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Um livro

No Dorso do Dragão

CAEIRO, António 2004 — Pela China Dentro. Uma viagem de 12 anos, Dom Quixote

António Caeiro aceitou ser correspondente da Agência Lusa na China, esteve lá doze anos (1991-2002) e no regresso escreveu este livro. Todos os assuntos aqui tratados são bombeados pela mesma energia: o entusiasmo de assistir ao início da transformação vertiginosamente rápida de um país inerte durante milénios, ou seja, à China a preparar-se para ser uma potência económica mundial.

Um qualquer processo de mudança acolhe contradições. Nesta base, o discurso é percorrido sistematicamente por contrapontos de situações à partida impossíveis de ligar — fechamento-abertura; comunismo-capitalismo; antiguidade-modernidade; campo-cidade; manufactura-tecnologia — que performatizam, muito para além da letra, a proclamação de Deng Xiaoping: um país dois sistemas.

A par disso, insiste-se na escala dessa mudança — porque na China é tudo em grande: a população (quase 1300 milhões), o orgulho nacional, a história, as obras, a poluição...

Os níveis onde incide a focalização dessa mudança não podiam ser mais variados. Segue-se apenas uma lista ilustrativa:
— a língua: o significado unívoco da expressão "Libertação", que leva a que os presos políticos digam "Fui preso depois da Libertação" (!) (isto é, depois da tomada do poder por Mao), a par da utilização por um jovem chinês da frase feita "sonho americano" para dizer realização pessoal;
— o aparecimento de movimentos cívicos dedicados à protecção dos animais, num país onde se come de tudo o que tem quatro patas, ou às campanhas de antitabagismo, quando os chineses fumam até à asfixia;
— a continuação da doutrinação do povo através de slogans e da fabricação de trabalhadores-modelo, quando o livro de Mao é já um fetiche turístico;
— a admissão da China na Organização Mundial do Comércio com a população camponesa (metade da população) em pobreza extrema;
— a culinária: batatas fritas com mel ou ketchup com bossa de camelo;
— o futebol: "-Chegou a altura de tocar a rebate e erguer a Grande Muralha do futebol chinês!"(p.24)
— a música: o Exército Popular de Libertação formou uma orquestra de Jazz(!);
— o mercado bolsista, posto que, afinal, em 1864, o próprio Marx chegou a comprar acções numa companhia americana.
Apetece continuar a lista: os cabelos lixiviados, as sex shops, o humor, a pirataria, o Pai Natal chinês!

Simultaneamente motor e finalidade desta mudança, o crescimento económico não abala porém o monolitismo do Partido Comunista Chinês, firmado no pacto que tem com cada cidadão: "enriquece e cala-te". E por isso a obra é também atravessada por vozes de alerta para os perigos típicos de um pragmatismo sem princípios, derivado de um vazio ideológico e moral em função do qual as alianças internas e externas mais não são do que "parcerias estratégicas".

O título (correspondente a um sintagma preposicional designativo de orientação espacial) e subtítulo (que consubstancia o discurso na viagem e vice versa) convocam uma leitura sob o género relato de viagem, mas o trabalho de reportagem desponta a cada passo.

Na verdade, há subcapítulos (os capítulos estão segmentados por anos civis) dedicados à invocação, por ordem cronológica, de impressões, eventos, circunstâncias de uma viagem. Curiosamente, isso acontece quando a viagem tem por destino locais fora da China. O registo mais puro da relação de viagem está no momento dedicado ao percurso realizado no expresso Pequim-Hanói: são dados os pormenores de preparação e início da viagem; as personagens citadas são implicitamente identificadas como passageiros e empregados que metem conversa; as considerações históricas do autor-viajante são acolhidas no discurso apenas por extensão temática relativamente ao conteúdo das falas das personagens-companheiros de viagem. É um discurso pausado pelas paragens do comboio, para a introdução de descrições autónomas — das cidades, das estações, do Rio Amarelo, do Rio Yangtze e da vida das pessoas pontilhada nas suas margens, dos montes Guilin e, depois, da paisagem em fuga no ecrã do vidro da carruagem. Nenhum outro subcapítulo se lhe iguala neste registo (nem mesmo a viagem à Mongólia Exterior).

