Editorial

 

A ESCOLA DOS NOSSOS AVÓS

 

Já lá vai o tempo da “instrução primária”. A realidade da época em que esta expressão se utilizava data de um tempo remoto; o tempo dos nossos avós. É da escola desses tempos que nós vamos falar, da escola de “ontem”, para que possa ser comparada com a de “ hoje”.

A informação que vamos transmitir foi recolhida através de um pequeno inquérito que fizemos, ou aos nossos próprios avós, ou a pessoas da mesma geração. Em muitos casos, ficámos bastante surpreendidos com as respostas dadas; se calhar não temos assim tantas razões para criticar a nossa escola!

Começando pelas instalações, podemos dizer, por aquilo que nos foi transmitido, que as escolas eram locais muito pobres, sem recursos, muitas das quais nem casa de banho tinham! Espaços de lazer, não havia; quando muito, existia o recreio, espaço ao ar livre, onde os nossos avós brincavam, se não chovia. As salas de aula eram, em geral, pequenas, mal iluminadas, pouco confortáveis; existia sempre um estrado (o professor devia situar-se num plano superior em relação aos alunos) e, normalmente, as fotografias dos governantes (Salazar, Carmona, Américo Tomás, Marcelo Caetano), ao lado de um crucifixo. Estão a imaginar as nossas salas de aula com as fotos de Durão Barroso e de Jorge Sampaio?!

Manuel Alegre, no seu livro “Alma”, a este propósito, refere o seguinte:

“Todas as manhãs, quando o professor entrava, nós éramos obrigados a fazer a saudação romana virados para os retratos de Carmona e Salazar”.

Quanto ao material didáctico, ele era pobre e escasso: as lousas, as canetas de aparo, os cadernos de duas linhas e, imprescindível, a famosa “menina dos cinco olhos” (Não sabem o que é? É a régua com a qual os alunos eram castigados...)!

A propósito das canetas de aparo, Manuel Alegre, na obra já referida, diz:

“... canetas de pôr e tirar o aparo. Era preciso molhá-lo constantemente no tinteiro da carteira, os dedos andavam cheios de tinta, não havia sabão nem pedra-pomes que a tirasse, fazia parte da mão, estava na pele, ainda hoje lhe vejo a cor e lhe sinto o cheiro.”

No que diz respeito às matérias que aprendiam, os nossos entrevistados referem: o Português, a Matemática, a Geometria, a História de Portugal, a Geografia de Portugal (rios e seus afluentes, serras, vias férreas) as Ciências Naturais, o Desenho.

O relacionamento entre professores e alunos era totalmente diferente do que é hoje. Actualmente, os alunos têm respeito pelos professores (nem todos!), mas naquela altura tinham medo! Como nos referiu um dos nossos entrevistados:

“O professor era, sobretudo, temido. Não havia qualquer familiaridade entre professores e alunos. Não estávamos à vontade perante ele. Detestávamos cruzar-nos com ele na rua, fora das aulas. “Vingávamo-nos” desse medo quando falávamos dele entre nós, colocávamos-lhe alcunhas, proferíamos “ameaça”, que sabíamos que nunca iríamos cumprir, etc. Em resumo: o professor era uma pessoa muito distante”.

Outros, felizmente, não tiveram uma experiência tão negativa. Houve quem nos dissesse, por exemplo:

“Era cordial, mas distante. A senhora professora era simpática”.

Os trabalhos de casa eram diários e muitos, segundo a maior parte dos relatos. E quando os alunos não os faziam? Não, o professor não se contentava com tomar uma anotação na sua caderneta. Os castigos aplicados eram muitos e variados, como podes verificar no quadro.

CASTIGOS

 

FÍSICOS:                                                                                     OUTROS:

- reguadas                                                                                              - não ter recreio

- puxões de orelhas                                                                               - ficar de pé,             

- bofetadas                                                                                               virado para a parede

- chicote!!! (apenas um entrevistado revelou este castigo)

                                                                                                              - colocar orelhas de burro (e exibi-las à janela)

                A este propósito, conta Manuel Alegre:

Ai de quem, na leitura, comesse a última sílaba, ou de quem, na cópia, borrasse a escrita. Lencastre podia ficar completamente alterado por causa de uma sílaba engolida, uma vírgula mal posta, um erro de ortografia, um verbo mal conjugado. Agarrava no desgraçado pelos pés e obrigava-o a conjugar o verbo, assim, de cabeça para baixo. Era um homem de explosões e de repentes, poe isso vivia-se num ambiente carregado de terror. Ainda agora, ao escrever isto, quase me encolho, para me proteger de possível vergastada. Alguns deixaram a escola por causa dele.”

As brincadeiras dos nossos avós, no recreio da escola, eram diferentes, consoante eram rapazes ou raparigas (Ah! É verdade! Muitas destas escolas ainda não eram mistas!). Assim, as meninas brincavam mais a saltar à corda, a jogar à macaca ou às escondidas e com bonecas. Os meninos jogavam à bola (feita de trapos), às escondidas, ao agarra, ao pião e saltavam ao eixo.

Hoje em dia, ver pais na escola é cada vez mais uma realidade. Eles revelam uma preocupação crescente com a vida escolar dos seus filhos, com as matérias que estes aprendem, etc. No entanto, no tempo dos nossos avós, as coisas não eram bem assim. No geral, os entrevistados disseram-nos que os pais não iam à escola e, por norma, não acompanhavam os seus filhos, em casa, no trabalho escolar. Houve, apesar de tudo, algumas excepções, que nos relataram que os pais acompanhavam o T.P.C. e até lhes faziam perguntas sobre a matéria!

“O tipo de acompanhamento dependia dos pais. Os meus verificavam o T.P.C., ouviam a leitura, faziam perguntas”.

No que se refere à alimentação, todos são unânimes em afirmar que era pouco variada, de acordo com os produtos agrícolas que as diferentes épocas do ano iam fornecendo. Muitos pais não tinham consciência da importância da alimentação na aprendizagem dos seus filhos ou, simplesmente, não tinham possibilidades financeiras para os alimentarem melhor. Havia, no entanto, um prato que nunca faltava: a sopa (este bom hábito tem-se vindo a perder entre os mais novos, como todos sabemos)!

Depois de tudo o que lemos e ouvimos, reafirmamos o que foi dito no início: muitas vezes os alunos queixam-se “de barriga cheia”!

Declaração do Ministro da Educação em 1934, Eusébio Tamagnini, ao Diário de Notícias:

A população escolar pode dividir-se em cinco grupos:

 

1º Ineducáveis (8%)

Normais estúpidos (15%)

Inteligência média (60%)

Inteligência superior (15%)

Notáveis (2%)