Faculdade de Letras
Universidade do Porto
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Língua Portuguesa Escrita

1. Corrija o texto.
2. Justifique as correcções.

A guerra é um assunto que nos tem aflito muito desde o 11 de Setembro. A eminência de uma terceira guerra mundial, protagonisada pelos Estados Unidos, abriu uma crise profunda no seio da ONU e da União Europeia. Tratam-se de problemas novos, de que o mundo nunca teve de enfrentar: o combate à fabricação de armas de destruição maciva é uma acção com a qual todos os países da ONU estão de acordo. Os desacordos começam quanto aos meios a empreender nesse combate. Só há, neste momento, a possibilidade de uma acção militar no Iraque ou ainda é sustentável a solução pacífica que passa pela vigilância e envio de mais inspectores? Haverão ainda outras possibilidades de solução do conflito? A " Operação Mirage", proposta pela França e Alemanha, é exequível? Ambos os dois países parecem determinados em fazer frente aos Estados Unidos, argumentando que a guerra trará uma grave desestabilização social e política ao Médio Oriente, com reflexos imediatos na questão israelo-palestiniana, fazendo aumentar as acções terroristas um pouco por todo o mundo.

É caso para dizer-se que chegou-se a um beco sem saída: considerando que a ONU aprovou a resolução 1441 — que estipulava a cooperação imediata e incondicional de Saddam Husseim na viabilização de todas as acções de fiscalização dos inspectores, dando como contrapartida o uso da força — e em face do último relatório de Hans Blix, a guerra é, neste momento, inevitável.

Há quem defenda de que senão se envereda-se por um discurso político tão radicalisado e belicista (é célebre a expressão de G. W. Bush: "eixo do mal"), desde o 11 de Setembro, o mundo não teria hoje de enfrentar esta decisão. Mas também é verdade que a inacção dos países democráticos corresponde a ceder à chantagem e irá certamente alimentar grupos terroristas.


Ana Martins

Justificação da correcção:

  1. O particípio passado entra na formação de tempos compostos formados com os auxiliares ter ou haver. O particípio é também utilizado na voz passiva.
    Há verbos com duas formas de particípio: a regular e a irregular ou reduzida.
    Forma regular (ex: completado, entregado, juntado, limpado, matado, secado): usada nos tempos compostos da voz activa (com os auxiliares ter e haver).
    Forma irregular ou reduzida (completo, entregue, junto, limpo, morto, seco): utilizada na voz passiva ( com os verbos ser e estar).

  2. Eminência: qualidade do que se eleva acima do que o rodeia.
    Iminência: característica do que ameaça acontecer.

  3. Os verbos novos da língua portuguesa formam-se em geral pelo acréscimo da terminação -ar
    (vogal temática -a-, característica dos verbos da primeira conjugação + sufixo -r) a substantivos ou adjectivos:

    Nível - ar
    Telefon-ar

    Por vezes a vogal temática -a- liga-se não ao radical propriamente dito, mas a uma radical que já tem a adição de sufixo:

    Amen - iz -ar
    Suav - iz -ar

  4. Massivo (a): conjunto que não é passível de ser dividido em partes singulares que se possam enumerar, contar.
    Maciço (a): que não é oco; que não tem cavidades; qualidade do que é compacto, denso.

  5. Verbo Haver: quando tem o sentido de existir, acontecer ( ou seja , quando não é empregue como verbo auxiliar), é um verbo impessoal, ou seja, não tem sujeito; é conjugado sempre na 3ª pessoa do singular (há, houve, haverá)

  6. Ambos os dois: redundância usada por escritores clássicos, mas que hoje deve ser evitada. Ambos já significa os dois.

  7. Pronome antes da forma verbal (simples ou composta):
    Em orações subordinadas:
    Era bom que se resolvesse isto de uma vez por todas.
    A Maria gosta tanto de Matemática que se coloca sempre à porta da sala de aula antes do tempo.

  8. Senão:
    — conjunção coordenada disjuntiva (= Ou... Ou..., caso contrário): Está quieta senão apanhas.
    — Advérbio (= excepto) : Nada tenho senão isto.
    — Substantivo: Não há bela sem senão.
    Se não: conjunção conjuncional + adv. "não": Se não queres ir, não vás.

  9. De que: é erro usar de que antes de uma oração que cumpre a função sintáctica de complementos directo: Ele afirmou durante a sua campanha que ( e não de que ) a inflação seria debelada. Afirmar é um verbo transitivo directo, portanto: afirmar alguma coisa, e não afirmar de alguma coisa. A oração 'que a inflação seria debelada' funciona como complemento directo de 'afirmou'.
    Usa-se obrigatoriamente de que quando o verbo exige a preposição de:
    A casa de que te falei foi vendida.
    Tinha de fazer tarefas de que não gostava.
    Não tem ideia dos bens de que dispõe.
    Não posso vender aquilo de que não sou dono.
    São obrigações de que não no podemos eximir.
    Como convencê-los de que são vítimas das suas ilusões?.
    Previno-a de que encontrará dificuldades.
    Informo-o de que a reunião foi adiada.

