas Vavó Xíxi e o seu neto.

            Na presença de um narrador omnisciente, tomamos contacto com descrições sugestivas das realidades do musseque.

            Os tempos meteorológico e cronológico desempenham funções deveras importantes. Quanto ao primeiro, encontramo-nos , sistematicamente, entre um “vento raivo” , que por sua vez arrasta a chuva , ao qual se segue  um “sol pequeno” e um sol radioso, “mangonheiro”; elementos que irão desempenhar uma função catalisadora na acção. Por sua vez, o segundo tempo ( cronológico) implica, para além de indicações temporais normais, um momento de analepse que nos permite conhecer a posição ocupada por Vavó na sua juventude – a Dona Cecília Bastos Ferreira, mulher de Bastos Ferreira, “mulato de antiga família de condenados”, e mãe de João Ferreira _ ; tudo isto em tempo de bonança, de “bem-estar na vida”, “ de sol mangonheiro”. Porém ,na velhice, o tempo é de tempestade, de “vento raivoso”, é um tempo em que Vavó Xíxi e Zeca santos irão sentir a miséria e a marginalização.

            O primeiro parágrafo contém alguns indícios relativos ao musseque, ao colonialismo e à Vavó Xíxi. A “estória” é norteada por personificações/ animizações particularmente da natureza e tudo se começa a espelhar, desde logo, no primeiro parágrafo que de seguida transcreveremos a fim de mais facilmente nos situarmos : “Tinha mais de dois meses a chuva não caía. Por todos os lados do musseque, os pequenos  filhos do capim de novembro estavam vestidos com pele de poeira vermelha espalhada pelos jipes das patrulhas junindo no meio de ruas e becos, de cubatas arrumadas à toa. Assim quando Vavó adiantou sentir esses calores muito quentes e os ventos a não querer mais soprar como antigamente, os vizinhos ouviram-lhe  resmungar talvez nem dois dias iam passar sem chuva sair. Ora a manhã desse dia nasceu com as nuvens brancas – mangonheiras no princípio; negras e malucas no fim – a trepar em cima do musseque. E toda a gente deu razão em Vavó Xíxi; ela tinha avisado, antes de sair embora na Baixa, a água ia vir mesmo.

            A chuva saiu duas vezes essa manhã." (pág. 13)

            Há toda uma gradação de observações que nos fazem visualizar, claramente, todas as modificações atmosféricas assim como a estrutura do musseque. Ao aludir às “cubatas arrumadas à toa”, indicia-nos, de imediato,  o desprezo a que estavam votados os seus habitantes. Este estado de miséria e ostracismo acentua-se depois da tempestade, restando cubatas rodeadas de “água vermelha e suja(...)ficando teimosa em cacimbas de nascer mosquitos e barulhos de rãs” e “as pessoas, para escapar morrer, estavam na rua com imbambas que salvaram”.

Aldeamento de Cubatas (Quimbo)

            Quando mais adiante entramos na cubata dos protagonistas, tomamos contacto directo com a realidade nua e crua (pág. 24) : Vavó e Zeca passam fome e ela tenta enganá-la com raízes de dálias, fazendo crer a Zeca que são mandiocas “pequenas, vermelhas”. A sua intenção era a melhor, pois “Vavó queria-lhes cozer para acabar com a lombriga a roer o estômago...”.

            Ao referir “ a poeira vermelha espalhada  pelos ventos dos jipes das patrulhas” alude, de forma implícita, ao colonialismo e à repressão que se fazia sentir. No decorrer da narrativa ( se assim lhe podemos chamar , uma vez que Luandino subverte a utilização das formas naturais da literatura; há como que uma amálgama de todas elas nos seus textos) tomamos contacto com outras figuras do sistema colonial. O “branco  Sô Souto” que Vavó supunha amigo de seu filho João Ferreira, maltrata física e psiquicamente o seu neto quando este se lhe dirige a pedir comida, Zeca é acusado , injustamente, de roubo (págs. 20 e 21)- “...me arreou não sei porquê então, Vavó! Não fiz nada...(...) e estava-me gritar eu era filho de terrorista, ia-me pôr uma queixa, não tinha mais comida para bandidos, não tinha mais fiado...”.

