Caso Fatal
É a mais pura verdade
o caso que eu vou contar
quem quiser pode nem acreditar
Se bem que aviso já
mentiroso eu não sou
quem quiser pode ir lá ver que eu não vou
De mais a mais porque é
que eu havia de ir lá ver
o que já lá vi com estes dois
por quem sois
crede em mim
vou contar-vos enfim
o tal caso verdadeiro aí vai tim tim por tim tim
Verdadeiro e não só
posso chamar-lhe atroz
este caso que me estrangula a voz
Não penseis que exagero
não julgueis que é de mais
e que abuso de pimentas e sais
Não bem pelo contrário
a minha musa indigente
nem sequer está à altura
e faz figura bem triste
Mas bom já que se insiste
estou disposto a revelar
no que este caso consiste
Ora bem foi assim
este caso fatal
que foi para pior
depois de estar mal
Não me lembro da hora
nem se era noite ou dia
só sei que algo no ar se pressentia
E os pressentimentos
são a modos que mosquitos
a esvoaçarem no ar
esmagar dois ou três
se alivia o freguês
não anula o problema
nem o resolve de vez
Então seguiu-se o resto
do que estava para vir
nem vos conto para vos não combalir
Foi um ver se te avias
um vai-vem muito louco
um toma-lá-dá-cá
e fica com o troco
Teve um pouco de tudo
e foi pouco p’ró que teve
sem Ter mais nem porquê
já se vê
pelo aparato
que foi d’esfola gato
este caso que no meu modesto verso relato
Bem que agora que já
estais familiarizados
com o assunto e seus assins e assados
E que tendes presente
a complexidade
de apartar do mexerico a verdade
Podereis ter ficado
com a estranha sensação que eu nada disse e porém...
Também muitos doutores
falam bem fazem flores
mas não dizem nada nada
ao discursar:
Meus senhores...
GODINHO, Sérgio in Coincidências
Era uma vez um homem que não pôde pagar a renda ao fidalgo de que era caseiro. Assim, decidiu-se a pedir que lhe fosse perdoada a dívida. Porém o fidalgo pensou que o outro lhe estivesse a mentir e respondeu:
— Só te perdoo as medidas da renda se me disseres uma mentira do tamanho de hoje e amanhã.
Foi-se o lavrador para casa e contou o que se passara à mulher. E que não fazia ideia de como havia de contentar o senhorio, que bem os podia pôs na rua. Um filho meio tolo que o caseiro tinha, ouvindo os medos do pai, disse:
— Ó meu pai, deixe-me ir ter com o fidalgo, que eu hei-de arranjar a coisa de modo a que ele não tenha outro remédio senão perdoar-lhe a renda.
— Mas tu não atas coisa com coisa...
— Por isso mesmo.
Foi o meio tolo e pediu para falar com o fidalgo, dizendo que estava ali para pagar a renda. O fidalgo mandou-o entrar e ele então disse:
— Saberá Vossa Senhoria que a colheita foi má, mas isso não tem importância. Meu pai tinha tantos cortiços de abelhas que não lhe dava com a conta. Pôs-se a contar as abelhas e deu que lhe faltava uma. Botou o machado às costas e foi procurar a abelha. Achou-a pousada no cimo de um amieiro. Vai ele, cortou o amieiro para caçar a abelha, que por sinal vinha tão carregadinha de mel que ele cretou-a e, não tendo em que guardar o mel, meteu a mão no seio e tirou dois piolhos. Da pele destes fez dois odres, que encheu. Mas quando ia para entrar em casa uma galinha comeu-lhe a abelha. Atirou à galinha o machado para a matar, mas o machado perdeu-se entre as penas. Chegou fogo às penas, e só depois que elas arderem é que achou o olho do machado. Dali correu ao ferreiro para lho arranjar, e o ferreiro fez-lhe um anzol, com que foi ao rio apanhar peixes. Pescou uma albarda. Tornou a deitar o anzol e apanhou um burro morto há três dias, o qual ainda pestanejava. Pôs-se a cavalo nele e foi ao ferrador para lhe dar uma mezinha, e ele deu-lhe foi um remédio de sumo de fava seca, mas nisto caiu-lhe um bocado no ouvido, onde lhe nasceu tamanho faval, que tem dado favas e comido favas, que ainda aí trago quinze carros delas para pagar a renda a Vossa Senhoria.
O fidalgo, já farto de tanta patranha, disse:
— Ó rapaz, tu mentes com quantos dentes tens na boca!
— Poi bem, senhor, então está a nossa renda paga.
MÜLLER, Adolfo Simões
- O Prícipe Imaginário e Outros Contos Tradicionais Portugueses, Distri
Construa uma pequena história que explore o sentido de algumas destas expressões idiomáticas:
— macaquinhos no sótão
— bichos carpinteiros
— abelhudo
— rato de biblioteca
— formigueiro
— cantar de galo
— deitar-se com as galinhas
— passarinhar
— bode expiatório
— chamar os bois pelo nome
— alta cavalariça
— levar com um cavalo marinho
— cabritar
— papaguear
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