  10. Enveredasse: Pretérito Imperfeito do Conjuntivo...
    Envereda-se: Presente do Indicativo conjugado com pronome que assinala a função de indeterminação do sujeito.
Vésperas sombrias

Há momentos assim, feitos de certezas definitivas, para uns, mas de incerteza e insegurança, para outros. São dias e meses de luta e de esperança, como são dias e meses de medo ou resignação. São tempos propícios à irracionalidade e à razão dominada pela profissão de fé. Os que tomam facilmente partido vivem de proclamações fáceis, de ideias feitas e de reflexos condicionados. Os outros, aqueles para quem as escolhas dependem de factos e de argumentos, procuram sinais entre as sombras da tempestade que se aproxima. Não hesitam, antes pretendem que as suas opções sejam o resultado da razão, o produto da consciência, não o tropismo que tão facilmente leva os homens e as mulheres a arrumarem-se em campos entrincheirados do bem e do mal, do preto e do branco, do rico e do pobre, do mestre e do lacaio. Os que querem escolher livremente sabem que os seus amigos cometem erros e os seus inimigos sofrem. Sabem que os que defendem a liberdade são frequentemente tentados pela arrogância e pelo despotismo.

Não se trata de uma ficção. Nem sequer de uma proposta. Mas de uma hipótese. Vale a pena supor que o governo americano reconsidera a sua participação na Aliança Atlântica e decide, com efeitos imediatos, abandonar as estruturas militares da NATO. Podendo até, recordando aliás uma fórmula utilizada por De Gaulle há quase quarenta anos, manter-se na aliança política. O seu pessoal militar abandonaria todos os órgãos actualmente em funções e as suas unidades de intervenção rápida regressariam a casa. As suas bases europeias seriam abandonadas, sendo desactivadas todas as forças que, do Mediterrâneo ao mar do Norte e ao Báltico, passando pelo Atlântico, asseguram a segurança europeia. De igual modo, as instalações de vigilância, observação e espionagem militar seriam encerradas e entregues aos europeus. A Europa deixaria de estar condicionada pelos Estados Unidos. Seria, finalmente, independente, como dirão muitos. Ficaria assim, por tempo indeterminado, sem protecção nuclear e sem capacidade efectiva de retaliação perante qualquer ataque ou ameaça. O veto franco-alemão e belga é um estímulo a esta política. Pense-se um pouco nas consequências desta hipotética decisão americana, que seria prontamente festejada por tantos europeus fartos da hegemonia americana e amantes do modelo social europeu e da paz europeia. Como disse, é só uma hipótese. Bem real.

Talvez tivesse sido possível evitar a guerra. Talvez ainda seja possível fazê-lo. Algumas condições, todavia, estão hoje ultrapassadas. Ou quase. Se a política externa americana não fosse tão condicionada por Ariel Sharon e seus amigos... Se o governo americano não usasse da arrogância que o seu poderio lhe permite... Se George W. Bush não tivesse tido um comportamento tão errático e confuso... Se a França e a Alemanha tivessem revelado desde o início uma disposição firme e um respeito sólido pela aliança atlântica... Se a União Europeia não tivesse dado sinais de encorajamento ao Iraque... Se os europeus tivessem percebido que não é possível fazer uma União contra ou à margem dos Estados Unidos... Se... Mas talvez seja tarde.

Pode discutir-se o que pretende o governo americano, o que, aliás, nem sempre é claro. O que, infelizmente, não se pode discutir é o que querem os seus opositores. Nem a União Europeia, a França ou a Alemanha, nem a Rússia ou a China, menos ainda os movimentos sociais e políticos que, por todo o lado, manifestam, sugerem objectivos, fazem propostas e tornam públicos planos de acção. Não sabem de todo o que fazer?

Talvez saibam: nada. Deixar tudo conforme está. Até ao dia em que, se for preciso, chamam os americanos.

Só pela força o Iraque será contido, desarmado e neutralizado. Essa força poderia ter sido política e diplomática, como poderia ter sido a que resulta de uma ameaça inequívoca. E teria sido uma força não violenta. Mas depressa se percebeu que a ameaça não era firme. A União Europeia estava dividida. A França e a Alemanha decidiram aproveitar a oportunidade para marcar a sua posição seja dentro da União, seja perante o Leste europeu e a Rússia, seja finalmente diante do Iraque e do Islão petrolífero. Desde que o Iraque percebeu que a NATO e as Nações Unidas não conseguiriam ou dificilmente conseguiriam formular uma ameaça séria nem, caso fosse necessário, pô-la em prática, passou a desafiar abertamente a comunidade internacional.

Nas manifestações de sábado, além da impressionante participação de massas e da inédita fusão de esquerdas e direitas, um facto deve ser realçado. Desapareceram os argumentos favoráveis ao respeito pelo direito internacional e que faziam, das regras das Nações Unidas, o instrumento essencial de acção. Na verdade, passados os primeiros minutos, aquilo contra o que os manifestantes se exprimiam explicitamente era qualquer espécie de intervenção de força da comunidade internacional ou das Nações Unidas, mesmo com apoio do Conselho de Segurança. Foi um esclarecimento útil.

É tão fácil preferir a paz à guerra! É tão impecável declarar-se amante da paz! Tão moralmente imaculado repudiar a guerra! Quem, de consciência tranquila, o não faria? Não duvido da sinceridade de tantos quantos, neste sábado, por medo, convicção ou estratégia, mostraram os seus pacíficos sentimentos. Mas é bom que saibam que, como disse ontem Helena Matos neste jornal, não estão a escolher entre a paz e a guerra, mas sim entre a guerra e a chantagem. E ao preferir a chantagem, terão, tarde ou cedo, a guerra. Certamente em piores condições.


António Barreto, Público,16-2-2003