A INDISCIPLINA
ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO
José Calado
Maio 1998
O ser humano dispõe de
mecanismos fisiológicos e psicológicos que lhe permitem adquirir e conservar
modos de responder, eficaz e adequadamente, ao meio que o rodeia; ao
adquiri-los, ele está em constante adaptação à mudança. A possibilidade de
aprender só se verifica porque existe, em todos nós, a capacidade para reter e
transmitir as experiências e progressos conseguidos.
Os
diferentes tipos de aprendizagem existentes, desde as mais simples às mais
complexas, implicam que se atinja,
como resultado final, uma mudança comportamental. Contudo é, particularmente,
ao nível das mais complexas que, alunos e professores, interagem num processo
sistematizado e específico, onde influem variáveis díspares. Aos primeiros
espera-se que aprendam e aos segundos exige-se que ensinem.
Não
será novidade afirmar que qualquer processo de aprendizagem só produzirá os
frutos desejados se estivermos perante alunos atentos e, consequentemente,
disponíveis para aprender o que o professor pretende ensinar. No plano teórico,
esta seria a situação ideal, contudo todos sabemos que na prática não é
assim que acontece.
De
entre os problemas que mais afectam os professores, no exercício da sua
actividade, a indisciplina e, logo, os factores relacionados com comportamentos
perturbadores na sala de aula, são os mais apontados.
Apesar
do conflito entre professor/aluno(s) na sala de aula
ser inevitável, a verdade
é que não deve ser ignorado. É necessário intervir, para que se viabilize a
existência de um clima relacional (tranquilo, segurizante e satisfatório) que
canalize o investimento de ambas as partes para a tarefa que, conjuntamente,
devem realizar.
Pretende-se
com este pequeno trabalho identificar o modo de intervenção a implementar
neste contexto, com base nos conhecimentos adquiridos ao longo das aulas de
“Dificuldades de aprendizagem e distúrbios comportamentais”. Adoptou-se
como estratégia inicial a observação dos comportamentos em sala de aula e,
posteriormente, procedeu-se ao delineamento da intervenção a adoptar. Em
primeiro lugar, considerou-se importante definir, não só o quadro teórico,
mas também a metodologia que orientou todo o trabalho realizado.
Em segundo lugar procede-se à apresentação e correspondente análise dos
resultados obtidos.
2. Considerações teóricas
2.1 Comportamentos
perturbadores:
Quando
pretendemos concretizar o que se entende por comportamentos perturbadores na
sala de aula é necessário atender a que estamos perante uma vasta gama de
comportamentos. Graubard define-os como sendo “um
tipo de comportamentos excessivos, crónicos e desviantes, que vão desde os
actos impulsivos e agressivos até aos actos depressivos e de afastamento, que
frustram as expectativas do receptor no que diz respeito aquilo que considera
ser adequado e que o receptor quer ver eliminados” (Rutheford, 15:1994).
Por outro lado, os comportamentalistas entendem o comportamento como sendo um
acontecimento externo e visível exibido por um indivíduo que podem ser
observados, medidos e alterados.
Os
comportamentos perturbadores constituem-se em comportamentos de indisciplina
quando perturbam o normal funcionamento das aulas através da adoptação de
atitudes desviantes em relação às normas estabelecidas. Efectivamente, diz-se
que existe indisciplina quando se
viola “o quadro normativo e o conjunto de regras que dele decorrem”
colocando em causa a manutenção “de um clima de ordem na sala de aula” que
é “propício à aprendizagem colectiva” (Espírito Santo[1]).
2.2 da indisciplina aos
Comportamentos assertivos:
Muitas
situações de conflito, geradoras de indisciplina no seio de dado grupo,
podem-se explicar em função do teor das regras a respeitar. Isto porque, são
raras as vezes que se comunica o teor de tais regras aos alunos. É necessário
que o professor assuma um papel activo, criando as “condições necessárias
para o estabelecimento, aceitação e manutenção das normas e das regras que
vigoram na sala de aula” (idem).
Torna-se
necessário que o professor adquira
a difícil capacidade de gerir a aula de modo a que obtenha um elevado grau de
disponibilidade, da parte dos alunos para a aprendizagem; quanto maior for a
motivação do aluno para a aprendizagem, melhor ele se comportará.
Ao
professor, no desempenho do seu duplo papel (instruir e manter a disciplina),
compete-lhe, não só concretizar o que é a disciplina, mas também definir os
procedimentos a adoptar para se conseguir a sua manutenção, tendo em conta as
recompensas e os castigos a aplicar a quem os transgrida.
Perante
a existência de um comportamento perturbador o professor deverá caminhar no
sentido de o substituir por um comportamento socialmente aceitável. Mas para
que se possa alterar um dado comportamento é necessário compreendê-lo, tendo
em conta os seus antecedentes e as suas consequências.

