Relato de viagem: proposta de uma descrição de base enunciativa

Ana Cristina Sousa Martins

1.

Nesta exposição tentarei apresentar o caso de uma área discursiva onde se verifica que a caracterização do modo como o locutor procede ao colocar em cena o seu acto de comunicação pode garantir a obtenção de um perfil textual e pragmático-argumentativo relativamente estável. Compõe-se esta área de discursos que versam sobre viagens empíricas, realizadas num espaço físico, atestáveis, digamos, juridicamente e que cumprem o objectivo mais imediato de dar a conhecer ao alocutário — a quem fica — imagens de lugares e encontros com pessoas que merecem ser dados a conhecer.

1.1.

Direi que estes discursos são "relatos de viagem" se não assumirmos nesta designação metadiscursiva apenas um ponto de vista informacional.

Se fizermos uma pesquisa no catálogo em rede da Biblioteca Nacional, seleccionando a palavra "viagem" no campo título e "Lisboa" no campo local de edição, obtemos 1114 registos. Passando aleatoriamente os olhos pelas listas bibliográficas encontraremos com facilidade, à mistura com viagens metafóricas e ensaios, títulos onde, a par do termo "viagem" figuram expressões de determinação de género (ou subgénero), como por exemplo, cadernos, diários, relações, impressões, notas, cartas, apontamentos, roteiros, crónicas, memórias, descrições geográficas, guias náuticos...

Esta simples experiência deixa antever que indo mesmo além da inventariação de eixos temáticos, este grande acervo discursivo tem reconhecidamente um carácter compósito, uma feição plural e estrutura multímoda, de tal maneira que, podemos dizer com Maria Alzira Seixo: "a escrita de viagem não pode ser encarada de modo global: há tantas escritas de viagens como sensibilidades históricas, culturais e estilísticas." (Seixo, 1998: 135).

Não tenciono, bem entendido, propor uma abordagem com o fim de contribuir para sobredeterminar o carácter compósito de todo esse material, nem sequer de parte dele, abordagem essa que estaria vocacionada para o apuramento de um tipo, género, ou hipergénero correspondente a "relato de viagem". O meu objectivo está em saber, em primeiro lugar, como é que num conjunto restrito de textos, delimitado por critérios de ordem situacional, o sujeito locutor configura, num todo discursivo, a sua experiência viática; ou seja, por meio de que recursos linguísticos ele se representa a si próprio num tempo e num espaço de alteridade e em transitoriedade e quais as intenções com que o faz. Ora, no curso desta pesquisa tenho encontrado regularidades suficientes para justificar a aplicação da designação "relato de viagem", mais enquanto regime enunciativo-discursivo do que enquanto género ou tipo textual.

2.

O primeiro corpus que delimitei (e é este que invocarei parcialmente aqui) constitui-se de escritos contemporâneos sobre viagens da autoria dos jornalistas - Joaquim Furtado, Rui Araújo, Diana Andringa, Luciano Alvarez, J.M. Barata Feyo, M.S.Tavares. Digo "escritos" porque estes textos foram editados autonomamente em livro, mas também na imprensa sob a classificação de crónica e diário (ver referências). De uma maneira geral, são textos que revelam, por assim dizer, os bastidores da elaboração de uma reportagem televisiva ou de imprensa.

2.1.

De uma primeira análise deste corpus impõe-se logo uma distinção, como veremos já, de base enunciativa.

3.

Detenho-me então no segundo grupo.

Apesar das instruções, quer relativas quer absolutas, de localização das acções como anteriores a T0, logo, e durante uma grande extensão textual, a situação de enunciação é recolocada ou recriada num intervalo de tempo que não o ocupado por T0 original, de modo que a visualização ou experienciação das acções, veiculadas por escrito, são dadas como contemporâneas da enunciação, numa representação ostensiva da coincidência entre o ver, o viver, o pensar e o dizer. Assim se produz um efeito de telescopagem enunciativa.

