Colóquio Internacional António Lobo Antunes

Universidade de Évora

14-16 Novembro 2002

Ana Cristina Sousa Martins


A Ordem Natural das Coisas:
transposição e atemporalidade

Introdução

Nesta exposição apresento duas linhas de estudo dos recursos enunciativos da língua aplicado ao romance A Ordem Natural das Coisas, que integraram o trabalho de investigação apresentado à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em 1998, como dissertação de Mestrado em Linguística Portuguesa:

1ª — operacionalização de um modo específico de referenciar mundos ausentes (Deixis Indicial Fictiva);

2ª — expressão da atemporalidade.

Esta formulação tópica não deixa perceber que as duas linhas não correm em paralelo, mas entrosadamente, no reconhecimento da funcionalidade cognitiva subjacente aos procedimentos evocativos e configurativos por que tomam forma os monólogos que se entrecruzam e desencontram ao longo do romance. É esse o ponto de alcance desta exposição.

1. Transposição

O acto fundamental do exercício linguístico é dizer "EU", é apontar para si próprio no momento e pelo facto de se dizer "EU", fazendo-se assim existir. E dizer "EU" é imediatamente chamar à cena de representação/expressão/ manifestação o "TU", apontando para ele no momento e pelo facto de se dizer "TU". Este acto radica inelutavelmente num tempo - que tem como ponto de orientação o instante em que alguém diz "EU" - e num espaço - o ponto da dimensão tridimensional de onde quem diz "EU"(dirigindo-se a um "TU") aponta para objectos, entidades e eventos, compartilhados num campo de evidenciação. Estão traçadas as coordenadas primordiais da enunciação.

Chamemos a quem diz "EU", locutor; e a quem ele se dirige, "alocutário". Ao conjunto de termos com a função de referenciação de uma malha alargada de pessoas, objectos, factos, espaços, tempos cuja singnificação só pode ser calculada a partir da indigitação primordial de um sujeito que ao designar-se por "EU" aponta para si próprio num acto particular de produção discursiva, designou Benveniste por "dispositivo formal da enunciação" (Benveniste, 1974), correspondente à deixis. A raiz etimológica do vocábulo "deixis" remete para a noção de mostração, ostensão, indicação ou indigitação. São deícticos os pronomes, o determinantes, a flexão verbal, os vocativos, os advérbios de lugar e de tempo, o advérbio de modo "ASSIM" e alguns lexemas verbais.

Se a condição essencial do exercício linguístico é a polaridade entre duas pessoas, é fácil perceber que os interlocutores não partem de um vazio conceptual ou experiencial. A co-actividade discursiva presentifica conhecimentos comuns, ou em vias de se tornarem comuns, aos dois participantes, tornando acessível um conjunto de conhecimentos remidos por evocação mental. Então, a enunciação pode radicar no tempo e no espaço em que o sujeito diz "EU", pelo recurso à deixis primária/deixis do plano de enunciação actual (o exemplo tipificado é: "Aqui estamos nós assim neste momento em face disto"); ou pode radicar num tempo e num espaço que não são os seus mas os de uma realidade já experimentada pelos interlocutores ou os de uma outra realidade que é instaurada à medida, e porque, é dita, através da activação da deixis secundária/ deixis do plano inactual ou ausente (o exemplo tipificado será: "Naquele tempo ele lá estava daquela maneira em face daquilo").

É do uso transposto do dispositivo deíctico que Bühler dá conta, aquando do apuramento dos três modos de indicação espacial: "demonstratio ad oculos", anáfora e deixis "am Phantasma".

Passo já a considerar o terceiro modo.

A enunciação "am Phantasma" patenteia um marco de referência desfasado da situação actual. O locutor propõe ao alocutário uma alienação relativamente à radicação na evidência real compartilhada e a incursão dos dois numa evidência mental, num espaço imaginário ao qual o alocutário tenha possibilidade de aceder, designadamente através da activação da memória a longo prazo ou pelo desencadear da engrenagem da fantasia. O termo "am Phantasma" não causará estranheza se tivermos presente o seu significado primeiro, ou seja, o de imagem ou espaço imaginário formulado pela mente, não percepcionada pelos sentidos.

