“A criança deve ter plena oportunidade para brincar e
para se dedicar a
actividades recreativas, que devem ser orientadas para os mesmos
objectivos da educação; a sociedade e as autoridades públicas deverão
esforçar-se para promover o gozo destes direitos.”
Princípio 7.º da Declaração dos Direitos da Criança (ONU,
1959) (1)
Este trabalho resulta de recolha de jogos infantis feita
por professores do primeiro Ciclo do Ensino Básico (1ºCEB) dos concelhos de
Oliveira de Azeméis e de Vale de Cambra, no âmbito da sua participação em
acções de formação contínua.
Por consequência, esta recolha está limitada aos espaços de acção dos
professores envolvidos e não pretende ser exaustiva e/ou completa. Pretende,
sobretudo, ser um suporte pedagógico do trabalho diário dos docentes. Num
mundo em rápidas mudanças, pretende-se também contribuir para o registo
daquilo que as crianças fazem actualmente, constituindo uma memória que
permita um melhor conhecimento deste importante aspecto da cultura infantil
e das suas tradições.
Esta Acção de Formação decorreu tendo como elemento orientador o
reconhecimento do importante contributo dos jogos infantis para o
desenvolvimento global da criança, ao nível das competências gerais e
transversais do currículo, nomeadamente a construção da cidadania, em
especial na faixa etária abrangida pelo 1ºCEB.
Entendendo-se o conceito de cidadania como conjunto de competências
necessárias para lidar com os outros e com os contextos num “referencial de
direitos e deveres exercidos de forma activa e crítica” (DEB 2002a), os
jogos infantis pedagogicamente orientados são um poderoso meio para se
atingir tal desiderato.
De facto, a Escola de hoje pretende “promover o desenvolvimento integrado de
capacidades e atitudes que viabilizem a utilização dos conhecimentos em
situações diversas...” (DEB 2001). Assim, considerando o conceito de
competência como “o saber em acção” ou “o agir em situação”, o correcto
enquadramento pedagógico dos jogos infantis permite a mobilização, de forma
integrada e equilibrada, de conhecimentos, capacidades, procedimentos e
atitudes, nos mais diversos tipos de situações, a fim de se tornar
competência demonstrada (DEB 2002b).
A esmagadora maioria dos professores do 1ºCEB tem a noção de que, através
dos jogos infantis, se conseguem desenvolver as competências gerais do
currículo e que o papel destes não se resume, exclusivamente, à sua acção
motora. Sabem que através destes jogos se podem desenvolver competências tão
importantes como a cooperação, espírito de grupo, respeito pelos outros e,
pelas regras, competências ligadas à iniciativa e adaptação, etc. No
entanto, esses mesmos professores salientam, muitas vezes, a dificuldade em
implementar os jogos no espaço escolar. Não se fala tanto em espaços
inadequados ou faltas de material, mas sim, sobretudo, na forma como as
crianças abordam os jogos.
Segundo os professores, muitas crianças têm a tendência para encarar os
jogos com uma atitude geral que pode ser caracterizada pela necessidade de
vencer a todo o custo, infringindo constantemente as regras estabelecidas,
não aceitando reparos ou sugestões. Têm ainda atitudes agressivas para com
tudo e todos. Tal facto leva muitas vezes os professores a “cortar o mal
pela raiz”, eliminando os jogos dos espaços escolares. Esta atitude global
de muitas crianças perante os jogos vem, na maior parte das vezes, da cópia
de um modelo de atitudes dos adultos, que se pode considerar, sem tibiezas,
pouco correcto.
Partindo do pressuposto de que as brincadeiras infantis
não são inatas, ou seja, necessitam de aprendizagem(2), consideramos como
algo insubstituível que o educador de infância ou o professor do 1ºCEB
apresente, numa atitude persistente e contínua, os jogos, na sua versão
pedagogicamente correcta, para que as crianças possam vivenciar emoções e
experiências estruturantes da sua forma de agir sobre o envolvimento. Se a
criança, nesta faixa etária, não interiorizar noções tão fundamentais para a
vida em comum como a cooperação com os outros ou o respeito pelas regras,
por exemplo, quando é que irá interiorizar estes e outros conceitos?