3.1.

Destaco duas projecções, de índole referencial e interaccional, deste uso particular do dispositivo deíctico.

3.2.

Descrevo sumariamente o alcance destas duas projecções.

O que transporto para primeiro plano da minha descrição é, então, basicamente, a activação de uma específica modalidade de configuração da experiência em que uma formulação do género "eu estou aqui e agora a ver e a viver isto deste modo" serve para referenciar uma situação intratextual e paratextualmente instrucionada como passada.

A partir do momento em que o locutor activa esta modalidade, ele está a referenciar os objectos como se eles estivessem em co-presença. Daí que durante a deslocação no tempo e no espaço — no seu acto de enunciação mostrativa, dado como simultâneo ao acto de observação — o locutor se apresente a apontar para objectos de realidade e não para objectos de menção; e, deste modo, a encetar constantemente novos quadros de referência.

A leitura de um texto destes é cara, pois exige que se accionem mecanismos supletivos para a reconstrução de referência endofórica, o que passará por processos inferenciais disponibilizados pelo contexto, pelo trabalho de reconstituição de uma ordem natural das coisas padronizada num script ou cenário, ou pelo exercício de apelo aos conhecimentos do alocutário (arquivados dos media, muito provavelmente) sobre os lugares por onde o locutor-viajante passa e onde se detém.

Por via desta modalidade de representação, o espaço passa por ser, como deixei pressuposto, o plano tridimensional imediato que envolve o sujeito na enunciação recriada. Os estados adstritos a esse espaço e os eventos que nele tomam lugar participam em estruturas não consecutivas, entram em sequências que respeitam uma sintaxe paratáctica, regida por um esquema simples de adição de instantes. Este é o andamento discursivo em que cada imagem visual/mental atomizada, se segue a outra da mesma feição, contingente às condicionantes físicas e cambiantes emocionais de uma defrontação em curso de experienciação, num exercício de recriação da errância do olhar original.

Eis um trabalho de construção da ilusão de uma reedição especular da realidade altamente eficaz. Digo "ilusão" e basta para assinalar que o percurso do locutor viajante será sempre um percurso intra-textual. Só a partir deste reconhecimento é que podemos retirar da referenciação parcelar, fragmentária e elíptica do espaço um aproveitamento metonímico e simbólico.

Acresce que o locutor que se mostra a enunciar no decurso da ocorrência de um estado de coisas, em autoreferencialidade, a todo o momento disponibiliza a implicatura: "eu vi, eu sei". A descrição de acções e estados de coisas com recurso à deixis primária dá acesso visual directo a uma cena espacial representada e intensifica a força assertiva da elocução. Já temos um espaço de veridição extratextual — a viagem é um facto histórico imposto ao discurso, iconográfica ou videaograficamente registado — e, mais especificamente, um espaço de veridição insitucional — atinente ao tipo publicação ou às informações do paratexto. Mas o discurso está marcado enunciativamente de modo a abrir um espaço de veridição intratextual, quando o locutor assume em evidência deíctica a verdade das proposições expressas. Então, de descritor ele pode muito bem passar a comentador autorizado de um mundo que se dá como pré-existente ao discurso. A avaliação positiva de credibilidade sobre as proposições assertadas robustece a pretendida comunhão de perspectivas e emoções. Como já disse, o alocutário é chamado à cena discursiva para compartilhar espaços perceptivos e, digo agora, daí comungar de universos de pensamento que irão suster o acto de comunicação pleno.

4.

Tal como anunciei na introdução e deixei pressuposto aquando da identificação dos elementos do corpus, esta descrição assenta em e potencia uma abordagem transgenológica. Para o confirmar, seleccionei uma reportagem, para aqui traçar brevemente algumas linhas de análise. Ora, a reportagem não surge comummente classificada como relato de viagem (a não ser com expressas salvaguardas) nem mesmo a reportagem dos chamados "enviados especiais" a trabalhar para um jornal diário, como é o caso desta que escolhi.