O que não quer dizer que não haja outras viagens representadas. Há muitas (ao Tibete, à província de Guangxi, a Bama, a Xangai, a Hong-Kong, a Macau...) — mas elas estão lá como pano de fundo, a dar o contexto para alinhar mais conversas derivadas de outros encontros ocasionais, mais comentários históricos, mais considerações etnográficas. Podemos discutir se não é esta a feição mesma do relato de viagem. Porém, há uma especificidade, que se obtém apenas por uma visão de conjunto da obra: neste livro, os momentos em que o espaço funciona como circunstancial agrupam-se plenamente com os movimentos discursivos próprios da reportagem.

Aliás a reportagem está presente como tema e como exercício. Como tema, porque não raro nos são dados os bastidores técnicos da profissão de jornalista, assim como uma alargada circunstanciação da investigação e das entrevistas realizadas para a elaboração do texto jornalístico. Por outro lado, é praticado o exercício da reportagem, dado que há segmentos que reactivam, com algumas transformações, é certo, o modo de organização do discurso noticioso, compassado em três tempos sequenciais de textualização: 1. introdução insulada de discurso directo - 2.apresentação do locutor que o produziu - 3.generalização com apoio em várias fontes (jornais, revistas, livros). Não é difícil detectar pois, nesses mesmos segmentos, uma enunciação jornalística em que a instância elocutiva é apenas lugar de mediação.

É claro que cai fora da enunciação jornalística o constante recurso a tempos do passado (inclusivamente nos verbos dicendi) e a identificação pessoal do locutor-jornalista, que entretanto fora dada — porque este é um discurso referencial e porque se usou já a primeira pessoa. Quanto ao conteúdo, também não cabem na reportagem os pormenores risíveis e os episódios anedóticos (as praias com horário de abertura e de encerramento, os seios importados dos EUA...) ou a descrição fortemente impressiva das surreais reuniões para aprovação do Orçamento Geral do Estado, por exemplo. Quanto às opções lexicais, são, nesta linha, igualmente excedentárias as metáforas inseridas no discurso por prolongamento de um dado campo semântico em vigor: "Foi pela mesma linha [de comboio] que o Vietname recebeu o arroz e as armas com que a China apoiou a 'luta do povo irmão contra o imperialismo americano', nos anos 60, mas a História, entretanto, fez agulha noutro sentido" (p.126); "As faixas de rodagem reservadas às bicicletas iam ficando cada vez mais estreitas e a indústria do sector também estava a perder pedalada." (p.184); "— Os chineses não vão deixar de beber chá, mas passarão também a tomar café, como aconteceu no Japão. É uma questão de dez ou quinze anos — dizia um técnico de marketing que comercializava o café colombiano na China. / O director da adega italiana que faz o espumante Asti, Oswaldo Brondolo, tentava manter-se sóbrio, mas os números entonteciam qualquer um. / — Se cada família chinesa comprasse uma garrafa por ano — imaginava aquele agricultor de Turim — seriam cerca de 350 milhões de garrafas. Dezassete vezes mais do que todo o Asti bebido anualmente em Itália!" (p.209)

Balanceando os dois géneros. Encontramos relato de viagem pela presença de sequências estrutural e enunciativamente conformáveis nesse género, como acima já se analisou, mas também, ao nível das representações, pelo exotismo e fascínio pelas maravilhas daquele mundo — lugar de aprendizagem e desafio hermenêutico. Encontramos reportagem no peso referencialista do discurso, no posicionamento das personagens como fontes de informação e postos de observação, na projecção de um saber derivado da actualidade noticiosa.

Uma observação ainda sobre o uso da primeira pessoa. António Caeiro em entrevista a Ana Sousa Dias ("Por Outro Lado", Canal 2, 15-11-04), afirmou a necessidade de escrever a palavra "eu" para estar ao nível do "tu" do leitor — e assim promover uma relação interlocutiva que é alheia a um texto emanado de uma agência noticiosa.