Partindo-se da conceitualização ligada às “inteligências múltiplas” e aos
“temas curriculares transversais”(3), os jogos infantis são apontados com o
um meio privilegiado para a auto-descoberta e auto-avaliação, para a
valorização e convívio com as diferenças e criação de uma postura de adesão
activa a novas aprendizagens.
O jogo infantil é um elemento de aprendizagem e desenvolvimento, de
adaptação social, de libertação pessoal e conservação da própria cultura. Ao
encerrar uma série de valores, nomeadamente recreativos, pedagógicos,
culturais, etc., o jogo tem diversos campos de aplicação: o ensino, a
recreação, o desporto e a dinâmica de grupo.
Didacticamente, e apenas para termos uma noção mais precisa do impacto do
jogo no desenvolvimento global da criança, apresentamos o seu efeito nas
diferentes dimensões da sua personalidade.
No que se refere aos aspectos sociais, Piaget afirma que “Os
jogos são admiráveis instituições sociais” (in (3) ) porque, ao promoverem a
comunicação interpessoal criam um relacionamento grupal. Ou seja, jogando, a
criança tem acesso à realidade social, compreende as regras, a sua
necessidade, construção e importância na delimitação da actividade. A
criança apreende a realidade, pois o jogo, para Piaget, recria as situações
vividas na vida real. Percebe quais são os seus limites e os limites dos
outros porque, muitas vezes, é a própria criança quem se vê na necessidade
de negociar as regras dos jogos que realiza. O relacionamento social
desenvolve-se na vivência de situações estratégicas de liderança e
cooperação a fim de se obter objectivos comuns ao grupo. Os jogos poderão
ser, assim, redutores das tensões do grupo, permitindo a participação,
integração negociada e, ao mesmo tempo, a manutenção das tradições.
Os adultos assumem em todas as civilizações a tarefa de
educar os seus descendentes (3) . De forma mais ou menos conservadora, os
adultos seleccionam conhecimentos, competências e procedimentos que julgam
mais úteis para o pleno desenvolvimento das crianças e para a sua
progressiva assimilação na sociedade. Ora, se ao jogar as crianças assimilam
simbolicamente as acções e atitudes da vida real, então o jogo infantil
funcionará como um veículo de transmissão social, ou seja, “uma interessante
ferramenta educacional” (3).
Potencia-se o desenvolvimento afectivo quando a criança é
confrontada com a necessidade de aceitar e submeter os seus impulsos e
desejos às exigências do jogo, quando convive com as frustrações e alegrias
e aceita o outro e as suas atitudes, procurando sempre a superação pessoal.
Ao criar soluções que lhe permitam jogar, a criança toma consciência das
suas potencialidades pessoais (na originalidade e adaptação, por exemplo).
Para jogar, tem de raciocinar, de julgar (o que é, ou não, apropriado no
momento), de argumentar e de chegar a um consenso.
Cognitivamente, ao jogar, a criança desenvolve a operatividade
e o pensamento lógico, porque o nível de desenvolvimento do pensamento
condiciona a actividade lúdica. Logo, a criança desenvolverá a qualidade do
seu pensamento utilizando o jogo como meio de treino da mente (Adelantado
1993). Jogar permite o treino das operações do pensamento como a
criatividade, a reversibilidade, as capacidades de associar, transferir,
discriminar, analisar, sintetizar, abstrair, etc. Desenvolve ainda o
pensamento estratégico, que é um suporte da inteligência e que nos permite
proporcionar respostas motoras de qualidade às mais diversas situações.
Ao nível motor, o jogo permite melhorar a aptidão motora,
elevando harmoniosamente as capacidades biomotoras (velocidade, força,
resistência, flexibilidade, os diferentes tipos de coordenação,
lateralidade, etc.). Permite ainda a estruturação das noções de espaço e de
tempo e o desenvolvimento da noção de ritmo. Em termos espaciais, segundo
Vasconcelos (1989), a criança desenvolve as noções de “à frente”, “atrás”,
ou “ao lado” de algo, ou alguém e, também, a estruturação do espaço nas
formações em grupo: “roda, coluna, fileira, estrela, etc.”
Os jogos infantis caracterizam-se pela simplicidade de
organização e pela pouca ou nenhuma necessidade de materiais. Huizinga,
citado por Adelantado (1993), considera o jogo “uma acção ou actividade
voluntária, realizada dentro de certos limites fixados no tempo e no espaço.