Para já, para podermos aceitar um tipo de exercício destes sobre um texto de imprensa de carácter noticioso — exercício esse que toma como inerente à activação particular do sistema deíctico, afinal, uma dimensão argumentativa — temos de ultrapassar alguns estereótipos, hoje rejeitados pela prática e teoria jornalísticas, designadamente, os agregados em torno do mito da objectividade, num extremo, ou os construídos à volta do chamado "jornalismo de causas", no outro. Isto porque, por um lado, "A imparcialidade não é sinónimo de neutralidade quando estão em causa valores fundamentais da vida em sociedade" (Livro de Estilo, Público: 38) e, por outro, porque vem tomando assento um novo paradigma na investigação académica sobre jornalismo, que concebe a notícia como uma construção, cuja fundamentação principal reside no facto de ser "impossível a neutralidade da linguagem" (Traquina, 2001: 28).

4.1.

Inicio, então, o esboço de análise da reportagem seleccionada. A primeira constatação é a de que o intervalo temporal onde tomam lugar os estados e acções descritas não têm um eixo autónomo de ancoragem em relação à enunciação. Vejamos.

O lead, já o sabemos, faz a agregação de temas a disseminar ao longo do texto, mas faz também, neste contexto, a agregação de tempos — o do locutor e o do alocutário. Por exemplo, em "estão a explodir", o presente progressivo enforma uma culminação, donde decorre o sentido de iteratividade, que tem lugar num intervalo temporal aberto e com vigência numa actualidade que reúne o tempo em que teve lugar a produção discursiva do locutor e o tempo de leitura do alocutário. Porém, no corpo da reportagem, os estados de coisas descritos estão confinados a um intervalo temporal que na macro-sequêncais A e C é dado como anterior ao tempo da enunciação e nas macro-sequências B, D, E, como simultâneo.

Reitero, num parêntesis, a notação de que o momento concernente à situação real de redacção textual não conta para os cálculos de radicação enunciativa aqui em jogo, dado que, como sabemos, o momento da enunciação é projectado no texto em função do tempo da edição do jornal (e do tempo de leitura, portanto).

A localização temporal dos estados de coisas da macro-sequência A é determinada pelo deíctico "ontem". Este frame temporal de anterioridade confere ao presente nos verbos dicendi "diz"e "revela"uma referenciação de passado.

Na sequência B1, toma assento o presente constativo — em "noutra cama está Najia Abdlatif", disponibilizando-se assim apenas a implicatura de ter ocorrido uma deslocação do sujeito locutor. Mas já em B2 a acção de deslocação está plenamente realizada não apenas no semantismo do verbo mas pela presença da 1ª pessoa do plural: "descermos". De modo que a forma "encontramos" exprime já uma efectiva defrontação que sustenta, em sequências posteriores, um forte visualismo impressivo.

Destaco a sequência B3 porque aí se faz, já não a descrição de estados ou reportação de falas, mas a descrição de acções captadas no curso do seu desenrolar ou no instante em que tomam lugar, conforme se trate de acções durativas ou pontuais: "aparece a ponta de uma maca", "saem a correr", "discute violentamente", "empurra a porta", de modo que é lícito afirmar que as acções substantivadas - "empurrões, "gritos", "choro" - estão inscritas nessa actualidade em curso, cumprindo uma função de pano de fundo.

Numa mesma ordem de relação, mas agora espacial, as descrições definidas presentes em "continua para a rua" ou, já na macro-sequência D, "numa das esquinas da grande clareira", e "a família", por exemplo, inscrevem-se no mesmo campo mostrativo determinado pelo deíctico "ali".

Em consonância com a expressão da deslocação do sujeito está a tematização abundante que se vai intensificando ao longo da macro-sequência D, donde destaco D2: "Vêem-se os restos dos quartos, das cozinhas, torradeiras entre bicicletas, cadeiras sobre metades de camas". Dizer o pormenor de modo atomístico é representar o instante cumulativo ao momento em que o sujeito fez o registo cognitivo, memorial e emotivo.

