"A linguagem poética não é um uso linguístico entre outros, mas linguagem simplesmente (sem adjectivos): é a realização de todas as possibilidades da linguagem como tal.
(...)
A poesia não é, como muitas vezes se diz, um «desvio» relativamente à linguagem «corrente» (entendido como o «normal» da linguagem); em rigor, é a linguagem «corrente» que representa um desvio face à totalidade da linguagem. Isto é válido também para outras modalidades do «uso linguístico» (por exemplo a linguagem científica): com efeito, estas modalidades são o resultado, em cada caso, de uma drástica redução funcional da linguagem como tal, coincidindo esta com a linguagem da poesia.
(...)
Como a linguagem, também a poesia ignora a distinção entre o verdadeiro e o falso e entre a existência e a inexistência: tanto a linguagem como a poesia são «anteriores» (prévios) a tais distinções. Por outro lado, a poesia, como a linguagem, é apreensão do universal no individual, objectivação dos conteúdos intuitivos da consciência. A linguagem absoluta é, portanto, poesia". (...)
COSERIU, Eugénio 1977
— El Hombre y su Lenguaje, Madird, Editorial Gredos: estudios de teoria y metodologia linguística. (tradução livre)
Eu fugi
Tu cavaste
Ele deu às canetas
Nós pirámo-nos
Vós destes o fora
Eles deram à sola.
VASCONCELOS, José Carlos
Construa estrofes similares recorrendo a outros verbos de base.
O'NEILL, Alexandre 1972 — Entre a Cortina e a Vidraça
Componha um texto "adjectival" para uma destas entidades:
— Portugal
— família
— futebol
A coisa pouco concreta, acrescenta-lhe etecétera.
A mulher e a sardinha, tanto faz grande, como pequenina.
Ao mesmo tempo não pode ser, trabalhar e enriquecer.
Devagar se vai ao longe também, mas já não se encontra ninguém.
Em terra de cegos quem tem olho é naturalmente zarolho.
Quem muito sofre dos calos, não se mete onde possam pisá-los.
Se a coisa é para não avançar, faz-se um inquérito parlamentar.
Se chove no Verão e faz sol no Inverno, a culpa é do governo.
Se sabes como se pede o subsídio comunitário, jé tens espírito de empresário.
LOURENÇO, Tomás — Provérbios Pós-Modernos, Âncora Ediora.
Invente os seus próprios provérbios "pós-modernos".