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ANÁLISE ESCULTÓRICA do túmulo de Fernão Teles de Meneses da autoria de Diogo Pires-o-Velho (ÁNALISE DE UMA ESCULTURA PARA A DISCIPLINA DE HISTÓRIA DA ARTE)
Trabalho realizado por: Mariana Pires de Melo 11º B , nº 17 Escola Secundária Marques de Castilho, Águeda Março 2001
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| ÍNDICE:
à Enquadramento Histórico- Artístico
1.
Identidade e Natureza da Obra
5.
Comentário ou Apreciação Crítica
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“ O Manuelino, cujo período de pleno florescimento (…) constitui um gosto artístico singular a vários títulos (…) enriqueceu brilhantemente o clima artístico da derradeira fase da Idade Média da Europa (…).” (1) (1)Nunes,
Paulo Simões, História da Arte 11º, pág.166, Leituras 11, 2000,
Lisboa, Lisboa Editora.) Esta
fase artística da História reflecte-se um pouco por todas as
dimensões da Arte, pois como se caracterizou mais pelos seus elementos
decorativos, estes são algo que se pode acrescentar a qualquer peça e
que se pode encontrar em qualquer lado. No trabalho que de seguida vou
apresentar tentarei, por meio da análise de uma peça de escultura tumulária,
evidenciar as características do estilo Manuelino, não de uma
maneira muito aprofundada mas
prática e esclarecedora, e caracterizar a própria peça nas várias
perspectivas ( formais e temáticas ), bem como a época em
que foi feita. Vou dar ainda a conhecer um pouco da vida e do trajecto artístico
do seu autor. O trabalho a apresentar está estruturado da seguinte forma:
quatro grandes tópicos ( Introdução; Enquadramento Histórico-Artístico;
Análise da Obra ; Conclusão) em que um deles, a Análise da Obra, se
subdivide em outros cinco assuntos para facilitar a compreensão.
Apresento ainda um pequeno léxico onde estarão os conceitos com que me
deparei ao longo do trabalho e cujo significado desconhecia. Agora que já disse ao que me proponho, convido-vos a fazer uma pequena viagem ao tempo em os Portugueses viam no mar a esperança e que D. Manuel se anunciava próspero…Espero que gostem!
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ENQUADRAMENTO HISTÓRICO-ARTÍSTICO:
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O estilo que brotou por toda a Europa, na segunda metade da Idade Média
(Gótico como lhe chamaram os renascentistas) adquiriu vários
regionalismos nos países europeus, no seguimento da sua fase final - o Gótico
Flamejante. Portugal não foi excepção. A
designação “Arte Manuelina” foi criada para englobar uma série
de obras realizadas durante o reinado de D.Manuel (1495-1521),apesar de
ter começado a notar-se já no reinado de D. João II (1481-1495). No
século XV, a paz com Castela, a procura da afirmação da nacionalidade e
o início da expansão marítima, foram tudo factores que se mostraram
favoráveis à criação artística, com certas características. A arte
Manuelina vai ser então uma fusão de vários factores. A continuidade do
Gótico Final em conjugação com os regionalismos desenvolvidos nos
outros países e a assinatura própria deste novo estilo (a utlização da
heráldica real e as conotações relacionadas com o período de expansão
marítima) emergem numa corrente que abrangeu a arquitectura, a pintura e
a escultura portuguesas. Mas foi sobretudo na decoração que esta arte se
afirmou, caracterizando-se pela exuberante ornamentação, que traz
novos volumes e intensifica a simbologia presente nas obras. A enorme
utilização dos motivos vegetalistas, naturalistas, geométricos,
com ligação ao mar e aos descobrimentos, do quotidiano
e dos símbolos da nação são imagem de marca para o estilo que
perdurou no nosso país. Este caracterizou-se ainda pela transmutação
dos elementos arquitectónicos e cobriu todo o território nacional
como afirmação do orgulho português e assinatura de um Rei
( D. Manuel que por ser ilegítimo queria mostrar que tinha tanto
poder como outro qualquer).
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ANÁLISE DA OBRA:
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1. Identidade e Natureza da ObrA
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|
Por
se encontrar numa época de transição entre o Gótico Flamejante
(caracterizado na sua grande maioria,
pelo Ciclo Batalhino, em Portugal) e o Manuelino, este túmulo apresenta
características estéticas dos dois períodos. A
arca tumular está toda ela decorada com motivos vegetalistas variados e
misturados com animais fabulosos. Esta densidade vegetalista que ocupa
toda a superfície do túmulo é característica de um gótico tardio. O
tratamento volumoso e exuberante que estes motivos receberam anuncia já o
surto manuelino. A arca ostenta ainda, na parte frontal, três brasões e
por cima destes uma tarja na qual se encontra o epitáfio. No friso
inferior consegue ver-se , ao centro, uma máscara de um negro com um
colar de guizos ao pescoço e uma densa folhagem a sair-lhe da boca, que
se mistura mais à frente com animais fantásticos e homens selvagens. A
figura de Fernão Teles de Meneses, descansa sobre a arca tumular com a
cabeça apoiada numa almofada simples e os pés sobre uma mísola.