A sequência D3 fecha o trajecto descendente do sujeito enunciador: do terceiro andar do hospital ao rés do chão; do interior do hospital para a clareira; da clareira para o exterior do campo em direcção à cidade de Jenin; deslocação para a esquerda; aproximação ao baldio.

Vejamos agora, e por último, em que macro-segmentos do texto é que toma assento a reportação em directo deste trajecto.

A transição da macro-sequência A para a B é ocupada por uma resposta em discurso indirecto (de formulação elíptica) onde se atesta o desconhecimento dos médicos sobre a origem da colocação de minas no campo. A questão que lhe subjaz é colocada a outro interlocutor, e explicitamente: "Como sabe Najia que o engenho foi deixado por soldados israelitas?"; e, mais adiante, a esta mesma pergunta responde Akram: "estava na minha casa, os soldados entraram e não me viram. Depois de eles terem saído, pisei qualquer coisa." Mas agora as situações já estão a ser representadas como sendo contemporâneas da elocução do repórter. O discurso directo já por si acarreta o efeito de reprodução fiel do discurso produzido; se o locutor primário se mostra a si próprio em face daquilo que está a ser dito, então essa leitura de fidelidade reprodutiva torna-se iminente. As sequências B1 e B2, que integram os testemunhos de Najia e Akram, são a resposta à questão colocada no final da sequência A. Ora, não custa acreditar que os médicos não saibam por quem foram colocadas as minas e portanto a sua elocução pode ser reportada como passada. (Lembro que se admitia como possível a colocação de minas pelos próprios palestinianos para impedirem a entrada das tropas israelitas durante os combates). Mas a acreditação de que foram as tropas israelitas a fazê-lo já requer mais investimento e isso pode explicar o recurso à deixis indicial, mais do que a criação de um mero efeito de hipotipose.

A descrição da clareira começa na sequência C, em que os estados de coisas se situam num intervalo temporal anterior ao da enunciação, com radicação a cargo do deíctico "ontem". Esta descrição é panorâmica. A descrição analítica dessa paisagem faz-se na sequência D, através já de actos mostrativos directos de fragmentos de espaço, de acções incabadas, de objectos avulsos. Recordo que sensivelmente uma semana antes da publicação desta reportagem vários responsáveis europeus exerceram pressões sobre Israel, à medida que iam surgindo testemunhos sobre a situação no campo de refugiados de Jenin, no sentido de este país aceitar uma investigação das Nações Unidas sobre o que se tinha passado nos 11 dias de combates em que o campo esteve fechado ao mundo (os jornalistas tinham sido impedidos de entrar). Estas vozes emparceiraram com as vozes da opinião pública mundial num mesmo movimento de inquirição da dimensão e gravidade da acção do exército israelita. A descrição do campo tal qual é feita nesta reportagem atende a essa inquirição e responde-lhe, à revelia de uma classificação técnico-jurídica, mostrando a tragédia humana.

Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Centro de Linguística da Universidade do Porto
Via Panorâmica s/n 4150-564 Porto

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAMPOS, Maria Henriqueta Costa
(1997) - Tempo, Aspecto e Modalidade. Estudos de Linguística Portuguesa, Porto, Porto Editora.

FONSECA, Fernanda Irene
(1992) - Deixis, Tempo e Narração, Porto, Fundação Eng. António de Almeida.

FONSECA, Joaquim
(1998) - "Elogio do sucesso": a força da palavra / o poder do discurso" in Fonseca, Joaquim (org.), Estudos sobre o Português, Tomo III, Porto, Porto Editora: 9-78.
(2001a) - "O grau zero": discurso, representações ideológicas e construção do sentido" in Fonseca, Joaquim, Língua e Discurso, Porto, Porto Editora:51-95.
(2001b) - "Viva a Guiné-Bissau": construção do sentido e da força persuasiva do discurso" in Fonseca, Joaquim Língua e Discurso, Porto, Porto Editora: 96-142.