Transposição: palavra essencial, pois. Em primeiro lugar porque diz respeito ao próprio processo de entrada num espaço ausente, conceptual: o locutor transpõe-se para aí e leva consigo a sua imagem táctil, corporal, presente; invoca a imagem táctil, corporal, presente do interlocutor, arrastando todo o sistema de coordenadas enunciativas que se prestam a nova ancoragem. Por outro lado, evidencia a dimensão espacial que percorre todas as operações deícticas da teoria bühleriana.

Bühler apura três casos de mostração "am Phantasma":

1ª "A montanha vai a Maomé" - o locutor e alocutário não se deslocam, esse movimento é levado a cabo pelo quadro de referência ausente que invade o espaço perceptivo presente; o marco de referência egocêntrico continua, pois, a radicar no plano actual;

2ª "Maomé vai à montanha" - o locutor transfere-se para um quadro representado ausente e é aí que o ponto de orientação e radicação enunciativa se encontra;

3ª "Maomé e a montanha ficam cada um em seu lugar": o locutor é capaz de apontar para o ausente sem nunca abandonar o seu marco primordial de referencia espacial.

O primeiro caso é activado em situações quotidianas específicas (previsão da disposição dos móveis numa sala vazia, ressonância de uma voz familiar no nosso íntimo, por exemplo ) e está acantonado à esfera das experiências avulsas, incapazes de assumirem, por si só, a constituição de uma unidade textual. O segundo e terceiro casos, pelo contrário, são capazes de accionar unidades discursivas/narrativas. Quer um, quer outro, pressupõem uma projecção de marcos de referência alternativos aos da enunciação original: no terceiro caso, os deícticos instrucionam essa transposição recorrendo ao subsistema deíctico secundário (de que fazem parte: "ele", "lá", "então", "daquela maneira", "era" e "aconteceu"), ao passo que no segundo caso o locutor usa os deícticos do sistema primário, como "eu", "tu" ,"aqui", "agora", "assim", "é" e "está a acontecer", para referenciar uma situação ausente. O que ocorre é o estabelecimento de novas coordenadas, referenciadas pelos mesmos deícticos que servem a referenciação no plano actual da enunciação original, só que totalmente desenraizadas e em ruptura com ela. É este segundo caso que me importa focar aqui.

Cada um dos subsistemas deícticos - subsistema primário ou actual e subsistema transposto, secundário, inactual -- gera, respectivamente, dois modos de enunciação/atitudes de elocução: uma produção discursiva que apresenta radicação imediata na enunciação e uma outra modalidade de enunciação em que a referenciação apenas pode ser calculada indirectamente em relação a essa radicação imediata de uma enunciação original - "discurso" e "história" em Benveniste; "comentário" e "narração" em Weinrich, respectivamente.

Se colocar a hipótese, como coloco, de que o recurso ao segundo caso de mostração "am Phnatasma", tal como o definiu Bühler e que designarei doravante por Deixis Indicial Fictiva , não constitui uma mera variante estilística ou simples artifício narrativo; se sustentar, como sustento, que ela acciona um regime enunciativo ostensivamente não narrativo, temos uma porta aberta para a análise do discurso do romance seleccionado.

Vejamos como.

1.1. Especificidade da deixis indicial fictiva

Alguma estranheza emana da descrição teórica que faço da Deixis Indicial Fictiva, o que passa pelo facto de ela comungar de características que solidamente delimitam e distinguem a deixis primária da deixis sedundária. Se, por um lado, é verdade que uma enunciação em Deixis Indicial Fictiva (i) carece da explicitação de predeterminações contextuais, (ii) enforma eventos desligados do acto enunciativo, porque são passados ou inventados, (iii) exclui a relação "EU"-"TU", de cariz accional, da dinâmica do funcionamento discursivo, tal como o modo de enunciação narrativo; também é verdade, por outro lado, que (iv) o locutor não está dissociado do teatro mundi que representa e assume uma atitude tensa de elocução, (v) a radicação enunciativa é móvel e multiplica-se inconsequentemente, tal como no modo enunciativo discurso/comentário. Uma característica-base privativa da deixis indicial fictiva (pelo menos) é esta: os morfemas verbais de Presente não exprimem o tempo presente a correr como uma flecha, transitório, partindo do indivíduo, balizado pelos intervalos temporais do futuro e do pretérito, como o Presente do modo enunciativo discurso/comentário; antes representam um instante suspenso na deriva temporal, cuja duração e vigência não é confrontada com nenhum constrangimento.

