Faculdade de Letras
Universidade do Porto
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Língua Portuguesa Escrita

A ACTA

A acta é um relato oficial de decisões tomadas em assembleias, reuniões ou conselhos. O documento é elaborado pelo secretário que, no decurso da reunião, vai tomando apontamentos com vista à elaboração de um texto prévio. Este texto, depois de aprovado pela Assembleia Geral, no final da reunião, é que corresponde à acta propriamente dita.

Regras de redacção:

 


Acta Primeira

 

Aos dez dias, já passados

De Novembro, Delegados

De Turma reuniram,

Conforme convocativa

Feita pela directiva.

 

E assim, à hora marcada

Não estava a casa passada

Porque quatro dos presentes

Continuavam ausentes.

Se falta se não marcou,

Foi porque bem se aceitou

Sua justificação,

De que segue gravação:

"Não nos façam confusão

Esperem aí que já vamos

Não vão pensar, isso não,

Não pensem que não estamos.

À mesma hora marcadas

As duas reuniões

É coisa que tem os seus senões...

Mas pode ser aceite de verdade

Por quem tem o dom da ubiquidade."

 

E o acto começou

à hora que se marcou.

 

O Gonçalves discursou

(De improviso, já se vê)

E a todos ensinou

O papel donde lê.

 

Mas se há faltas já dadas

E se há faltas por dar

E se podem dar faltas

E se não pode faltar,

Se uns docentes marcam faltas

E outros faltas não marcam,

Vê-se que há muitas faltas

E que há faltas de faltas.

Mas nada fica a faltar

Se o faltoso mandar

Uma justificação.

 

E da conversa estudada

Sai uma bola chutada

P'ra que seja o Delegado

A ralhar aos professores.

Mas muito bem colocado,

O Cardoso, calmamente,

recolhe o passe e na frente

Dos colegas doutores

Devolve à direcção

O poder que só ela

Tem na mão.

(...)

E atingido o ponto alto

Da nossa reunião,

Pejado já o céu

De estrelas cintilantes,

Procedeu-se, então sim, à votação

E fui eu a urna dos votantes,

Pois já tinha aceitado

Que o Victor, muito excitado

E democraticamente

Me fizesse o 4º secretário, num repente.

 

E o Victor escrevinhou

No quadro o que se passou

E na acta se regista:

(...)

 

E p'ra jamais se saber

O mais que ali se passou

Vai o 4º secretário

Ler a acta que lavrou.

 

Pois bem senhor Delegado

Dê a sua aprovação.

Ponha a assinatura ao lado

Na acta que tem na mão.

 

O 4º secretário:___________

Os Delegados:____________

 

José Alcântara

 

 

O RELATÓRIO

O relatório é uma narração de factos visando a orientação de um superior hierárquico na tomada de decisões. Nele estão contidas informações relevantes que permitirão a análise e o julgamento de uma dada situação. A sua redacção deve se imparcial, estando o seu conteúdo baseado na verificação pessoal ou em fontes fidedignas. À cabeça do relato figuram as razões que determinaram a sua elaboração. O texto termina com a análise do assunto e com propostas de soluções para o caso em estudo.

Técnicas de redacção:

 

A História do Hidroavião

 

Era uma vez um homem sentado diante de casa, a olhar para o rio. Casa é maneira de falar porque não se pode chamar casa a uma barraca de tábuas costuradas com arame e reforçadas de placas de cartão, com um pedaço de zinco a servir de telhado. Mas nessa parte da cidade, em Cabo Ruivo, ao pé dos fumos da Siderurgia, quem tinha chegado de África, como o homem, sem mais roupa que a do corpo e sem mais bagagem que um baralho de cartas, era dessa forma que se governava. O Boeing de Angola desembarcava em Lisboa as pessoas fugidas à guerra, e no dia seguinte lá andavam elas, truca truca, truca truca, a martelar cabanas num baldio de ervas frente aos vapores do Tejo, entre armazéns ao abandono e um hidroavião que era um esqueleto de morcego, com a pele de lona a desfazer-se debaixo da surpresa das gaivotas.