HOPPER, Paul J.(org)
(1982) - Tense-Aspect: between Semantics and Pragmatics, Amsterdam, John Benjamins.

Livro de Estilo, Público, 1998

OLIVEIRA, Fátima
(1998) - "Algumas questões semânticas acerca da sequência de tempos em português" Sep. da Revista da Faculdade de Letras Línguas e Literaturas, vol.XV:421-443.

SEIXO, Maria Alzira
(1998) - Poéticas da Viagem na Literatura, Lisboa, Edições Cosmos.

TRAQUINA, Nelson et al.
(2001) - O Jornalismo Português em Análise de Casos, Lisboa, Editorial Caminho.

WAUGH, L. R.
(1992) - "Tense-aspect and hierarchy of meanings: pragmatic, textual, modal, discoursive, expressive, referential" in Waugh, L. & Rudy, S. - New Vistas in Grammar: Invariance and Variation, Amsterdam, John Benjamins: 241-260.

Referências dos textos analisados

ALVAREZ, Luciano
(2000) - Aquilo que nunca se pode esquecer: diário de um jornalista em Timor, Lisboa, Contexto.

ANDRINGA, Diana
(1996) - "Demasiado!" (Uma viagem ao mundo dos refugiados), Lisboa, Teorema.

ARAÚJO, Rui
(1985) - Regresso a Timor, Amigos do Livro Editores.

BARATA-FEYO, José Manuel
(07/07/2001) - "Santo Avião", PÚBLICO / Revista Xis,
(30/07/2001) - "Água no deserto" PÚBLICO / Revista Xis,
(21/07/2001) - "A caminho dos trinta anos (1)" PÚBLICO / Revista Xis,
(28/07/2001) - "A caminho dos trinta (2)", PÚBLICO / Revista Xis,
(01/08/2001) - "A caminho dos trinta anos" (3), PÚBLICO / Revista Xis,
(11/08/2001) - "A caminho dos trinta anos" (4), PÚBLICO / Revista Xis,
(18/08/2001) - "Trinta anos", PÚBLICO / Revista Xis,
(13/10/2001) - "Cruz vermelha 'express'" PÚBLICO / Revista Xis,
(19/01/2002) - "Quem vai à guerra...dá e leva! (I)" PÚBLICO / Revista Xis,
(26/01/2002) - "Quem vai à guerra...vai...e volta (II)" PÚBLICO / Revista Xis,

FURTADO, Joaquim
(1985) - Na Ilha de Mussa-Bin-Mbiki, Amigos do Livro Editores.

TAVARES, Miguel Sousa
(1985) - Sahara: "A República da Areia", Amigos do Livro Editores.
(1998) - "Amazónia, a última fronteira" in Tavares, M. S. Sul. Viagens , Lisboa, Relógio d'Água.

 

ANEXO

PÚBLICO
23 de Abril de 2002
Jenin: "Senti que estava a explodir e disse as minhas últimas palavras"
Alexandra Lucas Coelho

Minas e engenhos estão a explodir no campo de Jenin. Os peritos da ONU já detectaram centenas. No hospital central entraram 12 feridos graves. Asad tem 10 anos e está em risco de vida. Alam foi abatido a meio da tarde, na rua principal. Famílias inteiras sentam-se sobre os destroços. Continua a busca de vivos e mortos. O cemitério foi alargado a um baldio. Ao fim da tarde enterravam-se os corpos.

