Faculdade de Letras
Universidade do Porto
http://www.letras.up.pt/

Língua Portuguesa Escrita

ORGANIZADORES DISCURSIVOS

Conector discursivo

Um termo é um conector se permitir ligar duas ou mais proposições ou frases entre elas para formar proposições ou frases mais complexas.
Ex. Conjunções ou locuções conjuncionais que marcam relações de conjunção, disjunção, implicação, equivalência.

Operador discursivo

Um termo é um operador quando a sua função se circunscreve a uma proposição ou frase atómica.
Ex.: não, nem, apenas, pouco, um pouco, ainda, já, quase

Organizador discursivo

Chamamos organizador discursivo a uma oração breve, expressão adverbial ou conjuncional (que formalmente pode coincidir com o conector) que tem por função explicitar um dado tipo de articulação entre estruturas semânticas complexas (coincidente algumas vezes com o parágrafo, mas não obrigatoriamente) que edificam o sentido de um texto.

Actos de composição textual
Planificação/anúncio
Avaliação/comentário
Clarificação
Reorganização/reorientação
Reformulação
Correcção/reajuste
Questionação
Relançamento
Condensação
Réplica
Retoma
Refutação
Justificação/explicação
Expansão/elaboração
Adição/repetição
Exemplificação/ilustração
 
Organizadores discursivos
Assim...
Deste modo...
No que a (x) diz respeito...
Daqui decorre que...
Não há dúvida de que...
Acresce que...
Soma-se a esta situação...
A somar-se a esta situação está...
Consequentemente...
Inversamente...
Simplesmente...
Justamente...
Vemos então que...
Devemos notar que...
Fica claro que...
Noto que...
Devo notar que...
É de sublinhar...
Sublinho que...
Não posso deixar de referir...
Em boa verdade...
Consideremos que...
Para além disso...
Ora...
Em contrapartida...
De facto...
Na realidade...
Em oposição...
Ao contrário...
Da conjunção destes factores resulta que...
Daqui decorre que...
É certo que x mas também não é menos...
verdade que…...
Enquanto que...
Em contrapartida...
Em todo o caso...
Em virtude de...
Um outro facto/ tipo/ element/, causa...
Como referi acima...
Por outras palavras...
Dito de outro modo...
Tal equivale a dizer que...
Se virmos bem...
Afinal...
É fundamental perceber...
Enquanto isso...
Daí que...
A verdade é que...

Exercício

1. Dos excertos abaixo transcritos, foram retirados os conectores e organizadores discursivos. Explicite, sempre que considerar necessário, o tipo de relação específica entre estruturas semânticas que em cada fragmento se constroem, introduzindo os conectores e organizadores discursivos que ache convenientes.

I

"Alguns biógrafos afirmam que ele [Schumann] enlouqueceu devido a um acidente fatal que lhe estropiou irremediavelmente um dedo, impedindo-o de prosseguir uma carreira pianística para a qual sempre revelara brilhantes aptidões...

O seu desequilíbrio psíquico vinha de família e já foi num acto algo próximo da demência que Schumann se obstinou em fazer experiências anatómicas comos dedos, tentando obter uma total independência de movimentos de cada um deles em relação aos outros através de um esquisito sistema que metia cordéis presos no tecto e outras maluqueiras altamente perigosas...

A tendência inata para o desregramento nervoso que até o fazia sofrer ante a ideia de poder um dia cometer um crime, levado por qualquer estado de incontrolável alucinação, não se manifestava na sua produção musical, onde os elementos neuróticos se encontravam perfeitamente dominados por uma técnica seguríssima e por uma inteligência aguda e sempre alimentada por uma vasta cultura geral.

Schumann teve como mestre o seu futuro sogro, Fiedrich Wieck, pai da grande pianista e brilhante compositora que foi Clara Wieck.

O prestigiado pedagogo, tão irascível como competente, também não contribuiu, durante muitos anos, para a estabilidade psíquica do aluno, opondo as mais odiosas resistências ao seu casamento com Clara. Wieck já tinha detectado os sintomas alarmantes no juízo do genial aluno, o que justificaria a sua relutância em lhe dar a filha em casamento...

Schumann terá desenvolvido com Wieck a sua assinalável veia de investigador do fenómeno musical, tanto em termos históricos como técnicos. Conhecia e admirava grandes mestres da polifonia do século XV que a maioria dos melómanos do século XIX praticamente ignorava, sendo dos primeiros — e talvez raros... — compositores a estudar em profundidade as reacções mecânicas do piano e a orientar as próprias harmonias de acordo com uma atenta auscultação das vibrações da corda.

Schumann deu um contributo essencial ao desenvolvimento da técnica e da estética pianísticas, reflectido em obras mestras da música de sempre, nomeadamente na extraordinária Fantasia op.17 — um grito de desesperado romantismo, escrito num momento particularmente tenso e dramático da vida do compositor, em que o feroz (e porventura também assustado...) Wieck obrigara Clara a devolver ao namorado todas as cartas que este lhe enviara...

A Fantasia op.17 reflecte uma abordagem absolutamente vanguardista da música para piano, jogando com efeitos altamente sofisticados de ressonância harmónica através de uma sábia utilização dos pedais do instrumento, além das passagens de incrível — mas concretizável — virtuosismo que dominam algumas dessas páginas apaixonantes (...)"


D'ALMEIDA, António Victorino 2003 - Músicas da Minha Vida, Dom Quixote (adaptado)

 
II

"O RJ é uma cidade bonita, com uma orla marítima muito singular. É uma topografia de colinas e morros que lhe dão uma configuração única. A plenitude solar dos sítios assim invadidos de trópico não deixa lugar à sombra. Não existe terreno fértil para as sombras do medo. Quando passeamos no calçadão de Copacabana ou de Ipanema não obtemos qualquer sinal confirmatório do rumor insecurizante que ecoa no discurso colectivo: não vemos assaltantes. Mas isso em lado nenhum: surgem do nada num semáforo, numa soleira. Mas também não vemos indivíduos com ar de favelados, nem pivetes, nem ruas desertas pelo medo, nem botecos manhosos. Na zona Sul, balnear por excelência, estão o turismo e o carioca das classes mais altas.

Neste estrato encontraríamos, sem ter de procurar muito, um outro predador. Bem distinto do agressor de rua, muito mais resguardado e selecto do que o pequeno delinquente que saltita de semáforo em semáforo à espera do carro incauto. Contribui muito mais activamente para o bolo final no que toca à delapidação do património. Este pedrador de alto calibre exibe-se mais do que se acoita, faz aparições mediáticas em vez de fugir. Controla grande negócios, põe as finanças a correr a seu favor, multiplica-se nos jogos de bastidores, nas negociatas entre os influentes, nos concluios e na corrupção. O seu espaço predatório é o dos cifrões, da propriedade de luxo, da ostentação de estilos de vida soltos, vigorosos e bronzeados. Miami está à distância de um avião particular."


FERNANDES, Luís 2001 - Pelo Rio Abaixo, Ed, Notícias (adaptado)