Barracas assim contavam-se para cima de três dúzias, umas mais perto outras mais longe da água, feitas com os desperdícios de uma obra (tijolos, pranchas, areia, ruínas de andaime) que não se completara sabe Deus porquê, deixando ferramentas oxidadas, buracos de cabouco e sacos de cimento, de que as pessoas se serviam para inventar moradias. Passeava-se por ali como num acampamento de pobres, numa aldeia de miséria: havia quem secasse camisas numa corda entre dois paus, quem soprasse o lume de uma panela de esmalte, agachado para um borralho de cinzas, havia cães arredios, medrosos de pedras, a farejarem canecos, havia crianças mulatas a brincarem com bocaditos de canas, havia a cidade que parecia um grande pulmão de chaminés e janelas a respirar nas costas do homem, e havia sobretudo o rio, que para aquelas bandas, a bem dizer, nem rio era: um pântano cinzento, horizontal até aos morros de Alcochete, ou do que, para viajantes de Angola, se calculava que fosse Alcochete, a brilhar, à noite, lantejoulas de leque sevilhano.

Ao homem sentado diante de casa tanto se lhe dava que se tratasse de Alcochete, Nova Iorque ou Paris: tinha um rectângulo de cortiça nos joelhos, para a paciência das cartas, e ao levantar os olhos do baralho, com a cabeça ainda em Luanda, não era o Tejo que via: era uma ilha de palmeiras, uma concha de arcadas com aves pernaltas nas empenas, e fragatas a gasóleo largando para a pesca, num rastro de motores e batucada.

O homem morou quarenta e sete anos em África, a trabalhar de motorista de camião ao serviço dos holandeses dos diamantes e custava-lhe habituar-se a uma terra de frio onde ninguém o conhecia, tirando os vizinhos de desgraça que dividiam com ele uma língua de lama e alforrecas, furtada aos desenfados do rio.
(...)

De forma que estava o homem diante de casa, às voltas com ases e manilhas, e sentado ao lado dele, num balde ao contrário, um cego de óculos de mica. Muito direito, atento com os ouvidos que é como os cegos vêem, a enrolar uma mortalha com deditos de croché, e mal os sons rareavam, sinal de que o homem hesitava a pensar, o cego perguntava logo, inquieto:

— Como é Lisboa, Artur?

E, ao fim de um silêncio comprido, o homem, a desfazer a paciência com a mão aberta e a olhar para Alcochete:

— Lisboa?

Guardava as cartas de má morte no bolso, e ficava-se, de pálpebra rancorosa, no hidroavião, à medida que pelas redondezas começava uma agitação de ralhos e de caldos em púcaros de folha, que era o jantar de quem viera de Angola, sem dinheiro para uma quarta de chouriço. O homem não comia: demorava-se crepúsculo adentro até o hodroavião desaparecer nas luzinhas de Alcochete ou de Paris, que para os nascidos em África, como era o caso, era igual ao litro, e o cego ao lado dele, também sem caldo, impassível nos óculos de mica, a puxar fósforos e a acender o cigarro na colher da mão. Já estava tudo escuro, só candeeiros a tremelicarem ao longe e um ventinho nas ervas, e o homem, de gola levantada por causa das traições da bronquite, a pensar que ele e o baralho se achavam em Portugal há três semanas no mínimo: do andar da Amadora que umas senhoras de fita ao pescoço lhe prometeram no aeroporto nem a sombra, e nisto o cego, curioso, a chupar o cigarro, numa voz que se confundia com os grilos:

— Como é Lisboa, Artur?
(...)

De ideias fixas o cego, pensou o homem cuja cabeça continuava no canto oposto do mar, agarrada ao musseque onde crescera, entretendo-se sozinho no quintal das traseiras, sob um braço de tília. De certo modo, embora estivesse em Cabo Ruivo permanecia em África, com a mãe e as irmãs mais velhas (o pai trabalhava há séculos no Congo e escrevia-lhes, no Natal, postais de Boas-Festas com selos esquisitos) e, por estranho que parecesse, o que recordava melhor não eram coisas de adulto, já homem, já motorista dos holandeses dos diamantes, a conduzir um camião para cá e para lá, de Malanje a Luanda e de Luanda a Malanje. (...)