Concomitantemente, a emergência da figura do autor, assim referenciada, permite sustentar o desenvolvimento de um ponto de vista e a prossecução de uma mira argumentativa que visa a apologia da acção chinesa — do povo e dos seus governantes. Veja-se, por exemplo, como o autor contrapõe os testemunhos desfavoráveis à China com episódios da sua experiência pessoal que ditam uma orientação contrária; como coloca em posição final dos subcapítulos as falas que concorrem para uma visão compreensiva da China; como dá eco à voz do leitor nas interrogações que arrastam consigo um ponto de vista contra-orientado — "Vale tudo?" (p.197); "Democracia?" (p.278) — para de seguida ver reforçada a posição — que o autor se mostra a compartilhar — de que existe bom senso na China e de que a democratização é uma operação incauta num futuro próximo. Esta apologia da China é retumbante no último parágrafo do livro, quando, ao citar a visão negativa que a imprensa chinesa faz do trabalho dos correspondentes estrangeiros, acusando-os de facciosismo depreciativo, o autor se distancia desses correspondentes e coloca tudo o que escreveu até aí em contra-corrente, ou seja, em facciosismo apreciativo.

Por estes três prismas - enunciativo, semântico e argumentativo - é possível perceber porque é que uma obra feita de fragmentos não aparece fragmentada, mas como uma totalidade concertada, em que nenhuma parte é dispensável (o prefácio do Embaixador é paratexto.)

Nota: os erros (orto)gráficos da má revisão são igualmente irritantes.

Arquivo

No Dorso do Dragão

RIBEIRO, Cláudia 2001 — No Dorso do Dragão. Aventuras e desventuras de uma portuguesa na China, Europa-América

Toda a escrita de viagem é um equívoco, como afirmou Scott Fitzzerald; junte-se o facto de o espaço que se tem debaixo dos pés — que se sente, cheira e vê — estar desorbitado da realidade e dá este livro.

Começa com uma instrução: a China aqui retratada resulta numa diluição da repulsa com a adoração acrítica. Uma e outra reacção têm representantes associáveis: de um lado, os sinófobos, que gritam através da inscrição na T-shirt "I survived China!"; do outro, os tomados por uma espécie de "chinesite aguda", os que se querem comportar como orientais e vêem em cada chinês um descendente directo de Confúcio. No meio, está uma categoria angustiada: os sinólogos, para quem a China é um objecto formal, e que caíram na tentação de ir visitar a China real.

Mas apesar dessa mistura anunciada de extremos, não se dá a garantia de que a China que está dentro destas páginas seja a China verdadeira. Não é uma suspeita — já sabemos — é uma porta de entrada no livro, que já está no título: como ver/compreender o Dragão quando se está mesmo em cima dele? E, afinal, um Dragão imenso e fogoso, de delicado papel ondulante que se desvanece num fósforo. A China é — tem que ser — do princípio ao fim do livro, um sonho.

Esta obra não é um relato de viagem, nem um roteiro, nem um tratado etnográfico, talvez até nem seja especialmente relevante para quem vai visitar a China-destino turístico. É de certeza de muito interesse para quem vai viver para a China e deslocar-se dentro dela. Cláudia Ribeiro frequentou o curso livre de chinês, durante a licenciatura em Portugal, e foi estudante-bolseira em Pequim de 1987 a 1991 (com retorno pontual em 97). O livro é sobre isso: uma estada de anos e viagens de léguas e léguas.

O lapso temporal onde se inscrevem as acções e visões invocadas (usa-se recorrentemente o Pretérito Imperferito — que projecta as acções para o passado, mas que também as toca de irrealidade) é visado sob o tópico da mudança. É esse tópico que serve de delimitação do corpo do texto, feita através da nota-sugestão inicial e final, sobre Tiananmen: no início, a referência ao massacre e ao modo como ele rapidamente se apagou da memória colectiva; no fim, uma imagem, a da Praça cheia de gente descontraída e vestida à ocidental, e um sentimento só, o de que a China está a mexer.

