Análise do poema Apoteose

Apoteose descreve a queda do poeta na estagnação e na esterilidade artística, depois de ter experimentado as alturas do momento criador. O "Eu" poético, comparando-se a um barco que singra sem destino nas águas com os mastros quebrados, lamenta ter naufragado num mar de Ouro, ou seja, sente-se prisioneiro do vazio poético - isto se entendermos o Ouro como o símbolo ideal da arte.

Este tema da esterilidade e paralisia artística desenvolve-se num soneto, com ligeiras alterações formais, de rima e métrica regulares, estruturado em vários momentos. Assim, dos versos 1 a 4, apresenta-se a situação em que se encontra o sujeito poético: navega perdido, porque se sente incapaz de criar arte, sentindo-se reduzido a metade de si mesmo; dos versos 5 a 8, chora, ao recordar um passado grandioso e fecundo no que respeita à poesia; nos versos 9 a 11 e Findei do verso 12, são descritas as etapas negativas que o conduziram à situação que vive presentemente; já nos últimos versos, 12-14, compara o que foi ao que é.

Há muito (longamente) que espera o regresso à criação poética (Dormindo fogo), o que agudiza mais a dor provocada pela incapacidade criadora. Deste modo, afirma que Tudo se me igualou num sonho rente, / E em metade de mim hoje só moro.... Reconhece, portanto, ter perdido a metade de si responsável pela criatividade artística. O recurso a sons nasais (-in, -en, -um) e à aliteração do fonema nasal /m/ sugerem a profunda tristeza que tomou conta do poeta frustrado, já que, sem capacidade criadora, não se sente um verdadeiro poeta. Afinal, ser apenas metade é o mesmo que ser nada: Hoje é nada, outrora foi Ouro, o absoluto. Esta oposição passado/presente está conotada pelas palavras-rima Ouro/moro. A utilização metafórica do verbo morar realça a estagnação em que caiu, já que mora no vazio poético.

Com amargura, recorda as antigas criações artísticas: tristezas de bronze, Pilastras mortas, mármores ao Poente. As palavras que destacámos são símbolo de perfeição. Contrariamente, a fim de enfatizar a ausência de inspiração poética, recorre à imagem de um claustro de lajes brancas do qual já não se erguem preces: onde nunca oro. Não ora, o mesmo é dizer, não cria, dorme.

Percorrendo passos sucessivos, nitidamente traduzidos pela cadeia de formas verbais no pretérito perfeito – Desci/ Dobrei/ Quebrei/ Talhei/ Findei -, chegou o poeta à estagnação. Este percurso gradativo faz-se também pelo recurso a imagens como o manto de Astro, a taça de cristal, o Oiro do meu rastro. Mais uma vez, substantivos conotadores de perfeição estética, sobretudo os maiusculados, como é habitual, na estética paúlica: Astro, cristal e Oiro. Apagou-se o rastro criador no sujeito poético.

O último terceto reúne uma série de neologismos, alcançando, com a renúncia do verbo (Findei), uma descrição estática da esterilidade e paralisia em que se encontra. Mário de Sá-Carneiro aproxima-se do poema de Fernando Pessoa Crepúsculo, no qual se torna evidente a prisão no sonho e a estagnação subsequente dessa situação. Profundamente insatisfeito e amargurado, tal como o denota a pontuação suspensiva, o poeta deixa escapar um desabafo sentido: Ó pântanos de Mim – jardim estagnado! O ponto de exclamação é bem expressivo da revolta que sente perante a sua incapacidade actual. A imagem do jardim deixa, no entanto, no ar, a possibilidade de regressar ao que foi outrora. Em qualquer altura o fogo poder-se-á reacender.

 

A confissão de uma grandeza que pretendeu alcançar e o reconhecimento de uma certa megalomania que o não deixou viver nem adequar-se à realidade são uma constante na poesia de Sá-Carneiro. O seu excessivo narcisismo, que, aliás, levou a que alguns críticos o considerassem o Narciso dos Narcisos, a sua tendência para a dispersão e para os exageros, se motivaram alguns dos seus mais belos poemas, conduziram-no também, tristemente, à autodestruição. Nunca deixou, afinal, de se sentir Qualquer coisa de intermédio/ Pilar da ponte de tédio/ Que vai de mim para o Outro.