O Lugar da DEIXIS na descrição da Língua

Ana Cristina Sousa Martins

Resumo

A presente exposição compõe-se de duas partes: a primeira parte, consiste na apresentação do enquadramento e relevância do estudo da deixis; na segunda parte, propus-me tratar um poema de Miguel Torga, "Imagem", enquanto "poema deíctico". Presidiram à selecção deste poema não propriamente aspectos relativos à quantificação de deícticos, mas sim as vastas possibilidades de análise que aí se oferecem no campo do estudo da deixis.

Parte I

1. DEIXIS: da mostração à referenciação.

Deve-se a introdução e divulgação do termo "deixis" no código metalinguístico português a Herculano de Carvalho (1967). Podemos hoje facilmente observar em algumas gramáticas escolares a expressão "função deíctica" invocada na apresentação do paradigma dos demonstrativos.

Sabemos, pois, que a raiz etimológica do vocábulo "deixis" remete para a noção de mostração, ostensão, indicação ou indigitação, sendo que da tradução do vocábulo grego para o latim resultou a generalização do termo " demonstrativo" na terminologia clássica. Porém, se é certo que, em termos restritos, o deíctico subsume um acto de mostração corporal num apontar verbal, a referida noção de função deíctica deverá albergar igualmente a vocação do deíctico para a referenciação de uma malha alargada de pessoas, objectos, factos, espaços, tempos, processos, actividades cuja significação só pode ser calculada a partir de uma indigitação primordial: a de um sujeito que ao designar-se por EU, aponta para si próprio num acto particular,discreto, único de produção discursiva.

Detenhamo-nos no seguinte texto:

(1) " — Credo! Donde vem esta água toda?

— Vem de lá de cima, não vês? Segura mas é aqui nisto e fica aqui à minha espera.

— Então despacha-te que já há um bocado que me está a dar a água pelos calcanhares."

Recorrendo à perífrase, podemos determinar, por exemplo, a referência de " vem" enquanto " direcção processada no sentido afastamento — aproximação do sujeito que fala. Por sua vez, o segmento discursivo " já há um bocado" pode ser referenciado como uma unidade de tempo anterior ao momento em que o "EU" fala. Estas considerações remetem-nos para a conclusão de que a rede de referenciação instituída pela deixis é determinada por uma marca egocêntrica. A mostração de um objecto deriva da mostração do sujeito que ao dizer "EU" remete para a própria enunciação e abre o mapa de todas as coordenadas enunciativas. Daí que a deixis pessoal possa ser apresentada como génese da deixis temporal, espacial ou circunstancial. Perspectivando assim o dispositivo deíctico, estamos a radicá-lo no facto histórico que é o acto de enunciação, focando a sua vertente auto- referencial. Benveniste , ao alertar para o carácter sui generis da categoria dos pronomes, evidencia que "De nada serve definir estes termos [hoje, ontem, amanhã, daqui a três dias, etc] e os demonstrativos em geral pela deixis, (...) se não acrescentarmos que a deixis é contemporânea da instância do discurso que tem o indicador de pessoa; é desta referência que o demostrativo tira o seu carácter sempre único e particular que é a unidade da instância do discurso à qual se refere" tendo antes observado que a realidade assumida pelos deícticos não é outra senão a própria realidade do discurso.

2. Pertinência do estudo da deixis.

Mais de noventa por cento das unidades frásicas de uma língua natural apresenta unidades lexicais de função deíctica (VIDAL, 1993:26). Estas organizam-se em paradigmas gramaticais fulcrais em qualquer abordagem linguística: os pronomes, os artigos, os advérbios, todas as variações do paradigma verbal, designadamente a de tempo, fórmulas de tratamento, determinados lexemas correspondentes a verbos de movimento.Esta constatação não funciona por si como móbil para o estudo da deixis, mas como consequência de factores a que a linguística contemporânea não pôde ficar alheia. Assim, a actualização do sistema da língua passa necessariamente pela activação destes marcos de referência enquadradas numa situação discursiva particular, da qual decorre a sua referência e funcionalidade. Estamos longe, pois, da perspectivação dos deícticos enquanto signos vazios, assumida pelos logicistas, mediante a qual aqueles não seriam portadores de uma significação transparente ou fixa. Deste modo, estes operadores referenciais constituem o elo inefável entre o uso efectivo da língua e o constructo idealizado que é a língua- sistema.