O corpo do texto está organizado em duas partes: uma primeira, a abranger os quatro primeiros capítulos, que podia receber um título geral do tipo "Introdução ao dia-a-dia chinês"; e uma segunda constituída pelo 5º capítulo, que se subdivide em vários subcapítulos, intitulada mesmo — "Registos de viagens". Entre uma e outra há um ponto de viragem (prevista) de perspectivação da China.

A primeira parte arranca com um retrato colectivo dos filhos do dragão através de encadeamentos de conclusões tiradas a partir de percalços vividos ou ouvidos, em fuga à pura listagem de traços e hábitos do povo chinês: a elevada auto-estima, a explícita e escrupulosa hierarquia social baseada no dinheiro, o patriotismo atávico, a burocracia demente, as guanxi (cunhas — como é fácil traduzir para português!), a grosseria dos funcionários públicos (idem), os critérios torcidos para escolher parceiro, os gostos mórbidos, as escarradelas e assoadelas, a falta de higiene geral, a ressaca controversa com Mao e a adoração unânime de Zhou, a miséria atroz. Assim, sem mais, o retrato parece que sairá feio. Há porém na sua elaboração já uma boa dose de condescendência e relativização, que tomam assento mais demorado nos comentários e avaliações, mas que estão sempre presentes na construção dos episódios e situações absurdas e risíveis — sem desdém, a obrigar-nos a olhar para as nossas próprias (ocidentais e portuguesas) ridicularias e desaires.

Segue-se o olhar em espelho, o dos chineses em relação aos ocidentais e ao mundo exterior. A metodologia é a mesma: o registo da experiência própria ou da de outros estudantes ocidentais. Desta vez, bastou, em muitos casos, a captação passiva de conversas entre chineses que não suspeitam que a autora sabe falar chinês — donde saem situações mirabolantes. Quanto ao mundo exterior, ele aparece acentuadamente desnivelado entre os países pobres (de leste e ex-comunistas) e o "Belo País", ou seja, os EUA, a fazer jus ao adágio "enriquecer é glorioso".

O capítulo seguinte reparte-se por itens de uma enciclopédia vivida — as casas de banho, os comboios (o item que causa a sensação mais aguda de desespero), os espectáculos, a saúde, o comércio, o crime, o canibalismo, e curiosidades avulsas da presença de Portugal na China.

Antes de passar às crónicas de viagem, ainda um capítulo dedicado apenas a Pequim — o ancoradoiro de todas as viagens, a China-China (por oposição a Xangai ou Cantão). O ritmo discursivo abranda e começam as descrições. Belíssimas descrições; bem feitas, diversificadas:

— dinâmicas: "Os sinais de trânsito, os semáforos existiam, mas ninguém se maçava a cumpri-los e só se conhecia alguma ordem se um polícia sinaleiro se avistasse por perto, dançando e esbracejando sobre o seu poleiro. A nuvem de bicicletas flutuava o dia inteiro, rainha das infinitas avenidas de Pequim. (…) Nas bicicletas tudo se transportava: assentos ou carrinhos artesanais para o bebé da família, crianças, a mulher ou o marido, mas também peças de mobiliário ou vários porquinhos cinzentos em prodígios de equilíbrio." (p. 145);

— sintéticas: "Pequim não era bela, mas com momentos belos no meio da fealdade", (p. 143);

—apodísticas: "A Cidade Proibida é enorme (...) Como é sabido, é o Centro do Mundo."(p.146);

— fantásticas: "Noite de Verão na velha capital. Nas escadas exteriores de um edifício de aulas da nossa universidade eu, quase estendida, Leszek sentado, falávamos devagar sobre coisas profundas. A temperatura perfeita. A uns passos de nós, semiconfundidas na vegetação, mulheres de meia-idade embalavam-nos nos gestos lentos do taijiquan. Olhávamos as suas silhuetas movendo-se na noite com um langor de vagas. Não rasgavam o espaço, pareciam antes deslocá-lo com brandura. Lançar as dez mil coisas a planar no vazio." (p.173-174);

— a que não falta a velha técnica da preterição: "A verdade é que nunca se acabava de ver Pequim."(p.150).