A estranheza da descrição teórica elimina-se quando entramos, como leitores ou participantes, na engrenagem do funcionamento discursivo de textos como o diário, o registo epistolar, a reportagem jornalística, alguns relatos de viagem, alguns registos conversacionais, os jogos infantis e, claro, nesse espaço de exploração de todos os recursos do sistema da língua que é o texto literário. Em todos estes géneros a deixis indicial fictiva potencia possibilidades configurativas em que as evocações se processam mediante a re-actualização, re-ocorrência simulada de contextos situacionais/situações discursivas ausentes, em que o locutor simula um mundo in praesentia. A deixis indicial fictiva substitui a impressão das coisas passadas por uma vivência actual - ou igual à actual - de tal modo que as coisas passadas passam a existir pelo discurso. Mas, ainda assim, é como se sempre tivessem existido, em concomitância com o plano actual. A sucessão/ordenação lógico-temporal e o mimetismo das relações de anterioridade, simultaneidade, posterioridade, entre pontos de referência e eventos, estão suspensos.

1.2. No discurso do romance

Tomemos, então, o discurso do romance A Ordem Natural das Coisas, entendido, num nível de expressão endógena, como o discurso composto pelas elocuções das dez personagens.

Aqui, o mundo apresentado ao leitor, composto de mundos fechados pertencentes aos locutores/personagens - falantes cujas palavras se suspendem, inconsequentes, no silêncio do seu isolamento - é caótico, amargo, desconcertante. Cada locutor, cujo discurso preenche capítulos inteiros alternadamente sequencializados, entrecruza, desordenadamente, a auto-evidenciação da sua realidade actual com a invocação de um passado que, distante ou não, se impõe e concorre com o presente. Cada personagem fala de si e do seu passado, elege um alocutário efectivo ou imaginado, a propósito de coisa nenhuma, sem qualquer móbil, diria, gratuitamente. As elocuções não surgem encabeçadas por nenhuma data ou local. Os locutores situam-se num "agora" de marcação móvel.

1.2.1. Presente do Indicativo

"(...) é Abril e estou a inclinar-me para ti na pastelaria onde te encontrei pela primeira vez, com duas colegas todas risinhos e cochichos, a mastigarem pastilhas elásticas diante de batidos de morango (...)"

(A Ordem Natural das Coisas, 1ª ed., p.21)

A instância discursiva referencia e cria, como se explicitasse, a coordenada temporal ("...é Abril") e, numa atitude de elocução eminentemente dramática, mostra-se a si próprio o gesto, enquanto "EU" textual, num instante que se sobrepõe ao presente da enunciação, fenómeno potenciado pelo recurso ao Presente "é", "estou". Este Presente, enquanto deíctico indicial fictivo (ao contrário do Presente da enunciação, este sim, oponível aos tempos do passado e do futuro) exprime uma duração não confrontada com nenhum constrangimento: o quadro é retido na memória em curso de ocorrência e, quando evocado, o sistema da língua enforma genuinamente esse desejo de evocação. Assim, este Presente, deíctico indicial fictivo, ignora a funções semântico-morfológicas do Presente, deíctico primário, e desempenha a função de presentificação fiel do ausente dotado de intemporalidade.

1.2.2. Infinitivo regido de preposição

"(...) e ei-la sozinha, quem diria, sem ter de dar ao útero na noite da Avenida, sozinha, pá, tranquila, sem apanhar bofetões, sem descomposturas, sem gritos, a beber o seu alcoolzinho de drogaria, a Lucília, o sonho deste teu criado, a pequena ideal, espojada nos meus lençóis a oferecer-me a garrafinha, e mais rolas no peitoril, e mais rolas nos algerozes, e mais rolas no quarto, rolas brancas, azuis, cinzentas, rolas diferentes das rolas da Praça da Alegria, rolas passeando-se no soalho, no tampo da única cadeira, da única mesa, rolas sobre o peito, sobre o rosto, sobre o sorriso, sobre as coxas da mulata, rolas a dar com um pau, amigo escritor, chamando-me para a almofada em que todas as auroras agonizo crucificado pela colite, rolas e a Lucília, rapaz, à minha espera, a fazer-me sinais com a garrafinha, a deitar-me a língua de fora, a desarrumar-me em caretas, a troçar-me com ternura, a Lucília, safa do preto, ao meu alcance, a conversar comigo, a desafiar-me, a descer-me o polegar até ao cinto, até à braguilha, a Lucília a descalçar-me, a desabotoar-me a camisa, a desapertar-me a fivela, a beijar-me, a puxar-me contra ela, a pedir-me.

