Faculdade de Letras
Universidade do Porto
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Língua Portuguesa Escrita

1.

"Não estava ainda instalada de todo quando consegui um contrato para a Universidade da Califórnia, para ensinar narrativa a um grupo de jovens aspirantes a escritor. Como se pode ensinar a contar uma história? Paula deu-me a chave do problema pelo telefone: diz-lhes que escrevam um livro mau, isso é fácil, qualquer um pode fazê-lo, aconselhou-me com ironia. E assim fizemos, cada um dos estudantes pôs de parte a sua secreta vaidade de produzir o Grande Romance Americano e lançou-se com entusiasmo a escrever sem medo. Pelo caminho fomos ajustando, corrigindo, cortando e polindo, e depois de muitas discussões e risadas levaram por diante os seus projectos, um dos quais foi publicado pouco depois a toque de tambor e címbalos por uma grande editora de Nova Iorque."


Isabel Allende - Paula

1.1.

Construa um texto instrucional que revele os requisitos para se escrever bem.

2.

Os homenzinhos de Grork

A ficção científica parte de alguns pressupostos, ou preconceitos, que nunca foram devidamente discutidos. Por exemplo: sempre que uma nave espacial chega à Terra vinda de outro planeta, é um planeta mais adiantado do que o nosso. Os extraterrenos nos intimidam com suas armas fantásticas ou com sua sabedoria exemplar. Pior do que o raio da morte é o seu ar de superioridade moral. A civilização deles é invariavelmente mais organizada e virtuosa do que a da Terra e eles não perdem a oportunidade de nos lembrar disto. Cansado de tanta humilhação, imaginei uma história de ficção diferente. Para começar, o Objecto Voador Não Identificado que chega à Terra, descendo numa planície do Meio-Oeste dos Estados Unidos, chama a atenção por um estranho detalhe: a chaminé.

— Vi com estes olhos, xerife. Ele veio numa trajectória irregular, deu alguns pinotes, tentou subir e depois caiu como uma pedra.

— Deixando um facho de luz atrás?

— Não, um facho de fumaça. Da chaminé.

— Chaminé? Impossível. Vai ver o alambique do velho Sam explodiu outra vez e a sua cabana voou.

— Não, tinha o formato de um disco voador. Mas com uma chaminé em cima.

O xerife chama as autoridades estaduais, que cercam o aparelho. Ninguém ousa se aproximar até que cheguem as tropas federais. Um dos policiais comenta para o outro:

— Você notou? A vegetação em volta...

— Dizimada. Provavelmente um campo magnético destrutivo que cerca o disco e...

— Não. Parece cortada a machadinha. Se não fosse um absurdo eu até diria que eles estão colhendo lenha.

Nesse instante, um segmento de um dos painéis do disco, que é todo feito de madeira compensada, é chutado para fora e aparecem três homenzinhos com machadinhas sobre os ombros. Os três saem à procura de árvores para cortar. Estão examinando as pernas de um dos policiais, quando este resolve se identificar e aponta um revólver para os homenzinhos.

— Não se mexam ou eu atiro.
Os homenzinhos recuam, apavorados, e perguntam:

— Atira o quê?

— Atiro com este revólver.

O policial dá um tiro para o chão como demonstração. Os homenzinhos, depois de refeitos do susto, aproximam-se e passam a examinar a arma do policial, maravilhados. Os outros policiais saem de seus esconderijos e cercam os homenzinhos rapidamente. Mas não há perigo. Eles querem conversa. Para facilitar o desenvolvimento da história, todos falam inglês.

— Vocês não conhecem armas, certo? - quer saber um policial. - Estão num estágio avançado de civilização em que as armas são desnecessárias. Ninguém mais mata ninguém.

— Você está brincado? - responde um dos homenzinhos. - Usamos machadinhas, tacapes, estilingue, catapulta, flecha, qualquer coisa para matar. Uma arma como essa seria um progresso incrível no nosso planeta. Precisamos copiá-la!

Chegam as tropas federais e diversos cientistas que examinaram os extraterrenos e seu artefacto voador. Começam as perguntas. De que planeta eles são? De Grork. Como é que se escreve? Um dos homenzinhos risca no chão: GRRK.

— Deve faltar uma letra - observa um dos cientistas. - O "O".

— O "O"?

— Assim - diz o cientista da Terra, fazendo uma roda no chão. O homenzinho examina o "O". As possibilidades da forma são evidentes. A roda! Por que não tinham pensado nisso antes? Voltarão para o Grork com três ideias revolucionárias: o revólver, a roda e a vogal.(...)


Luís Fernando Veríssimo - O Nariz e Outras Crónicas

2.1.

Transforme este conto numa notícia.