Neste contexto torna-se imprescindível a existência de meios e competências
específicas que permitam a manutenção da observação, válida e sistemática,
das situações problema. Tal facto implica a adopção de uma metodologia a
implementar em três diferentes etapas: identificação, avaliação e modificação.
A
realização deste trabalho decorreu de uma outra reflexão desenvolvida acerca
do insucesso escolar numa turma do 8º ano. Foi com base nos seus resultados que
a pertinência deste relatório sobre a indisciplina se justificou.
À priori convém realçar que foi solicitada a colaboração de um
professor da turma que auxiliou na recolha de dados
efectuada.
De
acordo com a abordagem teórica delineada, a metodologia
a ela subjacente deverá
fundamentar-se em três diferentes etapas: a identificação, a avaliação
e a modificação.
No
que se refere à primeira fase do
processo foi utilizada uma lista de verificação dos comportamentos a alterar
(os designados comportamentos perturbadores)[2]. A partir dos resultados
conseguidos concretizou-se quais os comportamentos considerados indesejáveis no
interior da sala de aula.
A
avaliação forneceu uma ideia aproximada da frequência com que os
comportamentos ocorreram. Foi, também, com base neste registo prévia que se
pode aferir o sucesso ou insucesso da intervenção a realizar. Por outro lado,
será importante referir que a avaliação complementou a primeira fase, na
medida em que tornou possível comprovar identificação inicial. Por seu turno
foi com base no tipo de comportamentos identificados que se seleccionou a técnica
de registo a adoptar.
A
análise funcional realizada permitiu conhecer a forma frequência e intensidade
dos comportamentos perturbadores. Importa agora, aplicar um programa que permita
implementar ou manter os comportamentos adequados, bem como reduzir ou extinguir
os que se mostrem ser inadaptados. Referimo-nos, agora, à fase da modificação.
Para
o efeito professor e alunos celebraram um contrato comportamental conjunto que os responsabilizou, formalmente, não só das regras a
obedecer na sala de aula, mas também das consequências que advêm do seu
cumprimento ou incumprimento (positivas ou negativas).
4.1 Caracterização da turma:
A
turma foi seleccionada em função do elevado nível de insucesso escolar que,
de acordo com as informações fornecidas pelos professores, a caracterizava. O
diagnóstico inicial permitiu-nos concluir que os comportamentos de indisciplina
eram mais frequentes nas aulas de matemática; consequentemente, era também
nesta disciplina que os resultados escolares se apresentavam menos favoráveis.
A
turma é composta por 7 elementos do sexo masculino e 10 do sexo feminino, com
idades compreendidas entre os 13 e os 17 anos de idade.
Dos
17 elementos que compõem a turma, 9 reprovaram pelo menos uma vez. No que se
refere ao local de residência a grande maioria (14 alunos) habita fora da vila
sede de concelho onde o estudo se realizou, tendo os alunos que se deslocar das
diferentes freguesias do concelho para frequentar a escola.
No
que se refere aos resultados escolares conseguidos no presente ano lectivo,
apontam para um elevado número de negativas no final do primeiro período sendo
o valor mais frequente “3 negativas”, uma vez que
9 alunos tiveram 3 negativas. Por outro lado, nenhum deles refere não
ter tido nenhuma negativa.
4.2 Identificação e avaliação:
Na
fase de identificação do problema foi privilegiada a observação dos
comportamentos perturbadores elaborando-se uma listagem descritiva dos mesmos.
O
resultado final da listagem anteriormente referida permitiu a adopção de uma
grelha apresentada por Ana Carita e Graça Fernandes (adaptado de Curwin e
Mendler). Foi, então, solicitado ao professor o preenchimento da referida
grelha tendo em conta, não só o comportamento assumido mas também a sua frequência[3].
Através deste processo detectou-se um sub-grupo no seio da turma
cujos comportamentos se apresentavam problemáticos.
Assim,
os dados recolhidos permitiram concluir acerca da necessidade de regular
determinados comportamentos, nomeadamente: o uso da palavra, a movimentação na
sala, o cumprimento do horário e das tarefas atribuídas[4].
4.3 Modificação:
tentativa implementada
De
modo a permitir uma intervenção que envolvesse toda a turma foi elaborado e
utilizado um contrato comportamental. Este visa um acordo entre ambas as partes,
professores e alunos, e tendo em conta a idade destes reforçou-se mais a
negociação do que propriamente as recompensas nele previstas.
Assim,
o professor comprometeu-se também a respeitar o horário e os prazos de
entrega dos testes e trabalhos corrigidos. As infracções cometidas eram
anotadas numericamente (uma vez que foi atribuído um código a cada uma das
regras estabelecidas) num quadro onde constavam os nomes dos alunos e do
professor[5].
Em contrapartida, a auto-estima e a confiança pessoal dos que se
respeitavam as regras estabelecidas eram diariamente elogiados. Deste modo,
tentou-se transformar o elogio numa fonte de reforço.