De notar ainda , e como resultado lógico das observações efectuadas até aqui, que os deícticos actualizam a referência das restantes unidades lexicais com que co-ocorrem num determinado acto enunciativo. Invoco o texto (1): o signo lexical "água" será focado numa componente semântica particular: "água barrenta da chuva", "água do frigorífico a descongelar", "água de uma canalização mal construída", etc. Verifica-se deste modo que, num enunciado discreto e pessoal, os itens lexicais de referência objectual são auxiliados na sua função denotativa pelos indicadores de ostensão reflexiva.

3. DEIXIS e Pragmática

Como já deixei antever, a opção metodológica pela determinação de uma barreira abissal entre a actividade linguística considerada nas múltiplas e infinitas ocorrências de um falante concreto e a língua enquanto sistema superindividual e idealizado, protagonizada pelos linguístas da geração pós-sausssuriana, cria condições fortemente inibidoras para o estudo da deixis, tomada enquanto sistema de elementos que apresentam como propriedade fundamental a referenciação de um objecto mediante a função que ele exerce na enunciação. E todavia o paradigma deíctico é indubitavelmente um aspecto formal presente em todas as línguas naturais e que, como tal, não pode estar ausente da caracterização do sistema. Daí, então, a pertinência do comentário de Benveniste no sentido de que o Homem está incrustado na língua de tal maneira que a sua marca subjectiva emerge do sistema a cada passo (BENVENISTE, 1966:52). Torna-se fácil perceber que o enunciado incorpora o próprio retrato da enunciação. Vem neste sentido a observação de Ducrot: " Interpreter un énoncé c'est y lire une description de son énonciation. Autrement dit, le sens d'un énoncé est une certaine image de son énonciation."(DUCROT, 1980:75) ; ou ainda: "les allusions qu'un énoncé fait à l'énonciation, allusions qui font parie du sens même de cet énoncé." (DUCROT, 1995:23). Lyons, por sua vez, apela para a impossibilidade de desenraízar a referência dos deícticos das "particular utterance—tokens" (LYONS,1977:102) , esboçando uma situação comunicativa convencional cujas condições seriam: presença de um EU face a um TU (singular ou plural), relação de copresença entre os intervenientes; concorrência de elementos paralinguísticos; e a necessária alternância de papéis locutor — alocutário.

Ora a análise das operações deícticas de referência desemboca no estudo da linguagem em contexto e consequente consideração das dimensões congnitivas, psicológicas, sociais e culturais que envolvem a acção discursiva interactiva: ou seja, na pragmática. Se falar é agir, o locutor-alocutário tem que saber dominar as condições de enunciação: ele gere implícitos, pressuposições, alusões. O sistema não é nem pode ser imanente. Ele está aberto aos influxos do contexto enunciativo na produção discursiva efectiva. A pragmática afirma-se assim enquanto estudo da imagem ou retrato da enunciação no enunciado; ou, se quisermos, a pragmática aborda a relação do exercício discursivo com as suas circunstâncias de produção. É necessário, pois, ter em conta uma evidência: ao constructo presidiu o uso, isto é, a língua vive numa comunidade linguística concreta e não no sistema linguística abstracto.

4. O dialogismo na linguagem

Tive oportunidade , em parágrafos anteriores, de destacar um ponto de partida essencial para a abordagem pragmática da deixis: num acto particular de produção discuriva, o locutor apodera-se da toda a língua ao designar-se por "EU", sendo que esta possibilidade lhe é oferecida pela própria estrutura formal da língua. Daqui resulta que os indicadores da deixis girem em torno de um marco de referência que é o sujeito. A enunciação instala assim a subjectividade no discurso. Subjectividade esta que já se encontra prefigurada no sistema.

O que é então a subjectividade? A subjectividade assume-se neste contexto como pertencendo à terminologia linguística e portanto de significação restrita. Não se trata sequer da perspectivação da dimensão psicologista ou psicanalítica do exercício linguístico. Benveniste alerta naturalmente para este facto. A subjectividade corresponde sim à capacidade de o alocutário ao dizer "EU" se posicionar como sujeito remetendo para si mesmo e instituindo a própria existência da linguagem; reciprocamente, o indivíduo constitui-se através da sua potencialidade de linguagem.