Fixava-se no hidroavião a olhar as asas tombadas, os flutuadores, que pareciam pantufas gigantescas de caminhar sobre as marés do Tejo, as cadeiras sem passageiros, a hélice de moinho de poço, o lugar do piloto encostado ao volante, parecido com o dos camiões dos diamantes: só não havia a mascote da pretinha de tanga, pendurada de uma guita, a dar-a-dar no espelho. Isso, pensou o homem, não constituía problema: a questão era uma pessoa instalar-se ao guiador, que em chegando a Luanda encontraria, apesar da guerra que por lá faíscava, a destruir vivendas e jardins, uma capelista pronta a vender uma mascote nova, de modo que alcançaria Malanje com a boneca, toda contente, a dançar merengues no vidro. Quanto a colegas de viagem, que de Lisboa a Malanje é um esticão, convidava o cego que, como ele, não tinha caldo nem família, e de caminho dava uma volta sobre Cabo Ruivo e explicava-lhe a cidade: monumentos, estátuas, igrejas, o carrossel do oito, bairros de ricos, tudo. Largariam de manhã cedo, à hora a que os albatrozes se levantam das mimosas do lodo e o nevoeiro se esfuma em Alcochete, Nova Iorque ou Paris, mostrando paus de fio e telhados tremendo à flor da água, e o indiano do automóvel das Américas, incrédulo:

— Esse hidroavião não vale nada, coitado.

E realmente não parecia valer nada: em três semanas que o homem ali estava, sentado diante de casa com o baralho de cartas, o hidroavião quietinho, sem que um farrapo de lona se mexesse ao vento, sem que o leme da cauda desse sinal de abano, sem que qualquer luz se acendesse na carlinga. Resumindo: sem nenhuma vontade de voar. Um trambolho, decidiu o homem, uma coisa inútil, uma gaivota morta, e continuou a pensar isto à medida que se dirigia para ele, escoltado pelo cego dos óculos de mica, muito direito, muito seguro do caminho, a tricotar a erva com a bengalinha de metal. Sentou-o num lugar à janela, recomendou-lhe:

— Segura-te.

Ocupou o volante, experimentou os pedais, as alavancas e as manivelas perras, e voltou a cabeça para informar o outro:

— Aguenta um bocadinho que já te mostro Lisboa.

Anos depois, muitos anos depois de o homem e o cego terem levado sumiço, sabe-se lá para onde, o indiano continuava a jurar, a quem o queria ouvir, que o hidroavião não saiu do mesmo sítio, não se deslocou um milímetro, não se ergueu nem isto do pontão. E é neste ponto que as divergências começam: há quem garanta que os empregados da Câmara vieram com uma furgoneta e transportaram para a sucata aquele morcego sem préstimo. Mas há também quem afirme, pronto a jurar, que o hidroavião, com o homem e o cego dentro, correu um nadinha na água, subiu a pino, e partiu, sobre Lisboa, na direcção de Luanda, na direcção do mar. E acrescenta quem sabe que se via um braço, saído de uma janela, a mostar monumentos e igrejas a uns óculos de mica, e uma pretinha de tanga, muito alegre, suspensa de um cordel, a dar-a-dar no pára-brisas em acenos de adeus.

 

ANTUNES, António LoboA História do Hidroavião, Dom Quixote

Exercício:

Imagine que é um funcionário da Segurança Social com a tarefa de se deslocar a este bairro de Cabo Ruivo, no sentido de recolher todas as informações conducentes à elaboração de um relatório. Nesse relatório deverão figurar as condições em que se deu o desaparecimento dos dois indivíduos, assim como os resultados do apuramento das suas causas e ainda propostas de medidas a tomar para evitar ocorrências semelhantes.