Dimensões Temporais e Aspectuais do Funcionamento dos Discursos
Estudo aplicado à análise de relatos de viagem

Ana Cristina Sousa Martins
Faculdade de Letras do Porto
Junho, 2006

Resumo:

O propósito central desta tese é descrever a organização e funcionamento de um grupo de textos sobre viagens, tomando as construções teóricas sobre o tempo e o aspecto como instrumentos e hipóteses em exploração no exercício de análise textual.

Parte-se de uma revisão/fundamentação teórica para um longo trabalho de análise discursiva - lugar de atestação, exploração e levantamento de hipóteses instrumentais - sem perder de vista que o estudo sobre formas da língua está subordinado ao estudo do texto e do empreendimento comunicativo aí implementado.

No que ao tempo (e deixis) diz respeito, procurou-se construir um articulado de propostas teóricas susceptível de dar resposta positiva à possibilidade de se serem tomados em consideração mais do que dois modos enunciativos e de sustentar a explicação de como funciona o sistema deíctico num texto escrito não narrativo, aliada a uma reflexão comparativa sobre diferentes modelos de cálculo de referência temporal. Do lado do aspecto, procedeu-se a uma revisão selectiva de dados teóricos atinentes aos factores envolvidos na implicatura aspectual, às valências de significação derivadas das diferentes combinatórias aspecto gramatical - aspecto lexical, à expressão da progressão temporal pela via da significação aspectual e à verificação do papel do aspecto no processo de dimensionalização discursiva.

No prolongamento das questões levantadas pelo trabalho exaustivo de análise discursiva, há espaço de reflexão e problematização sobre temas não estritamente ligados ao tempo e aspecto, como a estrutura e função da descrição, a reportação do discurso, a construção de veridição e factividade no discurso e a especificidade da enunciação ficcional. O ponto de alcance de todas as explanações e problematizações teóricas situa-se na verificação de que as categorias de tempo e aspecto afectam directamente a constituição e interconexão de unidades construcionais de um discurso em que o "eu"- viajante dá uma imagem de si próprio num tempo e num espaço de transitoriedade.

Tendo por base, num primeiro momento, a análise de textos não ficcionais, apurou-se a dissociação de dois regimes enunciativos/processos de textualização: de um lado, a narrativa de viagem, que configura a realidade num universo temporal independente do momento da enunciação actual pelo encadeamento consequente de acções transicionais que cumprem um núcleo tensional opositivo; do outro, o relato de viagem, que projecta uma sequencialidade não consecutiva de eventos em ligação de anterioridade face ao momento da enunciação, mas em que se exprime a cumulatividade entre o experienciar/ver e o dizer (factor que, por sua vez, distingue o relato da relação/relatório de acções).

Na sequência do estudo das operações enunciativas, no âmbito da distinção narrativa - relato, situa-se a análise de Baía dos Tigres de Pedro Rosa Mendes, donde ressalta a detecção, no discurso deste romance, de um cenário enunciativo que metatextualiza o relato de viagem. Uma análise pormenorizada permitiu explanar aspectos essenciais da caracterização do discurso do romance, como sejam: a fusão do universo temporal da ficção com o universo temporal da actualidade noticiosa; a sectorialização de frames temporais; o efeito da decomposição eventiva (a partir de acções enformadas no Pretérito Perfeito Simples) sobre a estruturação textual; os jogos de perspectivação; a alternância entre genericidade e singularidade; o delineamento de isotopias enunciativas através do uso do Presente Simples e Progressivo de instanciação absoluta, dos usos multifuncionais do Imperfeito e do Futuro, da construção de séries iterativas e da enumeração de processos objectualizados - isotopias que concorrem para a expressão perfeita da densidade do tempo e da vacuidade do espaço num país em guerra.

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