A subjectividade é a instituição do sujeito falante enquanto actante enunciativo. O laço inalienável sujeito-linguagem é ubíquo, visto que todos os enunciados são marcados subjectivamente. O sujeito dispersa as suas marcas mediante mecanismos vários: os pronomes e o dispositivo deíctico, naturalmente, mas também as expressões afectivas, valorativas, apologistas, modalizadoras,interpretativas, etc. Benveniste comprova ainda a omnipresença da subjectividade na linguagem com o recurso à análise de determinados actos ilocutórios de alcance significativo diferente, mediante a alternância da pessoa verbal, e consequente variabilidade no grau de subjectividade.

Porém, para o referido autor, o conceito de subjectividade alarga-se a uma tríade fundamental: a linguagem, o "EU" e o "TU". É que o "EU" não pode ser concebido a não ser por contraste com o "TU". O sujeito falante eleva o outro à condição de existência no processo de comunicação. "EU—TU" é um só ente criado pela reciprocidade de dois elementos numa realidade dialéctica, interactiva que é o processo de comunicação. Parece-me importante destacar que a consideração essencial do exercício linguístico situada na polaridade entre dois sujeitos, corresponde a uma complexificação da noção de subjectividade que o próprio Benveniste protagonizou. O conceito de subjectividade parece incorporar o conceito de intersubjectividade.

É muito curioso determo-nos a este propósito nas páginas do filósofo alemão Martin Buber (1970) , segundo o qual "EU-TU" é uma palavra básica dupla com a qual, entre outras, o Homem baliza o mundo. Tal palavra institui a sua própria referência ao ser pronunciada. Quando eu pronuncio "EU", o outro elemento da palavra par —"TU"— é também dito imediatamente. Assim: "The basic word I-YOU can only be spoken with one's whole being. (...)Being I and saying I are the same. Saying I and saying one of the two basic words [ I-YOU, I-IT] are the same."(BUBER, 1970:96). Buber, sem nomear nunca o processo de produção discursiva , toca no âmago da própria noção de enunciação enquanto exercício linguístico concebido em situação dialógica.A obtenção de Eu é o resultado do processo de dizer — e ser — através da interlocução.

Uma outra perspectiva da dimensão intersubjectiva da liguagem nos dá Bakhtine (1977). Considerando a enunciação enquanto "le produit de l'interaction de deux individus socialement organisés" dá lugar ao auditório social em detrimento do falante-ouvinte ideal estipulado pela gramática estruturalista.A própria essência dos signos apresenta para o teórico duas faces: uma dirigida do locutor e uma outra orientada para o alocutário. Infere, então, que é através da palavra que o sujeito falante se define face ao outro, um outro de contornos colectivos, sendo que o ponto nevrálgico da enunciação, concebida enquanto comunicação, situa-se no colectivo que envolve o sujeito. Bakhtine chega até a alargar esta vocação dialógica da liguagem a todo o tipo de troca verbal, independentemente de ela radicar ou não numa situação canónica de comunicação.

Seria tentador, no entanto, ao afirmar que o sujeito se assume como marca de referência egocêntrica, focar a actividade linguística exercida apenas por aquele que fala no momento em que fala. Tal postura, vimos, é naturalmente inexacta: em primeiro lugar porque o exercício linguístico passa igualmente por aquele que ouve; em segundo lugar porque sabemos que a produção discursiva não se processa por actos isolados, mas sim através de um percurso sequencializado de dimensão lógico-argumentativa. Se considerarmos ainda o texto (1), podemos constatar que na determinação da referência dos indicadores de deixis, como " vem", "nisto", " já há um bocado" entra em linha de conta um marco egocêntrico dual, em cujo cerne se processa a alternância de papéis entre locutor e alocutário. Deste modo, qualquer acto discursivo é sempre co-produzido, não só simplesmente porque um acto se sucede continuamente a outro acto num enquadramente dialógico, mas também porque nas operações discursivas sequenciais entra em linha de conta a imagem que o locutar faz do alocutário, o que desencadeia constantes reformulações dos actos do discurso.