O
anexo nº 3 e 4 representam os dados recolhidos após a intervenção. De
referir que decorreu um mês desde que a mesma se iniciou. Os resultados, apesar
das limitações, demonstram ser positivos. O professor refere que se verificou
uma melhoria considerável no comportamento global da turma.
Tal como já tivemos oportunidade de referir os problemas de disciplina
constituem, para o professor, motivo de constante preocupação, não só
pela gravidade que tendem a assumir, mas também pelas consequências que
acatam. Estas consequências, traduzem-se quase sempre no mau aproveitamento
escolar dos alunos nelas implicados.
Neste sentido, com base nos resultados obtidos em investigações
preliminares que versavam sobre o insucesso escolar, seleccionou-se a turma
objecto de investigação.
De acordo com a pesquisa bibliográfica realizada a natureza desta
intervenção foi ser de dois tipos: preventiva e remediativa. Contudo, a formação
inicial de professores tem até agora, menosprezado estas questões de
indisciplina, o que faz com que raramente se proceda prevenindo tais situações.
Geralmente, as estratégia são adoptadas à posterior.
Os resultados conseguidos apontam a eficácia deste tipo de estratégias
na manutenção de um clima de trabalho favorável ao processo de
ensino/aprendizagem na sala de aula.
LISTA DE VERIFICAÇÃO DE COMPORTAMENTOS PERTURBADORES
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Quase nunca |
Às vezes |
Frequen-temente |
HIPERACTIVOFora do lugar Sempre a mexer-se na carteira Não consegue manter-se em fila Sempre a falar Tiques (piscar os olhos, roer as unhas, etc.) |
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DESINTERESSADOIndiferente, cansado Aspecto geral infeliz Olha fixamente o vazio Raramente pede ajuda, mesmo quando o trabalho é muito difícil Não se esforça por trabalhar Apreensivo no que diz respeito a ter de responder Chora ou grita sem ser provocado Evita chamar a atenção sobre si |
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DESANTENÇÃO/DESCONCENTRAÇÃONão segue as aulas Não liga ao que está no quadro nem nos materiais audiovisuais Raramente acaba trabalhos “Está nas nuvens” Exige constantemente explicações individuais dos trabalhos Distrai-se facilmente da tarefa por estímulos normais da aula (pequenos movimentos, ruídos) |
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AGRESSIVO Ataca as outras crianças, batendo-lhes, empurrando-as, etc. Ataca e provoca verbalmente as outras crianças Rouba Explode ou zanga-se quando as coisas não lhe correm bem Discute com o professor acerca do comportamento Destrói os pertences e os trabalhos escolares dos colegas Destrói as suas próprias coisas (ex.: trabalhos escolares) Reage violentamente quando se metem com ele |
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Quase nunca |
Às vezes |
Frequen-temente |
PERTURBADORExige todo o tipo de atenção do professor e colegas Não segue as aulas nem as regras da aula (sossego, pontualidade, etc.) Interrompe as aulas com travessuras (verbais ou físicas) Conta história bizarras Sem o controlo dos outros, é incapaz de seguir regras estabelecidas |
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NÃO-COOPERANTE Culpa os outros dos erros próprios Não segue a rotina Só trabalha quando é ameaçado com castigo Desafia os pedidos do professor Discute com os colegas sobre questões menores Tem de ter a última palavra nas discussões |
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MANIPULADORPede vezes de mais para ir ao médico Pede vezes de mais para ir ao quarto de banho Só trabalha quando se lhe dá ajuda individual Atribui os erros a tudo menos a si mesmo (ao tamanho do livro, à orientação do professor, etc.) Menospreza-se ou crítica o seu trabalho constantemente Tenta distrair os professores falando noutros assuntos Aborda tarefas e situações novas partindo do princípio de que “não é capaz” |
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COMPORTAMENTO SOCIAL INADEQUADO Queixa-se de que ninguém gosta dele Não tem amigos na escola Não gosta de ir para o recreio Não toma a iniciativa de brincar ou falar com os colegas É evitado pelos colegas Aspecto pessoal de falta de limpeza Não funciona em grupo ou em discussões de turma Ridiculiza os colegas, aborrece os mais novos ou mais pequenos |
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Turma |
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
7 |
8 |
9 |
10 |
11 |
12 |
13 |
14 |
15 |
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Número Nomes Dia |
Está fora do lugar |
Fala
fora da vez |
Interrompe
a aula |
Insulta |
Luta
com os colegas |
Atira
objectos |
Sai
da aula sem permissão |
Escreve
nas paredes e nas mesas |
Não
quer obedecer |
Copia |
Não
faz os trabalhos |
Chega
atrasado |
Falta
á aula sem justificação |
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1 |
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2 |
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3 |
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4 |
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5 |
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6 |
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7 |
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8 |
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9 |
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10 |
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11 |
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12 |
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13 |
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14 |
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15 |
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16 |
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17 |
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