Faculdade de Letras
Universidade do Porto
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Língua Portuguesa Escrita

Protótipo da sequência descritiva

Falsas crenças a respeito da descrição:
— tipologia subsidiária, incrustrada na sequência argumentativa, explicativa, narrativa
— sem princípio nem fim
— despersonalização
— ornamento

 

O papel incontornável da descrição:
— lugar onde o leitor encontra instruções que lhe permitem levantar hipóteses interpretativas
— a descrição dá um retrato do descritor

DESCREVER

Descrever consiste em apresentar um olhar particular sobre o mundo, fazendo existir os seres e as coisas pelo facto de serem nomeados e localizados espacial e temporalmente e ainda por lhe serem atribuidas qualidades que os singularizam.

Três operações contitutivas da descrição:
nomear (taxinomias, inventários, listas)
localizar / situar (determinar o lugar que ocupa um ser no espaço e no tempo
qualificar (completação da actividade de nomeação)

Actividade descritiva:
finalidade: modo de organização não arbitrário
modo de construção textual/procedimento discursivo: modo de organização livre.

Caracterização antinómica relativamente à narração:

— Descritivo
  • imperfectivo
  • não progressão da acção
  • não humano
  • notação de lugares
  • categorias gramaticais
    • adjectivos
    • adverbiais
    • indefinidos
— Narrativo
  • perfectivo
  • progressão da acção
  • agente humano

Géneros (exemplos):
— catálogo de vendas
— memória descritiva de um projecto arquitectónico
— manual escolar
— anúncio de oferta de emprego
— carta de amor
— reportagem
— palavras cruzadas
— livro de anatomia
— programa de festas
— menu
— manual de instruções
— enciclopédia
— anúncio publicitário

 

Endechas a

Bárbara escrava

 

 

Aquela cativa

Que me tem cativo,

Porque nela vivo

Já não quer que viva.

Eu nunca vi rosa

Em suaves molhos,

Que pera meus olhos

Fosse mais fermosa.

 

Nem no campo flores,

Nem no céu estrelas

Me parecem belas

Como os meus amores.

Rosto singular,

Olhos sossegados,

Pretos e cansados,

Mas não de matar.

 

Uma graça viva,

Que neles lhe mora,

Pera ser senhora

De quem é cativa.

Pretos os cabelos,

Onde o povo vão

Perde opinião

Que os louros são belos.

 

Pretidão de Amor,

Tão doce a figura,

Que a neve lhe jura

Que trocara a cor.

Leda mansidão,

Que o siso acompanha;

Bem parece estranha,

Mas bárbara não.

 

Presença serena

Que a tormenta amansa;

Nela, enfim, descansa

Toda a minha pena.

Esta é a cativa

Que me tem cativo;

E. pois nela vivo,

É força que viva.

 

Luís de Camões

 

Exercício:

Van Gogh.jpg
1. Construa uma descrição com base nesta imagem.
1.1. Imagine o contexto situacional.
1.2. Invente uma finalidade comunicativa.

 

IAbstracta.jpg
2. Proceda a uma descrição desta imagem, explorando o fenómeno da analogia.