É ponto assente que o papel de locutor é transferido de um participante a outro num continuum conversacional. Lyons recorre a este tópico da atribuição de papéis a desempenhar pelos participantes para a explicitação da categoria gramatical de pessoa. O linguista evidencia a própria raiz etimológica de termo "persona", tradução do grego para o latim, que tinha por significado o conceito de " máscara", isto é, de personagem dramática. Lyons estabelece, então, um paralelo entre o facto enunciativo e o drama através de uma secante: a actuação. Constata que a terceira pessoa não assume qualquer papel discursivo. Deste modo, corrobora o que Benveniste já havia afirmado acerca do "ELE" enquanto não-pessoa, isto é, enquanto pessoa definida negativamente em relação à primeira e segunda pessoas, porque elemento exterior à situação discursiva, de significação objectual, portanto. Mais uma vez, esta conclusão é facilmente atestável se pensarmos nas profundas alterações ao nível de força ilocutória e modalidade aquando da transposição de um enunciado de primeira pessoa para um outro correspondente de terceira pessoa.

Se a condição essencial do exercício linguístico é a polaridade entre duas pessoas, é fácil perceber que os interlocutores não partem de um vazio conceptual ou experiencial , por mais díspare e assimétrica que seja a sua posição interactiva. A co-actividade discursiva presentifica conhecimentos comuns aos dois participantes, tornando acessível um conhecimento compartilhado sensorial ou mentalmente. Se partilham conhecimentos, estes não têm de ser a todo o momento explicitados sob pena de saturação do discurso.Este rege-se pelo princípio da economia, do qual a estrutura da língua dá testemunho através do recurso ao processo anafórico. Será do uso anafórico e transposto do deíctico que darei conta no ponto que se segue.

5. Três modos de indicação espacial

Para partir para a apresentação da tipologia deíctica avançada por Bühler (1979), parece-me importante sedimentar desde já a noção básica de campo mostrativo, por oposição à noção de campo simbólico. No momento em que ocorre o acontecimento enunciativo, estão irradiadas as coordenadas que situam a esfera referencial em relação aos participantes, ao tempo e espaço actuais. Cada uma das coordenadas parece dizer "míreme a mi, fenómeno acústico, y tómame como señal del momento, una; como señal del lugar, la otra; como señal del emissor(...), la tercera."(BÜHLER, 1979:137) Está esboçado o sistema de coordenadas de orientação subjectiva. Está assinalado o campo mostrativo. Ao contrário dos deícticos, os signos conceptuais radicam a sua precisão significativa no campo simbólico, ou seja: os sinais linguísticos não- deícticos assumem a sua função representativa normal, ou função simbólica, segundo Bühler, alheia ao acontecimento verbal concreto. É lícito, pois, tomar o conceito de campo mostrativo enquanto conhecimento acessível, compartilhado pelos participantes na interacção verbal, conhecimento esse percepcionado quer pelos "olhos do corpo" quer pelos "olhos do espírito".

Passo à descrição das três modalidades de deixis. A primeira, a "demostratio ad oculos", corresponde à noção primária de deixis, fundada na própria noção de demonstrativo. É convocado um campo mostrativo concreto, ou, se quisermos, uma esfera de evidências acessíveis sensorialmente. Os objectos apontados estão presentes no contexto situacional no momento da ocorrência do acto discursivo. Convém lembrar, todavia, que esse contexto situacional não pre-existe ao acto verbal, antes é criado por este. O problema da produtividade referencial será retomado mais adiante.