(A1) Relatório clínico de Asad, 10 anos de idade: mão esquerda amputada, múltiplas fracturas na mão direita, múltiplas fracturas em ambas as pernas, um dedo do pé amputado, queimaduras de terceiro grau na cara. "A perna direita deverá ser amputada esta noite", diz ao PÚBLICO o cirurgião Walid Muhaisen. "Estamos a tentar transferi-lo para a Jordânia."
Ao final do dia de ontem, o pequeno Asad estava entre a vida e a morte numa cama do Hospital Central de Jenin. Só se via a sua cara, fora dos lençóis, completamente queimada. Dera entrada na véspera, às seis da tarde. Pisara um engenho explosivo na rua principal do campo de Jenin.
(A2) "Nos últimos três dias recebemos 12 feridos por estas bombas", revela o cirurgião Muhaisen. Os peritos da UNRWA - a agência da ONU para os refugiados palestinianos - já detectaram centenas, por explodir. A desminagem do campo é agora uma das prioridades máximas.
Os médicos do hospital não sabiam se o engenho que feriu Asad era palestiniano ou israelita.
(B1) Um andar por baixo de Asad, noutra cama, está Najia Abdlatif. Tem 45 anos, e trabalha na limpeza da clínica da UNRWA em Jenin. As suas duas mãos estão ligadas. "Na palma da mão esquerda não há nada, disseram os médicos, só ossos", diz ela, devagar. Toda a cara está coberta por ferimentos. O engenho que lhe explodiu nas mãos não estava na rua, fora deixado em sua casa.
"Eu tinha saído do campo, durante os combates, para casa do meu irmãos. Quando disseram que já se podia voltar, há quatro dias, fui ver como estava a minha casa, se tinha sido destruída. Os soldados tinham partido tudo, vidros, móveis, televisão. Comecei a juntar uma pilha de lixo, para deitar fora. Então ouvi um barulho. Senti que estava a explodir e disse as minhas últimas palavras, como muçulmana."
Najia é viúva, há anos. Tem três filhos cegos, de nascença. O irmãos morreu durante a luta contra a ocupação israelita. "Era um combatente".
Como sabe Najia que o engenho foi deixado por soldados israelitas? "Eles deixaram os restos de comida, latas de sardinha, caixas com as letras deles, sujaram a casa de banho toda. Destruíram metade do campo e depois deixaram estas bombas para matar as pessoas que tinham abandonado as casas."
Pede que abram a gaveta da sua mesinha de cabeceira. Oferece bolachas de baunilha aos visitantes. Depois ergue-se um pouco na cama e pergunta: "Onde é que estão os árabes, os países árabes? Só Deus nos pode ajudar."
É o princípio de uma célebre canção palestiniana. Ela canta: "Onde é que estão os árabes, onde é que estão os milhões, onde, onde? Os rapazes de Hagana dormem e descansam, e nós espalhados por toda a parte." Os rapazes de Hagana são os judeus.
(B2) Antes de descermos para as urgências do hospital, encontramos um terceiro ferido por um engenho explosivo. Chama-se Akhram Nassar, tem 38 anos e é operário na Câmara de Jenin. "Não sou combatente, sou um trabalhador". Destapa as pernas. Ambas as coxas estão ligadas, com uma gaze já cheia de sangue. "Estava na minha casa, os soldados entraram e não me viram. Depois de eles terem saído, pisei qualquer coisa, Ouvi um barulho." Do que se lembra a seguir é de estar deitado nesta cama.
(B3) Descemos as escadas. Em cada patamar, fotografias de jovens resistentes palestinianos armados.
No rés do chão do hospital, não se consegue passar pelo corredor que dá acesso às urgências, e que continua para a rua. Há uma multidão amontoada, entre voluntários do Crescente Vermelho, enfermeiros e médicos. Uma mulher berra e chora: "Mataram o meu filho, mataram o meu filho."à volta, empurrões, gritos.
A porta das urgências abre-se e aparece a ponta de uma maca. Toda a gente se aperta contra as paredes. Gritos lancinantes, choro. Dois enfermeiros saem a correr com a maca. Há um corpo todo embrulhado num pano azul.