Chega aqui Portas (...)"

(p.70)

Locutor (o ex-pide) e alocutário (o "amigo escritor") abandonam a esplanada em frente à Faculdade de Medicina e transitam, pela deixis indicial fictiva, para o quarto daquele. Este transporte é instrucionado pela indigitação verbal "ei-la": temos a partir daqui um quadro co-referenciado. Se o locutor é simultaneamente instância discursiva e objecto textual, o mesmo acontece com o alocutário cujo papel é manifestado pelos vocativos "pá", "rapaz", "amigo escritor". O locutor exige do seu alocutário a máxima atenção na observação da cena que ambos têm à frente. E é de facto de uma descrição que se trata: a sucessão/ordenação lógico-temporal, o mimetismo das relações de anterioridade, concomitância, posterioridade estão suspensos. Por esta via me parece lícito defender o significado temporal de Presente assumido por este Infinitivo antecedido de preposição, interpretável como perífrase abreviada do Presente Progressivo. Neste sentido, não saímos do registo potenciado pela deixis indicial fictiva. Assim: "[a Lucília está] a oferecer-me a garrafinha"; "[está] a deitar-me a língua de fora"; "[está] a desarrumar-me em caretas", etc. Esta forma verbal chama a si a expressão mais pura da referência temporal cumulativa. A sua recorrência obstinada em blocos textuais relativamente longos vem explorar ao máximo os recursos oferecidos pela língua na aventura de configurar e re-experienciar, pela palavra, vivências dessincronizadas.

"(...) eu na loja do meu pai
em Esposende
a arrumar fazendas, sem responder às perguntas da minha madrasta, a abanar as bochechas que sim, a abanar as bochechas que não, a ver desarmarem a lona e os bancos do cinema ambulante, a amontoarem-nos numa camioneta e a partirem, de manhã cedo para a Póvoa, eu a ver as latas dos filmes e a máquina de projectar, embrulhada em serapilheiras, eu a vê-lo a ele, de boné, ao lado do condutor, a sumir-se na pimeira esquina da vila (...)."

(p.109)

Neste segmento textual, o único indício de transposição deíctica é dado pelos complementos circunstanciais de lugar e só o entendemos como tal pelo conhecimento que temos do universo romanesco. De notar a opção pela frase nominal "eu na loja do meu pai" que, de modo equivalente, denota quer um estado que se distende no tempo (pela ausência de verbo conjugado), quer o instante, o ponto irredutível em que o espírito o percepcionou. Esta ambivalência afecta a interpretação dos enunciados que se lhe seguem.

O Infinitivo serve agora uma visão sequencial dos acontecimentos. Sequencial, mas não evolutiva, paradoxalmente. Através do conteúdo semântico dos verbos que compõem a descrição do quadro visualizado pelo locutor, é apurável uma ordenação linear - "a desarmarem" - "a amontoarem" - "a partirem" - "a sumir-se". No entanto, a forma progressiva, sendo aplicada à descrição de acções não presentes, faz com que elas sejam percepcionadas como infinitamente actualizáveis, concebidas na fase medial do seu percurso.

Ora este dinamismo prende-se com a ambiguidade de referenciação temporal que aqui o Infinitivo maximamente ostenta: "eu a ver (naquela altura)" - "eu a ver (agora, pelo facto de o estar a enunciar, na minha representação mental dos factos)".

Este Presente Perifrástico, de formação lacunar, entra também na representação de universos irreais e fantásticos:

"(...) e o meu pai, a criar raízes na toalha, a lançar ramos na direcção da lâmpada do tecto, a tombar pólen do cabelo, o meu pai a pedir que lhe abríssemos a janela por lhe fazer falta a brisazinha da tarde (...)";

(p.130)

na construção de uma realidade encarada como possível:

"(...) recomeçar a vida em Campo de Ourique, em Campolide, em Alvalade, na Portela, arrastando-me por cafés que não conheço, a jantar em cervejarias de que não sei o menu, a responder aos anúncios de casamento do jornal e a encontrar-me , com um cravo na mão, com senhoras tão solitárias como eu (...)";

(p.80)

na descrição de uma imagem material:

"(...) se tiver curiosidade mostro-lhe a Lucília a dar peixinhos às morsas e amendoins aos gorilas, mostro-lhe a Lucília e eu a estendermos uma moeda de dez escudos ao elefante, a Lucília e eu a lancharmos capilés na esplanada (...)";

(p.72)

ou na retenção no espírito de imagens mentais rememoradas:

" (...) veio-me à ideia um crepúsculo antigo, em cinquenta ou cinquenta e um, com os canteiros da jardim regados de fresco, o senhor Fernando, em camisola interior, a fazer ginástica à varanda, e um rebuliço de gatos no pátio da cozinha comigo empoleirado no muro a farejar as brisas de Monsanto (...)".