            Incentivado pelo seu amigo Maneca , Zeca Santos avançou “com coragem no anúncio de emprego”, porém  pressentiu logo o que o esperava e, por isso “ na entrada parou e o receio antigo encheu-lhe o coração. A porta de vidro olhava-lhe, deixava ver tudo lá dentro a brilhar, ameaçador.”(pág. 37), e tinha razão porque ao fornecer os seus dados biográficos ao “rapaz da farda”, este bombardeou-o com perguntas, e é-no-lo dito através de uma aliteração: (pág.38)”... observou bem Zeca Santos nos olhos , depois, depressa, desatou a fazer perguntas, parecia queria-lhe atrapalhar”. Finalmente veio a pergunta fatal :” Ouve lá, pá, onde é que nasceste? / - Catete, patrão.”; não se fez esperar a reacção negativa do contratador, alcunhando-o de “calcinhas, mangonheiro e terrorista”.

            O «saber de experiências feito» de Vavó Xíxi irá ser referido várias vezes ao longo da estória. A sabedoria da anciã é valorizada, aliás como é característico no povo africano; o ancião é respeitado pelo depositório de conhecimentos e experiências de que é detentor –“Vavó tinha avisado , é verdade, e na sabedoria de mais-velha custava falar mentira...”.As suas atitudes são sempre de pessoa avisada e experiente que não se deixa enganar apesar de, entristecida, reconhecer que a maior parte das vezes o neto tinha razões de sobra para se sentir revoltado; chama-o, no entanto, à atenção para o facto de gastar o que não tem a comprar roupas - (pág.18)” Menino, trouxeste dinheiro, trouxeste?...Todos os dias nas farras, dinheiro que você ganhaste e agora vavó quero comer...?! Juízo, menino!”. Apesar de debilitada, quando se impõe, rejuvenesce e readquire força. Tem ,também, uma outra faceta, a de bem humorada; apesar de todo o sofrimento, ainda preserva a sua capacidade crítica e ri, ri  (pág.56)” enrrugando ainda mais a pele, quase as pessoas não podiam saber o que é nariz, o que é beiços.”, só os olhos sobressaem, preservando o brilho da mocidade. Mas quando se lembra de Nga Xíxi ( Dona Cecília) exclama: (pág.27)” Nga X´xi!... Dona Cecília!...P’ra quê eu lembrei agora?!”. É nesse momento de analepse que vamos descobrir a outra faceta de vavó.

            Logo após a saída de Zeca, inconformado com a situação de pobreza extrema em que viviam, vavó retrocede no tempo e lembra-se de (pág.25)“Dona Cecília Bastos Ferreira, nga Xíxi para as amigas e vizinhas.”.   A extensão do nome, assim como uma série de referências que são feitas relativamente  à sua situação social ,simboliza o poder económico- social de que usufruía , nessa altura, Nga Xíxi – senta-se na (pág.25)“cadeira de bordão”, “ mora nos Coqueiros em casa de pequeno sobrado, com discípulas de costura e comidas, com negócio de panos, fica-se gorda e suada, sentindo o bom vento do abano que Maria está a abanar ali mesmo”. Tem uma posição social invejável, pois (pág.25)”o respeito pelos Bastos Ferreira sai nos cumprimentos, nos sorrisos, no curvar das costas, nas palavras : até (pág. 26)]“o branco Abel, malandro empregado da Alfândega, que chega respeitador e interesseiro para beijar a mão negra da mulher de pele brilhante...”.Há ,contudo, um indício de que aquela situação não iria durar para sempre e está presente na adversativa “mas”- “Mas as moscas pousam-lhe muito”, prenúncio do que viria a acontecer.

            Quando retoma a realidade, Vavó Xíxi (pág. 27) Lembra depois os pensamentos quase estivera a sonhar; um sorriso triste vem-lhe torcer todos os riscos da cara seca. Fala só para o coração:

-         Nga Xíxi!...Dona Cecília!...P’ra quê eu lembrei agora?!”.

As causas de tão radical mudança na vida dos Bastos Ferreira ficamos sem as saber. Pairam algumas dúvidas! Será que há resignação ou esta é só aparente? Será que a revolta permanece no íntimo de vavó? Talvez!...

Porém no retorno ao tempo real verificamos que nga Xíxi tem uma capacidade de sublimar o drama da vida -(pág. 27)“boca dela tem sempre piada, mesmo se é conversa de óbito não faz mal,”.

Pode consultar também: http://mnoticias.8m.com/luandino_vieira.htm

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Bibliografia

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Conclusão

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