Encontra-se trajado com a armadura de cavaleiro completa com dalmática,
a cabeça descoberta com cabelos ligeiramente ondulados (característica
da escultura de Diogo Pires-o-velho)
e os olhos semi-cerrados. As mãos em posição de orante e o rosto
tranquilo são parte de um retrato idealizado. O
caso do túmulo de Fernão Teles é único na solução encontrada para o arcossólio. O arco, neste caso em ogiva (que é como se fosse uma espécie
de moldura, nos túmulos parientais ediculares em geral) vai conter no seu
interior um dossel, provavelmente a propósito da condição do tumulado
(cavaleiro) , que se associa às tendas utilizadas pelos nobres. Este
dossel imite naturalidade nos os seus panejamentos, que descrevem
imensas pregas e revestem a parede interior do túmulo
envolvendo a arca feral. Os panos do dossel são apanhados de lado
por dois “homens selvagens” (símbolo da descoberta de novas civilizações
que começou a ser muito usual na Europa nesta época). “O conjunto, de
uma elegância requintada, sugere uma inspiração em modelos
italianizantes, nomeadamente na escultura funerária de Veneza, onde o padiglione
surge com bastante frequência”. (3) O arco ogival contém ainda cinco
arcos trilobados
no topo, típico da época. Todo
o tipo de tratamento na obra sugere uma leveza e o movimento é
incitado através das pregas do dossel. O tipo de trabalho é cuidado,
o que remete para uma delicadeza. (3) Pereira, Paulo, História da Arte Portuguesa, vol.II, pág.175, Temas e Debates, 1995
Este
tipo de obra, um túmulo, era geralmente resultado de um desejo de
afirmação pessoal, ou de distinção hierárquica do sepultado. As
pessoas com mais posses gostavam de serem lembradas posteriormente e
trabalhavam nesse sentido mandando elaborar sepulcros destinados a
acolherem-nas na sua última morada. Portanto, a partir da leitura deste túmulo,
e de outros da época, conseguimos retirar esta informação acerca da
sociedade, e claro, do estatuto do sepultado. Esta
obra encontra-se inserida no princípio do Manuelino, finais do Gótico.
É uma fase de plena transição, pois encontramos ainda algumas marcas
góticas mas conseguimos reconhecer características que anunciam
claramente o Manuelino (a simbologia heráldica, representada pelos
brasões, o tratamento volumoso dos elementos vegetalistas e a abundância
dos mesmos e algumas conotações marítimas ou dos descobrimentos, como
os homens selvagens). O
túmulo no seu todo utiliza muito o naturalismo, mesmo pela representação
do jacente como pela decoração da arca em si. Este caracteriza-se
predominantemente pelo volume e expressividade criada na decoração e
pelo movimento presente nas pregas do dossel.
O
túmulo de Fernão Teles de
Meneses data de 1490, logo pertence e uma época que se caracterizou
pela prosperidade do comércio ultramarino, o qual possibilitou um
grande desenvolvimento artístico em geral.
Se
situarmos Portugal e o resto do mundo na época da elaboração da obra
verificamos que muitos acontecimentos importantes foram contemporâneos
com ela. O espaço de tempo que circunda a obra (antes e depois) é
constituído por dois reinados: o de D.João II (até 1495) e o de D.Manuel
I (a partir dessa data. Em 1492, dois anos depois do túmulo de Fernão
Teles, Colombo atinge a América, e dois anos depois (1494) é feito o
Tratado de Tordesilhas. Em 1497, já no reinado de D. Manuel I, Vasco da
Gama parte para a Índia com a sua armada. Depois desta pequena
retrospectiva política e económica apenas completo com o plano artístico:
a época em que o Gótico e o Manuelino se fundem. Esta
obra deve ter sido encomendada pelo próprio a
Diogo Pires–o-velho, que atravessou as duas épocas, e se
destacou na escultura coimbrense da 2ª metade do séc. XV, até
aproximadamente 1513. Este autor produziu obras de maiores dimensões que
o seu conterrâneo João Afonso ( escultor da escola coimbrã dos meados
do século XV). Trabalha os panejamentos mais naturalmente e os seus
rostos são normalmente caracterizados pelas faces ovais e pelos cabelos
longos com pequenas ondulações. Tem tendência ainda para, já em
algumas das suas obras, uma individualidade dos santos. Os seus trabalhos
estendem-se das margens do Mondego a Matosinhos. As
informações que podemos retirar deste túmulo são basicamente acerca
da escola coimbrã e do próprio tumulado, pois todo o
enquadramento do seu sepulcro ( o dossel, a armadura, os animais, os
homens selvagens) remete para a profissão que desempenhou em vida:
cavaleiro nobre. Como já referi , era muito comum na altura, quem tinha
posses, mandar fazer os seus túmulos para se afirmar e demarcar o seu
estatuto, para que as gerações vindouras tivesse dele conhecimento. Esta
obra encontra-se na Igreja do Mosteiro de S.Marcos, próximo de
Tentúgal, Coimbra, onde sempre se encontrou pois este tipo de túmulo
(parietal)
é parte integrante da arquitectura do edifício.