(p.12)

Em todo o caso, encontramos acções que se sustêm num instante, interrompidas no seu desenrolar, não evolutivas, em perpétuo desenvolvimento, focalizadas eternamente na sua fase medial. O tempo não marcha. O Infinitivo regido de preposição enforma seres e objectos considerados na sua simultaneidade e é afeito a representar quadros estáticos mediante a captação de uma continuidade inesgotável que redunda em inércia. Os processos são encarados como espectáculo e o curso do tempo suspende-se.

Este Presente Progressivo, a par do gerúndio e do particípio passado, que me ilibo aqui de focar, vem arquitectar uma construção do tempo vivido como concorrente do tempo vivo do acto de fala.

2. Atemporalidade

Vimos, há pouco, como as acções são captadas por dentro do limite infinitamente estreito entre o passado e o futuro, assimilando-se o momento descrito a um instante cristalizado, alheio a qualquer localização temporal, através da detecção do papel do morfema de Presente como deíctico indicial fictivo e do efeito de suspensão da sucessão eventiva potenciado pelo Infinitivo precedido de preposição. Com apenas estes dois aspectos é possível sustentar a conclusão de que a deixis indicial fictiva estala a temporalidade da nossa experiência vivencial, da ordem das coisas, abalroa a estrutura do próprio tempo gramatical e instaura um quadro geral de atemporalidade.

Atendamos agora ao modo como se efectua a retoma e sequencialização de microestruturas no discurso do romance.

2.1. As unidades microestruturais

As unidades microestruturais são segmentadas por cortes bruscos e inesperados no tema e no tempo, de dimensão irregular. A articulação anafórica é alheia a um esquema discursivo harmonioso e a detecção de isotopias é um processo sinuoso. A linearização de blocos textuais, regidos por um tópico subtemático autónomo, parace não obedecer a nenhum trajecto semântico ideológico pertinente. Porém, acima do carácter inconsútil de blocos de enunciados, de uma reconhecida conexidade pericliante, encontramos uma intenção comunicativo-expressiva global que, afinal, perpassa todas as elocuções e que chega a ser explicitada em alguns momentos:

"(...) a questão é que preciso tanto de um pretexto para poder chorar, para encostar a minha angústia ao pescoço dela e chorar (...)"

(p.35)

"(...) e eu, cansado de não ter ninguém a quem contar tudo isto, cansado do sol e ansioso por desabafar (...)"

(p.114)

A consistência de veios semântico-referenciais-ilocucionais, que todas as elocuções patenteiam, está acima da refracção caleidoscópica de evocações fragmentadas, reflexões e projectos discursivos entrecortados.

As múltiplas incursões no passado são de alcance variado e encontram-se reduzidas a breves sequências disseminadas ao longo do discurso.

2.1.1. Os articuladores

A recorrência a unidades morfemáticas responsáveis por uma conexidade linear de índole meramente aditiva é de uma evidência incontornável. A insistência obstinada na activação de um paradigma limitado de conjunções, partículas e expressões comparativas visa sublinhar uma ligação entre enunicados, à partida, temporal e semanticamente desordenados. Estas unidades locais assumem a função de índices instrucionais de alternância de planos temporais. Introduzem invocações breves, a todo o momento mutiladas por constantes retomas do presente de enunciação. Mais do que isso, elas naturalizam o deslize de uma para outra experiência temporal e denunciam assim a percepção da realidade efectuada pelos locutores, fundada na construção de uma temporalidade mais iterativa do que cursiva, a partir da atomicidade de quadros temporalmente dispersos, linearizável em função da ordenação de uma lógica de afectos. Destaco os exemplos mais recorrentes:

"(...) no dia seguinte estávamos nós numa sala com uma mesa em cima de um estrado e bancos corridos como no cinema desmontável em Esposende, onde o filme e o mar se confundiam (...)"