O segundo tipo de mostração, ou o uso anafórico do deíctico, pode ser definido nos parâmetros utilizados no parágrafo anterior. O deíctico aponta para um campo mostrativo que é o texto, concebido enquanto espaço linear do enunciado. Aponta-se agora para um segmento de texto, resultado da acção intersubjectiva, que reaparece , ao ser apontado, por convocação da memória a curto prazo dos falantes. Buhler enfatiza o facto de se continuar a verificar uma mostração de lugares, dentro do espaço mostrativo que é o discurso. O factor espaço é particularmente destacável quando estamos face a um texto escrito. Assim: " Emissor y receptor tienen, pues, que tener presente ese todo [ discurso] de suerte que sea posible un recorrido, comparable al recorrido de la mirada por um objecto presente ópticamente." (BÜHLER, 1979:140) A mostração continua a processar-se in praesentia, se bem que damos conta de um desfasamento espacio-temporal entre o acto de indigitação verbal anafórico e a construção do objecto mostrado, i.e., determinado segmento textual imediatamente anterior. É que a anáfora pressupõe a linearidade da produção discursiva e é , ao mesmo tempo, um mecanismo de superação a essa mesma limitação da linguagem, a saber, o facto de uma palavra se seguir à outra, encadeadamente, num acto físico de produção discursiva. Vemos então que a expressão anafórica dirige a atenção do TU para uma determinada parte do texto e diz-lhe que vai encontrar aí a sua própria referência.

A deixis am phantasma é o terceiro tipo de mostração: um tipo de mostração — e de referenciação — sui generis. Consideremos os seguintes textos:

(2) Eu aqui, o fulano ali a gritar-me aos ouvidos. Ó rapazes, deu-me aquilo um nervoso que lhe parti logo a cara!

(3) Chegas a Viseu e estás a ver a estátua do Viriato, aí onde está a nova rotunda? Pois estacionas o carro do outro lado.

(4) Ora bem... ali atrás fica o aparador, depois...o sofá pode mesmo ficar aqui e assim a Vénus de Milo já tem espaço além no canto.

Estamos face a três enunciados que apresentam uma particularidade: se assumem um marco de referência egocêntrico, o certo é que esse marco está desfasado da situação da enunciação actual, efectiva. O locutor, segundo uma estratégia de orientação harmónica, propõe ao alocutário já não a radicação na evidência real compartilhada, mas precisamente a alienação desta e a incursão dos dois numa evidência mental, num espaço imaginário ao qual o alocutário tenha possibilidade de aceder, designadamente através da activação da memória a longo prazo. Bühler destacou e classificou esta modalidade de mostração como deixis am phantasma, o que não causará estranheza , se tivermos presente o significado primeiro de "fantasma" enquanto imagem ou espaço imaginário formulada pela mente, não percepcionada pelos sentidos. Percebemos igualmente a designação de deixis fictiva, porque concebemos" fictivo" não como efabulação ad libitum, mas simplesmente enquanto representação cognitiva de um espaço ausente.

É interessante observar os bastidores do pensamento de Bühler, que assume explicitamente a perspectiva de psicólogo ao proceder à derivação lógica do conceito de anáfora para o de deixis am phantasma:" Si el psicólogo tropieza con cualesquiera funciones en el campo de la llamada retención inmediata, busca luego funciones análogas en el campo de retención no ya inmediata, sino mediata, es decir, en el campo de los recuerdos maduros y de la fantasia constructiva." (BÜHLER, 1975:152. Bühler parte da constatação de que o locutor e o alocutário chegam a um campo mostrativo ausente (recordável ou configurado pela fantasia), sendo que o locutor usa os mesmos deícticos como se os objectos que aí se encontram pudessem ser percepcionados ocularmente. Então, os interlocutores fazem de conta que os objectos que de facto lhes são apresentados aos olhos do espírito, são objectos apresentados aos olhos corporais, como habitualmente. Estamos em face de uma transposição mimética das coordenadas enunciativas.

No texto (2), o locutor estabelece desde logo o cenário imaginário onde a acção se desenrolou. Depois, os interlocutores são de comum acordo transportados para um mundo sem ancoragem na situação real: o mundo da recordação ou o mundo possível.

Transposição: palavra essencial, pois. Em primeiro lugar, porque diz respeito ao próprio processo de entrada num espaço ausente, conceptual: o locutor transpõe-se para aí e leva consigo a sua imagem táctil, corporal, presente; invoca a imagem táctil, corporal, presente do interlocutor, arrastando todo o sistema de coordenadas enunciativas que se prestam a nova ancoragem. Por outro lado, o termo evidencia a dimensão espacial que percorre todas as operações deícticas na teoria buhleriana.

