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Nascido em Leiria em 1892 e falecido em Silva Porto, Angola, em 1951),
Cristiano Cruz foi uma figura importante do 1º modernismo, ao lado de
Amadeo Souza-Cardoso e Santa-Rita, muito embora tenha feito das artes plásticas
uma breve actividade juvenil. Veterinário de profissão, foi um autodidacta na
arte, onde se destacou como ilustrador, caricaturista e pintor, aberto a várias
influências. Protagonizou o momento inicial de ruptura com o academismo e o
conservadorismo, assumindo publicamente essa atitude provocatória em textos de
jornais (ex: em 1913 publicou no “Diário da Tarde” uma carta provocatória
intitulada «Abaixo o bota de elástico»), em caricaturas e mesmo no empenho
que colocou na organização do I Salão de Humoristas (1912).
As suas 1ªas caricaturas datam de
1909, quando ainda se encontrava no meio estudantil e boémio de Coimbra. Em
1910, vem para Lisboa onde continua a publicar os seus desenhos satíricos em vários
jornais, ao lado de outros artistas. Até 1913 prosseguirá uma actividade fértil
na área da caricatura (designará esta fase da sua obra como de “estilização”),
empenhado na renovação do humorismo português. Nesse âmbito, participará
actividade nos Salões dos Humoristas, em 1912 e 1913, tendo a sua obra merecido
grandes elogios. Depois de 1913 dedica-se à pintura, iniciando uma outra fase
da sua obra, conhecida como “expressionista”. Em 1916 irá participar na I
Guerra Mundial, facto que dará à sua pintura um sentido trágico da existência.
Continua a pintar até 1919, altura em que, repentinamente, resolve abandonar a
arte e o país: embarca para Moçambique e depois para Angola, onde se vai
dedicar exclusivamente à sua profissão. Este seu abandono repentino veio
colocar um fim abrupto numa carreira artística que se adivinhava promissora em
termos de modernidade. Mas ao mesmo tempo veio transformá-lo numa espécie de
mito/ídolo dessa mesma modernidade: o seu gesto revela o inconformismo e a
rebeldia dos artistas desta 1ª geração modernista. Mas ele revela, também,
um certo desencanto que marca o fim
deste período criativo da nossa cultura.
As características da obra de Cristiano Cruz revelam uma ruptura com a
arte do séc. XIX e uma procura de modernidade que caracteriza a
arte europeia dos inícios do séc. XX. São já visíveis nas suas
caricaturas e desenhos, de excelente qualidade. Através deles, o artista
procura captar visualmente o mundo circundante, com um humor ácido, muitas
vezes anti-clerical (como republicano, não se esquivou a comentários à
hipocrisia da Igreja), ou que atingia outros aspectos da situação política
nacional ou mesmo internacional. Mas também os hábitos sociais e culturais do
regime republicano mereceram as suas críticas inteligentes, irónicas e
corrosivas. As características do seu traço marcam uma ruptura com o modelo
caricatural do séc. XIX: é um traço autonomizado, anti-naturalista, mas
ritmado; as linhas são simplificadas e sintéticas, se bem que muito
expressivas; as cores são clara e contrastantes; a composição estrutura-se de
forma geometrizante e sintético e há uma nítida articulação da figura com o
fundo. Há uma preocupação muito moderna em termos caricaturais, que é a de
captar a essência da imagem como crítica e não
como narrativa (isto é, não se preocupa em inventar anedotas), o que
significa sintetizar e recusar todo o decorativismo. É um criador da sátira
modernista. Enquanto pintor, o seu ponto alto situa-se perto de 1916. Nas suas pinturas, de pequeno formato, permanece forte a matriz gráfica e, frequentemente, o mesmo humor amargo e audaz. As suas pinturas demonstram um grande potencial expressionista (aliás, esta é a sua fase conhecida mesmo por expressionista) numa linha próxima de Kokoschka e Schiele, não por conhecimento directo da obra destes artistas, mas pela afinidade de concepções pictóricas: a síntese estruturada do desenho, a pincelada forte, o cromatismo nebuloso, não modelado, aplicado com crueza, e a consciência trágica da existência. Esta procura do dramático é muito forte nos quadros que resultam do seu contacto directo com o absurdo da guerra que presenciou enquanto militar em França: abundam nessas obras a impressão de vazio, de silêncio, de morte, ou de um dinamismo cruel e voraz. Para além desta temática de morte e vazio, a obra de Cristiano é ainda modernista pelo geometrismo quebrado das formas, pela composição oblíqua, pela valorização do suporte plano, pelo esbatimento dos volumes. Tematicamente, as suas composições retratam cenas imaginárias e fantasmagóricas, figuras e cenas do quotidiano e vários auto-retratos que sintetizam o seu percurso como observador impiedoso de si próprio e do mundo envolvente. Por tudo isto, também na pintura, Cristiano Cruz representa já um ponto de ruptura face à tradição, no contexto do 1º Modernismo português
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