Enviado especial


Fotos de Timor

Diário de um Professor 

Relatos de Labor em Timor

Por Luís Sá Reis

( adaptado)

 

Encontro-me em Timor Leste, na cidade de Díli, desde o dia 27 de Setembro de 2000.

Como tem decorrido o meu trabalho pelas terras Mauberes?

Actualmente encontro-me a leccionar Português nas instalações da escola SMA2 de Balide (em Díli), mas oficialmente a escola é a SMA3 de Díli, que por motivos de obras de reconstrução, nos levou a trabalhar naquelas instalações.

A Escola tinha inicialmente mais de mil alunos, no entanto, por dificuldades económicas, motivos de trabalho, sustento familiar e desinteresse de alguns, o número reduziu para menos de mil, divididos por 9 turmas do 10º ano, 6 do 11º ano e 6 do 12º ano.

Lecciono a disciplina de Língua Portuguesa a 4 turmas do 11º ano, tendo uma carga horária de 5 tempos lectivos por semana com cada turma. O número de alunos actual em cada uma é de cerca de 40. Além disso, apoio uma docente timorense, que também dá Língua Portuguesa, na planificação das suas aulas e no esclarecimento de algumas dúvidas. Foi-me solicitada a colaboração no Conselho Administrativo da escola, nomeadamente para a organização, e distribuição dos livros das várias disciplinas.

Foi-me pedido ainda auxílio na organização de uma biblioteca na escola. Assim, solicitei apoio aos colegas da Escola Secundária Nº1 de Aveiro, nomeadamente, ao grupo de estágio de Português e Latim, que já me enviou livros e materiais escolares. Muito Obrigado, em nome de Timor, a todos os que contribuíram para a recolha deste material.

Deixem-me fazer um parênteses  e dizer-lhes que a UNTAET – United Nations Transitional Administration in East Timor–,encarregada da distribuição dos livros pelas escolas, entregou-nos livros de Inglês para todos os alunos; além de cerca de 2 000 livros de Economia; é um número curioso para uma escola com menos de mil alunos; ou seja, deixaram quase 2 livros para cada aluno – devem ter pensado que Timor precisa de apostar é numa Grande Economia; para finalizar, deixaram 3 caixotes com 40 livros de Língua Portuguesa, o dito manual Português Sem Fronteiras, isto é, 120 livros para 21 turmas.

Conclusão: cada professor de Português vai diariamente ao Conselho Administrativo, leva  20 manuais para as aulas, distribui um livro por cada dois alunos e, no fim da aula, recolhe os livros, que se colocam novamente no Conselho Administrativo.

Deixo algumas questões no ar: Porque é que a UNTAET distribuiu os livros de Inglês em primeiro lugar? Porque é que distribuiu os (poucos) livros de Português em último lugar?  Será alguma das sensações  de Lusofobia e Anglofilia que já tive?

Talvez  seja    impressão  minha!...

Pedi ao Director da Escola que reforçasse as janelas e as portas da sala destinada à biblioteca da escola, pois já houve assaltos pela falta de vidros nas janelas. Não quero de maneira alguma que desapareça esta preciosa oferta da Escola Secundária Nº 1 de Aveiro.

Neste ano lectivo, houve inúmeras candidaturas ao ensino superior, o que levou a que muitos estudantes não entrassem na Universidade. Tomada uma medida para atenuar o seu desagrado, os 2000 alunos frequentam agora um se-mestre propedêutico e, caso obtenham aproveita-mento, entram de imediato na Universidade, no pró-ximo ano lectivo.

Como nesse semestre, incluíram a disciplina de Língua Portuguesa e não havia professores suficien- tes na Universidade de Timor Leste, pediram auxí- lio à Missão Portuguesa em Díli, para que alguns de nós leccionássemos aulas de Português. Assim, a mim, atribuíram-me 3 turmas, com uma carga global de 8 horas semanais. Devo re- conhecer que é muito agradável trabalhar com estes alunos, pois já são mais adultos, responsáveis e trabalhadores. Têm esperança no futuro.

Além disso já se encontram muitos alunos com conhecimentos de Português, o que facilita um pouco o nosso trabalho.

Na escola SMA e de Díli, os alunos são mais novos e quase só falam Tétum e Bahasa Indonésio. Ando já a frequentar um curso de Tétum, destinado aos professores portugueses, para podermos ter uma maior interactividade com os alunos.

 Na verdade, o pouco Tétum que já sei falar tem-me ajudado imenso. Aliás, os alunos até reagem de forma mais positiva, pois vêem que nós também aprendemos a sua íngua. Noto que têm vindo a participar cada vez mais nas aulas.

 De início, apenas participavam voluntariamente os alunos que falavam um pouco de Português. Tenho, no entanto, incitado todos os alunos a participar activamente na aula através da leitura e da escrita no quadro. É uma tarefa árdua, mas os alunos já se sentem muito menos intimidados a participar. Digo intimidados, porque, inicialmente, cada vez que eu fazia algum movimento mais brusco ou repentino perto deles, encolhiam-se com medo de serem repreendidos corporalmente.

Compreenderam depressa que a agressão não é o meu tipo de linguagem. Tenho, por isso, conquistado cada vez mais a sua confiança e o seu respeito.Sinto alguma dificuldade em falar de aproveitamento, dado o elevado número de alunos por turma. Conheço, no entanto, os melhores e os que mais participam. Conheço também aqueles que não se interessam e não fazem o trabalho de casa. O complicado é distinguir o enorme número de alunos que apenas participa quando os solicito.

Notei, desde o início, uma grande vontade, por parte dos docentes da escola, em organizar o funcionamento do estabelecimento escolar. De facto, têm-no conseguido.

A Escola não possui meios económicos para melhorar as suas infra-estruturas, mas com o pouco dinheiro cedido pelo distrito de Educação de Díli, com o que se recebe das propinas dos alunos e com a ajuda e colaboração directas dos professores da Direcção e Administração da Escola, vão-se notando algumas melhorias no meio escolar.

Na escola, além de mim e do meu colega João Paulo Freire, há nove professores que falam relativamente bem a língua de Camões. Há alguns que vão dizendo algumas palavras e que têm melhorado um pouco os seus conhecimentos da Língua Portuguesa com a formação de professores que tem vindo a ser dada por alguns colegas nossos. Há, todavia, professores que não sabem Português, nem se preocupam em saber. Aliás, tive conversas informais com um professor timorense que me disse que há professores pró-integracionistas na escola, que não estão minimamente interessados no ensino da Língua Portuguesa.

Logo de início notámos, eu e o João Paulo, uma grande desconfiança quanto à nossa presença na escola. Paulatinamente, com o nosso esforço, empenho e exemplo, fomos conquistando a simpatia e a confiança da maior parte dos professores da escola. Verificamos, todavia, ainda alguns olhares laterais de desconfiança.

Vou continuar o meu trabalho na Escola e também na Universidade, cada vez com mais empenho e boa vontade, pois estou convencido de que, com isso, consigo transmitir a todos os professores e alunos o objectivo da nossa presença em Timor Leste, que é a ajuda e colaboração no ensino da Língua Portuguesa.

Tenho esperança que esta ajuda seja sentida como algo útil e necessário para o povo timorense.p

 

Díli, 23 de Março de 2001

[voltar ao início]

[fotos]