(p.105)

"(...) em acusações que não entendo hoje como não entendi nesse domingo (...)"

(p.157)

"(...) e eles nesta conversa e eu em Esposende, há trinta e seis anos (...)"

(p108)

Daqui resulta a instauração de um curso temporal contínuo, que apaga hiatos temporais, um deslize perfeito do plano actual para o plano inactual. Paralelos, "o que foi" e "o que é" estabelecem uma relação de contiguidade. A constante retoma do presente da enunciação é assim tida como um fenómeno natural: ao passado de há cinquenta anos segue-se o presente da enunciação como se os universos temporais ocorressem numa sucessão imediata, como se a ordem textual seguisse o curso cronológico natural.

2.1.2. Os lexemas verbais

Igualmente responsáveis pela marcação das operações de transposição de planos temporais são os lexemas verbais de cariz evocativo. Os verbos REGRESSAR, RECUAR, SURGIR assumem a função de marcadores transpositivos explícitos, ao fazerem dos locutores crononautas, e naturalizam a transição de universos temporalmente afastados:

"(...) regressando, Iolanda, à casa onde vivi antes de conhecer a família da minha mãe(...)"

(p.13)

"(...) regressei de imediato aos domingos de há vinte e cinco anos (...)"

(118)

"Tenho sono, repeti, vou dormir um bocadinho, não me despertem, e recuei anos e anos e a criada abria as persianas(...)"

(163)

"(...) a casa onde morei antes da família da minha mãe surge da noite (...)"

(p.12)

"(...) (e a infância surge diante de mim, indiferente à tua zanga, nessa manhã de Alcântara (...))"

(p.60)

2.1.3. Ausência de instruções de transposição

Mas, muitas vezes não temos qualquer instrução de transposição e então o que encontramos à superfície textual é a simples vírgula ou o ponto final, no limiar de enunciados díspares quanto à sua referência temporal. Nesta altura, o efeito de contiguidade entre experiências e quadros temporalmente descontínuos purifica-se:

"(...) e a minha madrinha, indiferente à tempestade, pegava nas agulhas de crochet e sonhava com americanas extravagantes, vestidas de sandálias e panamá como para uma expedição aos trópicos.
Um comboio abriu a noite perpendicular aos candeeiros da Avenida de Ceuta (...)"

(p.15)

O revezar contínuo entre planos temporais é servido pela mostração de vozes, latentes na memória do locutor, na modalidade de discurso directo, sem a introdução do verbo dicendi:

"(...) apenas o desejo de um papel mais importante na máquina do Estado, apesar de tudo estamos em mil novecentos e cinquenta, pá, temos ou não temos uma palavrinha neste País, meu brigadeiro? (...)"

(p.136)

"(...) e como na semana anterior um outro socialista com quem eu conversava há três dias, impedindo-o de dormir, se atirou por embirração da janela, desterrando-me para a Ericeira incumbido de espiar o albino sem lhe tocar com um dedo que mártires temos nós de sobra (...)"

(p34)

Sem indicador instrucional, em face da omissão de um marco alternativo de referência, os deícticos indiciais fictivos revestem-se de protagonismo já que potenciam a projecção de mundos atemporais nos quais gradativamente se inserem acontecimentos de uma irrealidade fantástica.

Mas esta atemporalidade é ainda intensificada pela configuração de planos temporais simultâneos. A transição do presente dialéctico, vivo, engendrado na instantânea e contínua mudança do que está para vir para o que já passou (o presente da enunciação) para os múltiplos presentes activados pela memória chegam, em alguns momentos, a fundir-se.

2.1.4. Sistema deíctico primário e sistema deíctico secundário co-activados

O fenómeno de actualização de experiências temporais simultâneas, gerada pela miscigenação de deícticos de referência temporal primária e de deícticos de referência temporal secundária encontra-se disperso por todos os monólogos:

"(...) e agora tínhamos vinte anos(...)"

(p.150)

"(...) e fui suficientemente imbecil para acreditar naquilo, acreditar no sorriso da esposa, acreditar na filha, e agora o soldado varava a escrivaninha do meu avô à coronhada."

(p.139)

2.1.5.Marcos de referência ambivalentes

É plausível considerar que estes monólogos interiores, localizados inicialmente num tempo passado, estejam novamente em curso no momento da enunciação.Nestes casos, é impossível apurar em que marco de referência está ancorado o enunciado:

"Devia ter desconfiado logo, devia ter comunicado aos camaradas (...)"