A constatação deste estado de coisas, para além de completar o estudo do funcionamento global dos deícticos enquanto indicadores e construtores de referência abre horizontes à linguística que não pode alhear-se da abordagem do discurso fictivo. Os três exemplos de mostração am phantasma acima apresentados são do tipo mais elementar. Porém as potencialidades de aplicação desta vertente de mostração ao estudo do texto literário são preciosas.

Não podemos, pois, dissociar as modalidades de indicação das modalidades de referência. Esta observação assenta no pressuposto de que o acto discursivo corresponde a um processo construtivo de configuração da realidade, já que " a realidade não se oferece à significação como um "mundo" já pronto, que está à espera de ser traduzido em linguagem; apresenta-se entes como dado a ser construído pela linguagem na interacção comunicativa." (FONSECA; F. I. 1992:138. É uma premissa fundamental a consideração de que quer o discurso, quer o contexto, sendo construídos a partir da interacção verbal, apresentam-se como interdependentes. Para além de os deícticos em geral estabelecerem laços de interdependência entre a linguagem e o contexto, o deíctico am phantasma intensifica a relação entre esses dois elementos. Vejamos: se é possível mostrar e elevar à existência objectos presentes, o mesmo fenómeno ocorre em pleno para objectos ausentes, a partir de um marco de referência fictivo. O campo mostrativo am phantasma não pre-existe à produção discursiva, mas é configurado aquando do acto de transposição para o espaço fictivo que essa produção discursiva proporciona. Eis o infinito poder referencial da liguagem.

O discurso fictivo, recorrendo a processos miméticos de mostração e de referenciação, corporiza-se enquanto mundo alternativo infinitamente actualizável: um "Reino Maravilhoso".

Parte II

"Imagem" de Miguel Torga: transposição para um "Reino Maravilhoso".

Somos chegados a um ponto, na evolução do estudo da deixis (não necessariamente diacrónica) em que teremos de reconhecer o desmoronamento das fronteiras entre os diversos usos da linguagem.

O uso poético da linguagem é sem dúvida o que apresenta uma amplitude vastíssima de actualizações possíveis. Por outro lado, concebido enquanto actividade intersubjectiva, o acto poético eleva uma imagem verbal individual a uma superfície cognitiva universal. O acto enunciativo de um poema é eternamente repetível, sempre actualizável mediante as infindáveis instâncias de recepção. Daí que o " agora" poético, único e irrepetível, deambule por tempos e mundos possíveis.

É comum vermos definido o conceito de poesia enquanto "libertação pela palavra", sem que os veios significativos desta definição sejam suficientemente explorados. A poesia é libertação pois projecta o Homem noutro mundo que não o actual onde ele se encontra ferreamente ancorado pelas coordenadas da sua situação perceptiva concreta. Contraditoriamente é esse "bem inalienável" (eu, aqui, agora) que possibilita a sua própria transposição mimética para um mundo ausente.

Transportemo-nos:

IMAGEM

Este é o poema de uma macieira
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.

Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a vigindade se desfez
Neste lirismo fecundado.

São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

Miguel Torga, Diário I

Este é o poema de uma beleza despojada e sincera. É igualmente um poema que se presta à focagem de aspectos muito pertinentes quando articulamos o estudo da deixis com o estudo da poesia. O discurso poético aponta, em primeiro lugar, para si próprio, configurando uma evidência concreta ,pragmaticamente considerada,que é o poema: três quadras, versos de métrica variável, de rima interpolada e cruzada (evito prosseguir a descrição). A partir da constatação desta evidência, temos emoldurado um estudo analítico deste texto enquanto poema deíctico: é que ele parece representar o " cúmulo" da sui-referencialidade.

O contexto desta primeira mostração é sensorial e cognitivamente perceptível. Vemos já que a referida mostração activa simultaneamente um campo concreto e um campo textual. O sujeito poético radica as coordenadas enunciativas numa origo actual: "EU-poeta- dirijo-me a um TU-leitor e apresento-te o meu poema que tu podes capturar com os olhos do corpo." Aquele aponta pois para uma evidência real:"... o poema..." Imediatamente a seguir — e só numa posição posterior devido à limitação psicofísica imposta pela linearidade da linguagem — o sujeito poético evidencia o campo mostrativo "in absentia" configurado pelo próprio discurso poético: "...de uma macieira ."