Um grupo de homens discute violentamente. Um deles empurra a porta das urgências e entra aos gritos.
"O rapaz morto era um talhante de 23 anos, chamava-se Alam Zidam", diz-nos um enfermeiro do Crescente Vermelho. "Foi abatido há meia hora na rua principal do campo. Há quem diga que foi uma briga entre os habitantes, há quem diga que foram soldados israelitas, que andam por aí, à civil."
Escutamos ora uma ora outra versão de vários dos presentes. (C) Há uma semana, quando visitámos o campo de Jenin pela primeira vez, o cenário era de pós-terramoto, com mulheres e crianças vagueando entre o entulho, as montanhas de pedra, cimento, ferro, vidro.
Ontem, o cenário continuava a ser de pós-terramoto, a mesma devastação, como se nada tivesse sido removido. Mas agora com centenas e centenas de homens, entre escavadoras, e camiões de água. Muitos dos detidos pelo exército israelita, que se tinham refugiado nas aldeias em volta de Jenin, começaram a voltar.
(D1) Numas das esquinas da grande clareira — e epicentro da destruição — senta-se a família de Faez Mohamad Salah, 72 anos, lenço palestiniano na cabeça, bengala na mão. Estão ali, ao sol, sobre os escombros do que era a sua casa. Algumas paredes ainda estão de pé, outras pendem, aos bocados, presas por ferros. Ao lado de Faez está a sua mulher, a sua filha, os seus três netos pequeninos, descalços.
Onde é que estão a dormir? "Na Cruz Vermelha, em casa de conhecidos, na cidade. Éramos três famílias, nesta casa, 18 pessoas ao todo."
Como é que a casa foi destruída? "Um míssil, e depois 'bulldozers'. Nós já tínhamos fugido, antes, quando começaram os tiros."
Um rapaz de braço ligado aproxima-se. "Foi uma bala", conta. Ri-se quando lhe perguntamos o nome. Não diz. É um dos combatentes que lutaram contra os soldados israelitas, durante a ocupação. "Eu estava em casa e queria ir ter com os meus amigos. Eles atingiram-me, mas consegui fugir."
Há uma garotinha com um ramo de flores nas mãos tentando trepar a montanha de pedras e ferros. "Flores de plástico", diz um dos voluntários de Crescente Vermelho. "Porque não há flores aqui. Nem flores, nem animais, nada, tudo morreu."
Noutra ponta da grande clareira estão dois velhos sentados num bocado de cimento. Um enrola um cigarro, o outro contas de rezar. O do cigarro é Sahed Faed, 66 anos. Começa a fumar olhando para a frente. Não há nada em frente, só as montanhas de destroços. "Ali era a minha casa."
O pequeno camião amarelo da câmara de Jenin que anda a distribuir água pelo campo — há três semanas que não há água, nem luz, nem gás —, tenta abrir passagem numa rua que já não é rua, e está cheia de gente. O ar está cheio de pó das escavadoras que lentamente tentam remover os destroços. O barulho é ensurdecedor.
(D2) Descendo em direcção à cidade de Jenin, não há uma parede inteira. Vêem-se os restos dos quartos, das cozinhas, torradeiras entre bicicletas, cadeiras sobre metades de camas. O chão é um alto mar de lama.
Passam meninos carregando pacotes com garrafas de água. Foram buscá-las ao Crescente Vermelho, que a partir de hoje, com um grupo de psicólogos, começa um programa de apoio a 200 crianças do campo.
(D3) Virando à esquerda, e continuando pela estrada que sai de Jenin, há um baldio. Estão a enterrar corpos. Uma dúzia de montículos de terra fresca, e um grupo de gente em torno do que será o próximo. O cemitério fica para cima, na subida da colina. (E) Numa das paredes das últimas casas destruídas, há um graffiti. "I love Israel", em inglês. Um coração. E CCCP. As iniciais russas da URSS.
Lembrança de algum emigrante que entretanto se fez soldado em Israel.

E-mail: anamartins@mail.prof2000.pt