5.
Comentário ou Apreciação
Crítica Esta
obra, quando observada como um todo dá-me a sensação de tranquilidade e
do descanso que pretende representar. Acho que o cair dos tecidos e o próprio
enquadramento do túmulo lhe dá um ar “aconchegado” e do género de
refúgio. Essa até foi uma das razões que me levaram a escolher esta
obra, pois achei a utilização do dossel realmente curiosa! O ar
descansado do jacente faz ainda transparecer, na minha opinião, uma
despreocupação e retrata de maneira idealista ou optimista a morte. Depois
de uma observação mais atenta dos pormenores e a partir das informações
de que agora disponho, acho que não existe um elemento que eu possa
considerar fundamental ou mais importante que os outros, pois só todos
juntos podem transmitir as sensações que descrevi. Contudo, acho que a
utilização do dossel é uma característica inovadora que realmente
salta à vista e que resultou muito bem. Apesar
de não conhecer o local onde se encontra, acho que se deve enquadrar bem
no meio circundante, pois se é um túmulo parietal edicular (insere-se na
parede) deve ter sido pensada para respeitar o espaço onde está
integrada.
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Para
concluir, acho que depois de lido o meu trabalho podemos sublinhar alguns
aspectos mais importantes sobre a obra. O túmulo parietal edicular de
Fernão Teles de Meneses, datado de 1490 e enquadrado na Igreja do
Mosteiro de S.Marcos em Tentúgal, Coimbra, é espelho das características
Góticas finais/ princípios de Manuelino da altura. Sobre o seu escultor,
Diogo Pires-o-Velho, sabe-se que era um grande mestre da escola coimbrã. Neste
trabalho acho que abordo uma característica sobre o Manuelino que por
vezes é desconhecida ou omitida. O Manuelino não começa somente no
reinado de D.Manuel I, vem já de trás, do reinado de D.João (diz-se que
remota a cerca de 1440)
embora tenha sido no reinado de D.Manuel que
assumiu maior protagonismo devido ao êxito dos Descobrimentos e à
grande produção artística realizada no seu reinado. Ao apresentar o
trabalho sobre esta obra, realizada no limiar da época de transição,
mostro a veracidade das afirmações, pois consigo encontrar facilmente
características de um Gótico final com claras influências Manuelinas. Acho
que a partir deste trabalho era possível fazer um acerca do desempenho do
seu autor e das outras obras que realizou, pois nesta pesquisa apenas
salientei os aspectos mais importantes do seu percurso artístico. Outro
assunto que também me suscitou o interesse foi o próprio tumulado, pois
só tenho uma informação acerca do seu estatuto (cavaleiro) e gostava de
saber mais acerca da sua vida, porquê ser sepultado na Igreja do Mosteiro
de S.Marcos… mas infelizmente não encontrei mais informações a não
ser as que apresento. Por
fim, acho que consegui preencher os objectivos a que me propus no início
do trabalho e fiquei a conhecer melhor os assuntos que esta pesquisa
envolvia. Gostei muito de fazer o trabalho… Espero que tenham gostado de
o ler!
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à Pereira, Paulo, História da Arte Portuguesa,
vol.II, pág.174/175, Temas e Debates,1995; à
Reis, A. do Carmo, História da Arte 11º ano, pág. 210/211, Porto
Editora; à
Torres, Ferreira, História Universal- Idade Média/ Idade Moderna,
vol.II, 4ª edição, Edições Asa; à
Diciopédia 2000; à
Dias, Pedro, História da Arte em Portugal , O Gótico, vol. IV, pág.137,
Publicações Asa; à
Nunes, Paulo Simões, História da Arte 11º, pág.
156;164;165;166, 2000, Lisboa, Lisboa Editora; à Barreira, Aníbal, Páginas do Tempo 8ºano,
pág.61/76,1996, 1ª Edição,7500 Ex., Edições Asa. |
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