(p.138)

Posso interpretar: "foi o que pensei naquele momento"; "é o que estou a pensar agora".

2.1.6.Comentar os próprios efeitos discursivos

A intencionalidade comunicativa/expressiva que motiva a exploração dos recursos enunciativos descritos surge não raro explicitada pelo próprios locutores:

"Ao mesmo tempo na cantina de Joanesburgo, ainda jovem (...) e na Quinta do Jacinto enervado pela presença do rio (...)"

A possibilidade de o locutor instalar algures no tempo - ou algures fora do tempo - novo quadro de coordenadas, paralelas à origo enunciativa, através do recurso às mesmas unidades deícticas, surge comentada pela estrutura semântica do verbo AUSENTAR:

"(...) a questão é que preciso tanto de um pretexto para poder chorar, para encostar a minha angústia ao pescoço dela e chorar para me ausentar do Forte de Caxias, do ganir dos ferolhos e dos passos dos soldados do outro lado da porta, ausentar-me, amigo escritor, dos tanques da Revolução, das pessoas a esbofetarem-me (...)"

(p.35)

2.1.7. Verbos de significação sensitiva

As palavras cujo significado explora a noção de referência deíctica cumulativa, e que primordialmente, comenta o próprio fenómeno de mostração deíctica "am Phantasma", são os verbos se dignificação sensitiva:

"(...) e mesmo hoje oiço os sinos quando me lembro disto, mesmo hoje vejo a minha prima Afonsina, que não casou por a parirem corcunda, a tapar-me a cabeça com um véu (...)"

(p.127)

"(...) se farejo as minhas palmas sinto o perfume, se fecho os olhos o seu ombro amolece contra o meu (...)"

(p.143)

3. "Que livro uma história destas pode dar"? (p.55)

Ao avançarmos por entre os monólogos de cada capítulo, percebemos que os locutores não contam histórias, efectivamente, mas descrevem quadros, imagens avulsas. Nestas imagens encerram-se processos não transicionais, contínuos, assimiláveis a estados. A constelação dos recursos da língua referidos (entre outros que não cabem na dimensão desta exposição) é a trave mestra na configuração de quadros ficcionais que assumem valores de estatismo e inércia. O "efeito de irreal" conjuga-se então com o efeito de suspensão temporal. Ora, sob este efeito, as acções são captadas enquanto fenómenos infinitamente repetíveis ou repetidamente presentificados.

Apercebemo-nos, ao virar de cada página, da urgência imperiosa que têm estes indivíduos em falar gratuitamente, conversar com alguém sobre eventos pretéritos que se acumulam. A que propósito? Que intenções comunicativo-expressivas poderão visar discursos deste tipo?
O acto de referência - transposto ou não - é sempre uma operação cognitiva no seio da qual assume primeiro plano a conceptualização do "EU". A componente adjacente ao acto de auto-designação, na empresa levada a cabo pelo indivíduo de significar o mundo, é o Tempo. O presente é irredutível, o futuro é contingente; o passado está assegurado: é um legado fixo e inalterável. A assunção do indivíduo perante si mesmo e perante os outros passa pela produção discursiva de predicação no Pretérito.

O modo textual que tem como característica básica a sucessão temporal é, como sabemos, a narrativa. E é na essencialidade da intriga que encontramos uma alquimia fundamental: a transformação do casual, da heterogeneidade, do acidental em história, ou seja, num esquema de significação inteligível totalizante. A ocorrência singular transforma-se em episódio, é um elo na urdidura complexa onde agentes, objectivos, meios, circunstâncias e resultados se harmonizam num todo de significação. É fácil então perceber que da unificação e completude de uma história de vida depende a identidade do sujeito que a relata. Ele assume-se como indivíduo ontologicamente singularizável porque executa e sofre acções acabadas, dispostas no tempo de modo congruente.

Vemos que, no desfilar das dez elocuções constitutivas do romance, os locutores são impelidos, como que por uma espécie de patologia, a situarem-se em universos paralelos, na esperança de aí encontrarem uma conexão equilibrada entre os elementos constituintes da sua existência. É no passado que todos os locutores procuram recorrentemente o conforto de uma identidade. Mas o passado estende-se até ao presente, formando com este uma continuidade homogénea. O presente dilata-se em dois sentidos (futuro e passado) e é sempre igual.