Dentro de Pequim, a Universidade: o lado humano e a magnífica mistura de todas as raças; — e o físico: " '—Isto parece os subúrbios de uns subúrbios de uns subúrbios.' Eu já estava tão habituada que nem me dava conta. Ria-me. Ao ouvi-lo falar, apercebia-me de que tinha razão. Subiu-me a vaga suspeita de que eu não devia estar no meu juízo perfeito para aceitar tudo aquilo. Naquele país, porém, vivíamos entre o sofrimento e o êxtase e as compensações eram muitas. Era isso que o meu amigo ignorava."(p.158)

A segunda parte vai trazer essa revelação. Mas antes disso já está talhada a relação amorosa, feita de paciência: "Se me zangava com os chineses no Verão, um dos meus segredos para me reconciliar com eles era ir à rua comprar um bingqilin [gelado], o meu favorito, um duplo de um amarelo suave cujo nome era Par de Grous." (p.143). Afinal, um desejo antigo de amar a China. Toda a primeira parte apresenta pequenas inserções de reminiscências da infância, que correspondem a tópicos paralelos, mas não marginais, ao conteúdo central do discurso: "Há muitos anos, em Angola, em casa da velha vizinha de uma tia minha, havia uma grande arca de laca trabalhada com incrustações de madrepérola ilustrando cenas da China tradicional. Ao vê-la, ficava incapaz de escutar qualquer conversa. A arca negra, de aonde ressaltava em tons lunares uma vida outra de pavilhões recurvos e papagaios de papel, atraía-me como o fundo do mar atrai um navio naufragado.

Ela gosta de coisas chinesas — informou a minha mãe aos donos da casa que visitávamos. Com cerca de seis anos, deslumbrara-me com uma estatueta de velho chinês.

Então vem cádisseram-me. Conduziram-me a uma sala cuja porta estava fechada. Pediram-me que não tocasse em nada. A sala tinha vários armários de vidro repletos de porcelanas e estatuetas orientais. Percorro o espaço entre as vitrinas numa encantação muda. Com que emoção e reverente silêncio observei aquelas estatuetas de pescadores, de poetas, os jarrões e as caixas… Sentia-me caminhando num mundo secreto, um verdadeiro mundo de tesouros longínquos. Um mundo que se abrira para mim porque eu, eu gostava de coisas chinesas. Lembro-me que senti qualquer coisa de novo, como um acréscimo de identidade. Eu era a criança que gostava de coisas chinesas."(p.202).

O último segmento deste capítulo dá a saída para os registos de viagem: é aí que encontramos a primeira visão assombrosa das montanhas chinesas, durante a visita à Grande Muralha.

A relação das viagens não segue uma ordem crono-espacial. Faz-se por uma alinhamento de sucessos, agruras, perigos, desesperos que fundamentalmente servem para suster o lugar de eleição do livro, que são as descrições do espaço. Descrições sempre com um ponto de inexpectância onde se fixa a atenção do leitor — uma forma, uma cor, um contraste, uma acção — , que se suspendem justamente naquele momento em que a nossa memória, abrangente e imediata, que permite a reconstrução de uma imagem física através de palavras, começa a fraquejar. Descrições vulgarmente acompanhadas de notas propositadas, em dimensão e conteúdo, sobre a história e cultura dos locais visitados (onde se inclui o Tibete, a Mongólia e o Turquestão Chinês). E quase sempre: a alegria da pessoa da autora na paisagem: a caminhar dez horas quase seguidas, a perder-se nas ruelas; de bicicleta a cortar o ar da madrugada; de barco, lentamente. (De comboio já não é bem assim).

As comparações são sempre inúteis, mas irresistíveis. Cá vai: Cláudia Ribeiro emparceira muito bem com uma Robyn Davidson ou um Bill Bryson, pela sensibilidade, inteligência e humor. E pela arte da descrição: lá está, quem não sabe descrever não sabe escrever — sobre viagens, pelo menos.

