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Amor de Perdição - Camilo Castelo Branco


Real dama que ela era. Noutro ponto da Igreja estava, apontando em olhos e coração á mesma mulher, um alferes de infantaria. Marcos enfrentou o seu ciúme até ao final do ofício da Paixão. À saída do templo encarou no militar, e provocou-o. O alferes tirou da espada, e o fidalgo do espadim. Terçaram :

«Aos dois dias do mês de maio de 1784, pôs os Santos óleos o reverendo padre cura Notas

 

 

 

 

(1) Há vinte anos que eu ouvi de um coevo do fato a história do assassínio, assim contada Era em Quinta-feira Santa. Marcos Botel

as armas longo tempo sem desaire, ne ali, à entrada da "Rua do Jogo da Bola", o derribou morto. O homicida foi livre por graça régia.

(2) É a casa-palacete à "Rua da Piedade", hoje pertencente ao Major Antônio Girardo Monteiro. - (Nota da 1" edição).

(3) Esclarece este dizer de D. Rita a certidão de idade de Simão a qual tenho presente, e é extraída por Herculano Henrique Garcia Camilo Galhardo, reitor da real igreja da Senhora da Ajuda, do livro 14, a folhas 159 v. Reza assim

Prefáciosha, irmão de Domingos, estava na Festa de Endoenças, em São Francisco, defrontando com uma dama, namorada sua, e desl

 

m sangue. Amigos de ambos tinham conseguido aplacá-los, quando Luís' Botelha, outro irmão de Marcos, desfechou uma clavina no peito do alferes, e

João Domingues Chaves a Simão, o qual foi «batizado em casa em perigo de vida» pelo reverendo frei Antônio de S. Palágio, etc.».

(4) Nalguns papéis que possuímos do corregedor de Viseu achamos esta carta: "Meu amigo, colega e senhor. Entregará ao portador desta, que é o senhor padre Manuel de Oliveira, as cinqüenta moedas em que lhe falei na sua passagem para Lisboa. A apelação de seu filho está a meu cuidado, e está segura, a pesar das grandes forças contrárias. Seu amigo - O desembargador Antônio José Dias Mouralo Mosqueira. - Porto, 11 de fevereiro de 1805, Sobrescrito: limo. Sr. Domingos José Botelho de Mesquita e Meneses - Lisboa."
(Nota do Autor).

(5) Este romance foi escrito num dos cubículos-cárceres da Relação do Porto, a uma luz coada por entre ferros, e abafada pela sombra das abóbadas. Ano da Graça de 1861.

(6) "Hoje então!..." Vou-lhes contar um lance memorando dum filósofo da atualidade, lance único pelo qual eu fiquei conhecendo a pessoa. Hoje (21 de setembro de 1861) estava eu no escritório do ilustre advogado Joaquim Marcelino de Matos, e um cliente entrou, contando o seguinte: - "Senhor doutor, eu sou um lojista da rua de...: e fui roubado em oitocentos mil réis por minha mulher, que fugiu com um amante para Viena. Venho saber se posso querelar, e receber o meu dinheiro." Pode querelar, respondeu o advogado, se tiver testemunhas. O senhor quer querelar por adultério? - Responde o queixoso: "O que eu quero é o meu dinheiro." - Mas, redargüiu o consultor, o senhor pode querelar de ambos, dela como adultera, e dele como receptador do furto. - "E receberei o meu dinheiro?" - Conforme. Eu sei cá se ele tem o seu dinheiro?! O que é que não pode pronunciá-la a ela como ladra. - "Mas os meus oitocentos mil réis?!" - Ah! o senhor não se lhe dá que sua mulher fuja e não volte? - "Não, senhor doutor, que a leve o diabo; o que eu quero é o meu dinheiro." - Pois querele de ambos, e veremos depois. "Mas não é certo receber eu O meu dinheiro!?" - Certo não é; veremos se, depois de pronunciado, as autoridades administrativas capturam o ladrão com o seu dinheiro. - "E se ele o não tiver já" - redargüi o marido consternado. - Se o não tiver já, o senhor vinga-se na querela por adultério. - "E gasta-se alguma coisa?" - Gasta, sim; mas vinga-se. - "O que eu queria era o meu dinheiro, senhor doutor; a mulher deixá-la ir, que tem cinqüenta anos". - Cinqüenta anos! - acudiu o doutor. - O senhor está vingado do amante. Vá para casa, deixe-se de querelas, que o mais desgraçado é ele.

(7) Quando escrevi este livro, ainda existia o mirante. Agora, lá, ou aí por perto, está um salão de baile em que dançam nos dias santificados marujos e as damas correspondentes. - (Nota da 5ª edição).

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