Faculdade de 
Letras
Universidade do Porto
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Língua Portuguesa Escrita

 


Caso Fatal

 

É a mais pura verdade

o caso que eu vou contar

quem quiser pode nem acreditar

 

Se bem que aviso já

mentiroso eu não sou

quem quiser pode ir lá ver que eu não vou

 

De mais a mais porque é

que eu havia de ir lá ver

o que já lá vi com estes dois

por quem sois

crede em mim

vou contar-vos enfim

o tal caso verdadeiro aí vai tim tim por tim tim

 

Verdadeiro e não só

posso chamar-lhe atroz

este caso que me estrangula a voz

 

Não penseis que exagero

não julgueis que é de mais

e que abuso de pimentas e sais

 

Não bem pelo contrário

a minha musa indigente

nem sequer está à altura

e faz figura bem triste

 

Mas bom já que se insiste

estou disposto a revelar

no que este caso consiste

 

Ora bem foi assim

este caso fatal

que foi para pior

depois de estar mal

 

Não me lembro da hora

nem se era noite ou dia

só sei que algo no ar se pressentia

 

E os pressentimentos

são a modos que mosquitos

a esvoaçarem no ar

esmagar dois ou três

se alivia o freguês

não anula o problema

nem o resolve de vez

 

Então seguiu-se o resto

do que estava para vir

nem vos conto para vos não combalir

 

Foi um ver se te avias

um vai-vem muito louco

um toma-lá-dá-cá

e fica com o troco

 

Teve um pouco de tudo

e foi pouco p’ró que teve

sem Ter mais nem porquê

já se vê

pelo aparato

que foi d’esfola gato

este caso que no meu modesto verso relato

 

Bem que agora que já

estais familiarizados

com o assunto e seus assins e assados

 

E que tendes presente

a complexidade

de apartar do mexerico a verdade

 

Podereis ter ficado

com a estranha sensação que eu nada disse e porém...

 

Também muitos doutores

falam bem fazem flores

mas não dizem nada nada

ao discursar:

Meus senhores...

 

GODINHO, Sérgio in Coincidências

 

 

A enfiada de petas

 

Era uma vez um homem que não pôde pagar a renda ao fidalgo de que era caseiro. Assim, decidiu-se a pedir que lhe fosse perdoada a dívida. Porém o fidalgo pensou que o outro lhe estivesse a mentir e respondeu:

— Só te perdoo as medidas da renda se me disseres uma mentira do tamanho de hoje e amanhã.

Foi-se o lavrador para casa e contou o que se passara à mulher. E que não fazia ideia de como havia de contentar o senhorio, que bem os podia pôs na rua. Um filho meio tolo que o caseiro tinha, ouvindo os medos do pai, disse:

— Ó meu pai, deixe-me ir ter com o fidalgo, que eu hei-de arranjar a coisa de modo a que ele não tenha outro remédio senão perdoar-lhe a renda.

— Mas tu não atas coisa com coisa...

— Por isso mesmo.

Foi o meio tolo e pediu para falar com o fidalgo, dizendo que estava ali para pagar a renda. O fidalgo mandou-o entrar e ele então disse:

— Saberá Vossa Senhoria que a colheita foi má, mas isso não tem importância. Meu pai tinha tantos cortiços de abelhas que não lhe dava com a conta. Pôs-se a contar as abelhas e deu que lhe faltava uma. Botou o machado às costas e foi procurar a abelha. Achou-a pousada no cimo de um amieiro. Vai ele, cortou o amieiro para caçar a abelha, que por sinal vinha tão carregadinha de mel que ele cretou-a e, não tendo em que guardar o mel, meteu a mão no seio e tirou dois piolhos. Da pele destes fez dois odres, que encheu. Mas quando ia para entrar em casa uma galinha comeu-lhe a abelha. Atirou à galinha o machado para a matar, mas o machado perdeu-se entre as penas. Chegou fogo às penas, e só depois que elas arderem é que achou o olho do machado. Dali correu ao ferreiro para lho arranjar, e o ferreiro fez-lhe um anzol, com que foi ao rio apanhar peixes. Pescou uma albarda. Tornou a deitar o anzol e apanhou um burro morto há três dias, o qual ainda pestanejava. Pôs-se a cavalo nele e foi ao ferrador para lhe dar uma mezinha, e ele deu-lhe foi um remédio de sumo de fava seca, mas nisto caiu-lhe um bocado no ouvido, onde lhe nasceu tamanho faval, que tem dado favas e comido favas, que ainda aí trago quinze carros delas para pagar a renda a Vossa Senhoria.

O fidalgo, já farto de tanta patranha, disse:

— Ó rapaz, tu mentes com quantos dentes tens na boca!

— Poi bem, senhor, então está a nossa renda paga.

 

MÜLLER, Adolfo Simões
- O Prícipe Imaginário e Outros Contos Tradicionais Portugueses, Distri

Exercício:

Construa uma pequena história que explore o sentido de algumas destas expressões idiomáticas:

 
— macaquinhos no sótão
— bichos carpinteiros
— abelhudo
— rato de biblioteca
— formigueiro
— cantar de galo
— deitar-se com as galinhas
— passarinhar
— bode expiatório
— chamar os bois pelo nome
— alta cavalariça
— levar com um cavalo marinho
— cabritar
— papaguear

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