À DESCOBERTA DO IMPRESSIONISMO


 

Impressionismo foi uma corrente artística que se desenvolveu em França, sobretudo nos anos 60 e 70 do século XIX. Assumiu o carácter de movimento quando um grupo de jovens pintores, constituído por Monet, Pissarro, Cézanne, Renoir, Basile e Sisley, se encontrou na Academia Suíça, em Paris. Unia-os o interesse contra a pintura académica, a que contrapunham a pintura feita nos locais e condicionada pelas observações resultantes das mudanças da luz e cor ao longo do dia.

Quando em 1863, o quadro de E. Manet "Almoço na Relva", foi rejeitado pelo Salão Oficial, o grupo organizou o Salão dos Recusados, com o apoio do imperador Napoleão III, onde foram expostas algumas obras de pintores impressionistas. Este foi o primeiro espaço agregador da nova pintura , cujos promotores se encontravam e conviviam no Café Guerbois e no Café Nova Atenas. Apesar de serem oficialmente rejeitados, o escritor Zola defendeu-os publicamente e incentivou-os a continuarem as suas experiências plásticas e técnicas.

Influenciados também pelas descobertas sobre a cor e a luz, estes pintores vão procurar as margens dos rios, em particular o Sena, para tentarem reproduzir em linguagem pictural, os efeitos da luz sobre a água. Em 1871, C. Monet e Pissarro trabalham em conjunto e deslocam-se à Holanda e à Inglaterra, onde se inspiram na obra de W. Turner e de J. Constable. É precisamente Monet que, em 1872, pinta o quadro que servirá de referência identificadora da nova pintura "Impressão, Sol Nascente". Apresentado publicamente, inspira um crítico da época que toma o título deste quadro como base do termo Impressionismo, com significado pejorativo.

Apesar dos percursos singulares quanto à técnica e às temáticas, o movimento apresentava uma unidade nas intenções e nas práticas, embora não tenha sido objecto de uma elaboração teórica por parte dos seus protagonistas. Só à prática de uma pintura baseada na impressão individual face ao tema e num tecnicismo científico unia as intenções de vários membros. Em 1874, estes expressam-se pela primeira vez como impressionistas no atelier do fotógrafo Nadar em Paris, realizando posteriormente mais sete exposições de grupo, até 1886, ano em que também são divulgados em Nova Iorque.

A pintura impressionista inscreve-se também no contexto do debate sobre o real. Enquanto, para os académicos, a pintura regista o mundo entendido como verdadeiro e permanente, os impressionistas tinham outro entendimento da realidade. Para estes, a realidade estava em constante mutação e a pintura devia ser capaz de traduzir esta ideia de mudança.

A arte impressionista era uma arte de ruptura, porque priveligiava a investigação e a experimentação, rompendo com os convencionalismos existentes - "Olímpia" de E. Manet. As obras de ruptura reivindicam a autonomia da sua linguagem e destroem os convencionalismos académicos. A pintura impressionista procurou reproduzir a natureza na sua mutação profunda e tornou-se, assim, um método científico de análise da realidade através da observação e da utilização de técnicas adequadas. Por isso, os pintores procuram registar ambientes físicos que traduzissem cenários diferentes, de acordo com a ambiência da luz e da cor. O mesmo cenário podia ser pintado pelo mesmo ou por vários pintores com resultados diferentes, tudo dependendo da hora do dia, da época do ano e do enquadramento do tema. Entre a realidade e a tela pintada não havia influências, nem de sentimentos, nem de estudos. O pintor procurava respeitar o que captava, por meio das suas sensações-percepções, alheando-se o mais possível dos seus sentimentos.

Para conseguir os resultados pretendidos, os pintores impressionistas socorreram-se de técnicas sofisticadas e apoiaram-se nos mais recentes estudos sobre a cor, a luz, os pigmentos e até em obras sobre os mecanismos da visão e da percepção visual. No século XIX, aprofundaram-se teorias sobre a óptica e continuaram-se as experiências sobre os princípios psicológicos dos mecanismos de percepção.

Ao mesmo tempo eram levadas a cabo investigações científicas em relação à complexidade da luz pelos físicos Michelson e Morley e à formulação das leis da cor pelo químico Cheuvreul. Em simultâneo, Bergson começava a realizar os seus estudos sobre os dados imediatos da consciência. O impressionismo acabará por reflectir o espírito científico da mentalidade positivista de meados do século XIX, afirmando que as percepções dadas pelos sentidos são as únicas bases aceitáveis do conhecimento. Isto significava que o artista devia limitar-se à descrição do que via no momento em que pintava.

As cores eram aplicadas em pinceladas rápidas com base nos estudos científicos da cor. Tentavam reproduzir o carácter prismático da luz natural servindo-se das cores do arco-íris. As cores deixavam de ser artesanais e eram comercializadas em tubos, pela primeira vez em 1842, podendo ser levadas para o local de trabalho ao ar livre. Eram aplicadas directamente na tela, sem serem misturadas na paleta. O Impressionismo conseguia uma formulação pictórica em que o binómio cor-luz era o elemento principal e em que a ausência de cor, o negro, foi uma condição indispensável para o seu desenvolvimento. Foram abolidos os tons cinzentos e privilegiadas as transparências e a luminosidade. O quadro tornava-se uma pura superfície pictural, uma nova realidade. Com base neste rigorismo técnico e científico, a pintura desmaterializava-se e tornava-se cada vez mais uma atmosfera de transparências.

Os temas preferencialmente tratados pelos pintores impressionistas estavam ligados à prática da pintura da paisagem executada no local, à banalização dos temas e à descoberta consciente do quotidiano da sua época, tanto urbano como rural. Davam maior importância à técnica, em detrimento do tema, valorizavam os pequenos gestos dos rituais quotidianos e privilegiavam o tratamento técnico de alguns motivos como, por exemplo, a água e a luz. Afirmavam ainda necessidade urgente de pintar rostos e pessoas como se fossem paisagens. Ao nível da escolha das temáticas, existia uma novidade total em relação à importância dada à sua época, ao seu quotidiano, gestos simples da vida, retratando muitas vezes amigos, vizinhos e locais de divertimento. Era o mundo da pequena burguesia que estava representado, com todos os seus hábitos, virtudes e defeitos, desde a menina com o seu cão ao colo, ao apertar da sapatilha da bailarina na penumbra do palco em tarde de ensaio ou ao gosto sereno das mulheres e dos homens passeando nos barcos.

Embora o Impressionismo corresponda a um movimento de grupo, os percursos individuais de alguns artistas apresentam particularidades e merecem ser destacados, contribuindo cada um a seu modo para a definição desta proposta estética. Estão hoje representados nos principais museus do mundo.


Cesário Verde