O jogo segue uma regra livremente aceite mas imperiosa e com um fim em si
mesma, acompanhada de um sentimento de tensão e alegria e da consciência de
ser algo diferente daquilo que se faz na vida corrente.” Esta definição é
uma das mais aceites, embora existam outras. Basicamente, a natureza do jogo
é definida pelas seguintes características: liberdade, ficção, alegria,
acordos e regras, improdutividade, passatempo, incerteza, prazer, esforço, e
trégua.
A introdução dos jogos tem de ser feita com alguns
cuidados, tanto maiores quanto maior for a sua complexidade ou menor for a
idade dos praticantes. Assim, as seguintes sugestões podem contribuir para
um maior sucesso da acção do professor:
* Seleccionar jogos representativos de todas as categorias (de caçadas, de
oposição, etc.), procurando a formação diversificada;
* Evitar o uso sistemático de jogos de eliminação, de “bota fora”, em que
resulta sistematicamente a eliminação de alunos menos hábeis, que são
exactamente aqueles que mais necessitam de exercitação;
* Reduzir o tamanho de grupos/equipas e/ou o espaço quando se pretendem
introduzir novas habilidades ou jogos, simplificando a organização;
* O número de jogadores deve ser variável em função do nível dos mesmos
(principalmente) e do espaço disponível. Quanto menor for a capacidade dos
alunos, menor deve ser o número de jogadores. Na introdução de um novo jogo
também se devem, inicialmente, colocar poucos jogadores.
*Evitar-se um clima de fixação de preferências dos alunos por outros,
promovendo a variedade de interacções. Por norma, o professor escolhe as
equipas, evitando os conflitos e organizando grupos homogéneos. Deve-se
variar os critérios de constituição das equipas, favorecendo a facilidade de
cooperação entre todos.
* Transmitir-se primeiro o objectivo do jogo e as habilidades principais
(“para se avançar no terreno, deve-se...”). Depois transmitem-se as regras.
Expliquem-se inicialmente só as regras principais e, mais tarde,
introduzam-se as outras. Assim, os alunos percebem a dinâmica geral do jogo.
Numa terceira fase, treinam-se as habilidades fundamentais do jogo.
* Nos jogos em que as regras proíbem o contacto físico entre os jogadores, o
seu cumprimento deve ser rigoroso.
* Nos jogos em que um jogador assume um “papel” diferente do dos outros (por
exemplo, ser o “rei” no jogo “O rei manda...”), o professor deve substituir
frequentemente esse aluno, para fomentar uma prática igualitária.
* O professor deve acompanhar o jogo, intervindo para que se cumpram as
regras, os princípios do jogo e/ou as decisões do árbitro. Deve-se habituar
os jogadores, desde o início, a respeitar as decisões do árbitro e/ou
professor.
* Os alunos devem habituar-se a explicar, antes de jogar, quais são as
regras principais e o objectivo do jogo. Tal é um factor de aprendizagem e
consciencialização, permitindo ainda verificar os conhecimentos do aluno e
antecipar possíveis erros.
Bibliografia Consultada
Adelantado, V. (1993): El Juego Infantil; in Fundamentos de Educación Física
para Ensenanza Primaria, INDE Publicaciones, Vol. II, pp. 629:731, Barcelona
DEB (2001): Currículo nacional do Ensino Básico Competências Essenciais;
Ministério da Educação, Departamento da Educação Básica, Lisboa, 2001
DEB (2002a): Reorganização Curricular do Ensino Básico Novas Áreas
Curriculares; Ministério da Educação, Departamento da Educação Básica,
Lisboa, 2002
DEB (2002b): Reorganização Curricular do Ensino Básico Avaliação das
Aprendizagens; Ministério da Educação, Departamento da Educação Básica,
Lisboa, 2002
Vasconcelos, O. (1989): Os Jogos Tradicionais Portugueses: sua importância
no desenvolvimento ontogenético da organização, orientação e estruturação
espacial na criança e no jovem adolescente; in Seminário “Primeiro Encontro
dos Jogos da Malha”, Oliveira de Azeméis
Sites de Internet
(1)http://www.gddc.pt/direitos-humanos/textos-internacionais-dh/tidhuniversais/dc-declaracao-dc.html
(2) http://www.anped.org.br/0711t.htm
(3) http://www.veb-df.org.br/Adultos/Reflexoes/04Ativludica.asp