Jack London
MEMÓRIAS DE UM ALCOÓLICO
John Barleycorn

LONDON, Jack 2001 — Memórias de um alcoólico. John Barleycorn, Antígona

Para já, como autobiografia, este relato tem um bom protagonista: a pessoa fantástica que foi Jack London — o destemor, a obstinação, a resistência física, o orgulho, a inteligência, a aventura são ele. Afinal, como se London abrisse o capote e dele saíssem todas as personagens da suas obras. Mas este livro (que não foi originalmente publicado como tal, mas num periódico, em fascículos) é o relato de todas as etapas que conduzirão um não alcoólico, Jack London, (cuja química corporal nunca clamou por bebidas alcoólicas) a submeter-se a John Barleycorn (a personificação do álcool).

Beber não é, durante muito tempo, um acto voluntário, é uma imposição, é a prova de masculinidade e o único ponto de encontro da solidariedade humana. Todos bebem; bebe-se por tudo; as lembranças das grandes bebedeiras dão mais prazer que as de todos os demais feitos, verdadeiramente heróicos. John Barleycorn está em todo o lado e obriga os homens mais valorosos (porque os medíocres ele não ataca) a fazerem cenas ridículas, selváticas, assassinas, suicidárias. Entretanto, os sentimentos gloriosos, o brilhantismo das ideias, os poderes ilimitados — tudo isso John Barleycorn vai dando e é por aí que ele é mais condenável.

Curiosamente, até muito tarde, London, quando não tinha de beber, não bebia. Até ao dia em que teve o apelo cerebral para se embebedar — é aí que deixa de recear John Barleycorn. O trajecto final estava traçado: beber sozinho, todos os dias, cada vez mais amiúde — por razão nenhuma, simplesmente pela longa convivência com o álcool: por todos os cantos do mundo, todos os encontros se tinham feito com grandes bebedeiras e não podia ter sido de outra maneira — só aqui se fixa a moralidade desta narrativa.

No fim, Jack London mente, notória e impressionantemente, quando diz que continuará a beber sem se deixar cair no pessimismo céptico que lhe andou a soprar ao ouvido, insistindo que a vida é uma mentira louca. Um par de anos adiante, matar-se-ia.

VIAGEM AO TIBETE
Alexandra David-Néel

DAVID-NÉEL, Alexandra 1998 — Viagem ao Tibete, Civilização Editora

Podemos dizer deste livro o mesmo que Torga, sobre os relatos de naufrágios do séc. XVI: "basta contá-los ao natural para ficar logo uma obra-prima".

Uma parisiense, orientalista, conhecedora, por experiência de outras estadas, dos dialectos, da geografia, dos hábitos, da cultura e da religião (lamaísta) do Tibete, decide, por vingança, meter-se a caminhos de Lhassa, a capital, o coração do território proibido aos estrangeiros (estamos em 1920). Disfarçada de peregrina, Alexandra, "a mulher das solas de vento", enfarrusca a cara com carvão, pinta os cabelos com tinta-da-china e penetra no "País das Neves" com o seu filho adoptivo, o lama Younden. A busca de trilhos, o jejum, as noites ao relento, as temperaturas negativíssimas, as passagem pelos rios pendurados por cordas, o ludíbrio dos ladrões, as refeições de carne podre e (maior perigo!) o medo de ser reconhecida só têm um contrapeso: o deslumbramento do olhar: "Olhámos para este espectáculo extraordinário, mudos, extasiados, prontos a crer que atingíramos os limites do mundo dos humanos, e que nos encontrávamos no patamar do dos génios."

GOING TO THE WARS
Max Hastings

HASTINGS, Max 2000 — Going to the Wars, Pan Books

Um grande repórter de guerra conta o que viu e viveu, por dentro de alguns dos maiores conflitos mundiais das últimas décadas. É um livro de memórias onde tanto encontramos aventura, como análise política e social das acções de guerra, como as tricas do meio jornalístico e editorial.

Está escrito com sobriedade e humor; sem fanfarronices:

— "Of course, I have often been frightened and run away".


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