Mas a simultameidade entre o dizer e o ser triunfa sobre qualquer limitação. A reprodução mimética da origo e das coordenadas enunciativas é operada de um modo explícito e por isso surpreeendente: "Quem quiser lê-lo / quem quiser vê-lo...". Apontar para o texto é apontar para a referência por um processo mágico de transposição. A orientação harmónica face a um espaço imaginário é classificado na alternância dos verbos LER e VER. O paralelismo estrutural evidencia a gradação do processo de fusão discurso — universo criado. LER corresponde à actividade cognitiva mediante a qual o leitor é transferido para um campo fictivo. Sabemos que essa translacção e consequentes operações mostrativas só podem ocorrer mediante recursos linguísticos. E, no entanto, a selecção de "olhá-lo", seguido do deíctico espacial, subverte todo o processo de transposição descrito: o leitor recorre, ou melhor, finge recorrer aos olhos do corpo e finge ser guiado num campo perceptivo concreto: "EU e TU, aqui, nesta tarde de primavera, olhamos uma macieira que floriu assim." O sujeito poético expõe "à boca de texto" a incursão do leitor neste mundo presente — ausente, quando afavelmente lhe propõe tão bonita contemplação: "Venha olhá-lo daqui atarde inteira." Este acto ilocutório —o convite— para além de cumprir com a função cognitiva, simultaneamente transmite uma avaliação do mundo: a existência humana coroada do que de mais simples, natural e belo a Terra nos dá (" Mas em redor / Não há coisa mais pura / Nem promessa maior.").Mas o sujeito poético é um mau guia: não parece haver da sua parte a dádiva ao leitor de um mundo novo. A situação fictiva é apresentada enquanto plenamente compartilhada pelos "interactantes poéticos". Tal facto é evidenciado particularmente pelo emprego do deíctico circunstancial "assim", para além de todo o dispositivo deíctico aí actualizado. Há um conjunto de implícitos que é activado em:"daqui"; "a tarde"; "assim"; "Neste lirismo". Neste sentido, o acto poético é bem uma co-produção discursiva: eu, leitora, compartilho com a voz enunciadora os implícitos orientados pelas minhas crenças, experiências, expectativas, sensibilidade e sabedoria. De notar que somos confrontados com um único verso aparentemente descritivo (" São dois braços abertos de brancura"), mas de facto passa por ser uma constatação de uma evidência: fictiva ou concreta? Presente ou ausente? Diria que o contexto referencial criado pelo discurso poético deixa de estar ausente porque se funde com o contexto referencial presente que é o poema; ou, se quisermos, o discurso poético é de tal maneira eficaz que se cola à realidade.

A leitura é um momento de comunhão de mundos compartilhados. Por sua vez, essa comunhão repetir-se-á infinitamente; sempre diferente e sempre activada pelo mesmo mistério: Uma macieira. (ou um poema?)

É inegável que o contexto referencial é criado no e pelo texto. Parece que nos encontramos a nível de uma referência exógena. Vemos emergir da folha de papel a própria macieira. O poder referencial da linguagem é explorado ao máximo. Tal é a eficácia da linguagem na sua função cognitiva. Mas mais surpreendente é verificar que a fusão discurso-referência é bidirecional: a própria referência configurada é dotada de tamanha beleza que dela emana poesia. "Neste lirismo fecundado." Como se a poesia patente na realidade já fosse anterior ao dizer poético.

Depois de diversificados e múltiplos passeios possíveis por este pequenino poema; depois de muitas posições, perspectivas para bem apreciar a candura desta macieira, o título impõe-se à nossa leitura. Podia afirmar ,a este propósito, que o contexto referencial é criado no e pelo texto. Mas não diria tudo. É que o contexto referencial é o texto; o texto e a coisa criada são um tecido inconsútil. A "mostração linguística fictiva permite-nos surpreender, na sua génese, o processo de projecção do texto para fora de si mesmo sobre a forma de mundo" (FONSECA, 1992:151). Este poema é um corolário desse estado de coisas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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(1929) 1977 - Le Marxisme et la Philosophie du Langage, Paris, Les Éditions de Minuit.

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