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Um Disco

Pedro Jóia - Jacarandá

Pedro Jóia — Jacarandá, 2003

Em enumeração não graduada: Pedro Jóia é um virtuoso da guitarra; as músicas são todas dele (com excepção das que a seguir assinalo), quer num disco quer noutro, e são muito boas (tive que ir ver mais do que uma vez à capa: são dele o chorinho "Jacarandá" e a canção nordestina "Sol de néon"); a direcção musical é dele, com o flamenco a espreitar sempre por todos os lados, em todos os géneros musicais e com todas as vozes — o que só espanta à primeira, porque depois a gente acha que, afinal, era assim que tinha que ser.

Pedro Jóia - SuesteDestaco agora: arranjos e interpretação em "Verdes Anos" (disco Sueste, 1999) e "Tanto Mar" (disco Jacarandá), não por ser um risco tocar em músicas que são património mundial, mas porque — deixem-me usar um adjectivo sintético euforizante — está magistral.

Deixo indicação de excerto de entrevista na TSF: está lá uma parte de "Duas Nuvens", com Ney Matogrosso: http://tsf.sapo.pt/online/primeira/interior.asp?id_artigo=TSF136684

Nota: o primeiro disco é Guadiano, de 1996.

Arquivo

Rod Stewart - The Great American Songbook

Rod Stewart — It had to be you

Para quem corria a ver os videoclips do Rod Stewart quando ele era príncipe no reino Pop, com o seu cabelo estilo fardo de palha atado com camisa acetinada, e vê agora nesse entusiasmo um tanto de parolice e inocência, está aqui: afinal o velho sonho do rapaz era cantar as "old classical tunes". Quantas vezes já não ouvimos "They can't take that away from me", "The way you look tonight" ou "These foolish things"?

Já estamos habituados a ver várias experiências (adaptações, contorções e requebros) de mistura de diferentes géneros musicais de diferentes idades, que quando resultam, resultam e que quando não resultam, é de se fugir. Aqui é outra coisa: cá está a mesma banda "grenadine", os mesmos arranjos, o "estilo Billie Holliday / Sam Cooke" (Rod consegue suster notas agudas por bem mais do que um segundo, vibrá-las e inflecti-las!). O único toque de heterogeneidade está na rouquidão natural (a tal) e é por isso mesmo que o disco está uma beleza. It had to be you?

Tangos de Barcelona

Tangos de Barcelona

Tangos em orquestra, donde rivalizam piano e bandoneón. O popular elevado ao sinfónico, o caldo cultural hipostasiado em obra prima.

"Jalousie" é o porta estandarte. Intensifica-se com Gardel ("El día que me quieras" — uma benção dos céus!) e culmina com o grandessíssimo Astor Piazzola.

O disco tem um brinde no final: três chorinhos ("tangos brasileiros") de Ernesto Nazareth. E aí está uma osquestra inteira às síncopes!

B.B.King
Eric Clapton

B.B.King e Eric Clapton

Quem disse que um disco não se deve escolher pela capa? Quem nunca ouviu (ou pensa que nunca ouviu) Eric Clapton ou B.B. King não verá logo que este tem de ser um grande disco? Olhamos para os dois e vem-nos logo à mente uma "imagem acústica".

São diálogos a duas vozes e a quatro mãos e nem sei se é melhor o Clapton à moda do B.B. King ou o B.B. King à moda do Clapton.

João Afonso
Zanzibar

João Afonso — Zanzibar

É um fenómeno: dois tons, frases repetidas (musicais e verbais), a mesma voz com que veio ao mundo; os mesmos sons africanos.... e a gente não se cansa de ouvir: Zanzibar e os outros dois — Missangas e Barco Voador.

Há novidades neste: a concertina, o fado, o coro das vozes femininas, a banda, as experiências...mas ao ouvir o terceiro disco, já dizemos: — Cá está o bom velho João Afonso!


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