E, no entanto, é explícito o propósito de contar:

"(...) e recomeço a minha história no episódio em que deixei (...)"

(p.13)

"(...) amaldiçoando a história que conto (...)"

(p.38)

"(...) passa a noite acordado a contar-me histórias idiotas nas orelhas (...)"

(p.243)

Porém, a ligação entre eventos rememorados não respeita o eixo temporal-causal e escapa-se aos momentos estruturais da "ossatura narrativa". De cada vez que os locutores recordam o seu passado, vivem-no de novo e novamente se surpreendem e intensamente experienciam os acontecimentos ou estados de coisas, nunca chegando a, pelo distanciamento temporal necessário, arquitectá-los numa unidade global significativa. Desprezando uma estruturação unificada por laços de pertinência e causalidade, o discurso acaba sem fim e inicia-se sem começo. Os blocos discursivos ligam-se entre si sem formarem uma história inteira e completa, antes sublinham a heterogeneidade dos eventos, múltiplos e dispersos. Neste contexto, esboça-se necessariamente uma forma discursiva aberta, sempre disposta a acolher qualquer acidente que arbitrariamente se venha juntar aos demais.
A conclusão impõe-se: estes discursos não se acomodam a uma tipologia textual pré-estabelecida. Deparamo-nos com evocações sem intriga, com rememorações sem narração. Na verdade, os locutores são alheios a essa composição harmoniosa de elementos heterogéneos e são prisioneiros da experiência temporal dramaticamente real:

"(...) conheces alguma história que não seja idiota, Iolanda?"

(p.234)

"(...) — As histórias são sempre tolas (...)"

(p.244)

Ao nível da comunicação exógena, que tem o romance como macro-signo, direi que enquanto leitores experientes, assistimos, desde as primeiras linhas, ao definhar da acção em favor da personagem e reconhecemos assim uma das características fundamentais do romance moderno. A história deste romance compõe-se dos discursos das personagens, das relações — e das não-relações — que entre elas se estabelecem. Ela está na revelação de dez existências de dez locutores que vêm a cena seguindo um encadeamento procissional. "Ecce Homo, parece dizer cada poema", as palavras são de Eugénio de Andrade . Posso apropriar-me delas: "eis o Homem, parece dizer cada capítulo". Eis dez indivíduos na tentativa gorada de configurar as suas existências. De capítulo em capítulo, somos testemunhas do esforço levado a cabo pelas personagens de darem sentido à sua vida. Página a página, mergulhamos na mesma monotonia, banalidade, realidade incoerente, que nem sequer ascende a ser trágica. É a mostração assim crua desta tristeza de viver que faz desta obra um romance desconcertante.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Eugénio de
1980 - Poesia e Prosa (1949-1979), col. "Biblioteca de Autores Portugueses" 2 Vols., Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda.

BENVENISTE, Émile
1966 - Problèmes de Linguistique Générale, I, Paris Gallimard.
1974 - Problèmes de Linguistique Générale, II, Paris Gallimard.

BÜHLER, Karl
(1934) 1979 - Sprachtheorie, Jena, Gustav Fisher; tradução espanhola, Teoria del Lenguaje, 3ª ed., Madrid, Alianza Editorial

FONSECA, Fernanda Irene
1992 - Deixis, Tempo e Narração, Porto, Fundação Eng. António de Almeida.
1994 - Gramática e Pragmática, Estudos de Linguística Geral e de Linguística Aplicada ao Ensino do Português, Porto, Porto Editora.
1995 - "Deixis e Poesia", Revista da Faculdade de Letras do Porto, Línguas e Literaturas, Vol. XII in Honorem Prof. Óscar Lopes: 75-89.

FONSECA, Joaquim
1992 - Linguística e texto/Discurso. Teoria, descrição, Aplicação, Lisboa, ICALP
1994 - Pragmática Linguística. Introdução, Teoria e Descrição do Português, Porto, Porto Editora.
2001 - Língua e Discurso, Porto, Porto Editora

RICOEUR, Paul
1983 - Temps et Récit, Tome I, Paris, Seuil
1984 - Temps et Récit, Tome II - La configuration dans le récit de fiction, Paris, Seuil.
1985 - Temps et Récit, Tome III - Le temps raconté, Paris, Seuil
1990 - Soi même comme um autre, Paris, Seuil

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