Edição 6
Página

****

.

A formação a distância no Prof2000 - Modelo potenciador de práticas inovadoras
 

Introdução

Com base em algumas experiências formativas, levadas a cabo ao longo destes últimos dois anos, pretende-se fazer uma pequena reflexão sobre algumas das potencialidades pedagógicas inerentes ao sistema de formação a distância Prof2000. Assim, tomando como referência o trabalho desenvolvido nas acções de formação Sistemas de Ensino a Distância Orientados para a Internet e Desenho Assistido por Computador - Técnicas de Modelação Bidimensional, descrevem-se alguns aspectos que podem contribuir de forma positiva para a inovação pedagógica nas nossas escolas.

 
Modelo de formação

O modelo de formação integra um conjunto de sessões com características relativamente distintas, havendo a salientar a existência de uma sessão inicial, destinada a proporcionar uma melhor integração dos formandos no ambiente de formação. Esta sessão tem-se revelado bastante pertinente, possibilitando, de forma atempada, maiores níveis de familiarização com os intervenientes na formação, com o plano da acção e com a própria plataforma de suporte à formação. Para além da sessão inicial, o modelo de formação comporta ainda um conjunto de sessões presenciais online, distribuídas no tempo, onde são abordados os conteúdos previstos para a acção. Paralelamente a estas sessões, os formandos trabalham de forma autónoma, realizando as actividades propostas pelo formador, com vista a uma implementação contextualizada dos conteúdos abordados na formação.
 

 
Modelos pedagógicos

Um dos principais objectivos de qualquer sistema de formação é proporcionar condições para que os formandos possam adquirir novos conhecimentos e, consequentemente, possam aplicá-los na sua prática profissional. No entanto, estes objectivos podem ser atingidos de forma mais ou menos eficaz, dependendo em grande parte das estratégias pedagógicas utilizadas pelo formador durante o processo de formação. Neste contexto, assumem especial importância os modelos pedagógicos, os quais se encontram descritos na figura seguinte:

  
Os modelos pedagógicos tradicionais, normalmente designados por modelos centrados no formador, têm como objectivo principal uma mera transferência de informação do formador para o formando, recorrendo à utilização de métodos expositivos. O formando comporta-se de forma absolutamente passiva, enquanto que o formador possui todo o controlo sobre o processo de formação e sobre o próprio ritmo da aprendizagem.

Por outro lado, nos modelos pedagógicos centrados no formando, toda a informação recebida é submetida a um processo de interpretação, conducente à construção de novas formas de conhecimento. O formando aprende ao seu próprio ritmo, interpretando os factos com base na sua experiência pessoal. O formador actua como um facilitador e orientador do processo de aprendizagem, proporcionando meios para o desenvolvimento de novas competências nos formandos. 

O outro modelo pedagógico, vulgarmente designado por modelo centrado no grupo, baseia-se na implementação de ambientes de trabalho colaborativo, nos quais o conhecimento é construído com base na interacção entre todos os elementos do grupo de trabalho. Este modelo revela-se bastante adequado em contextos orientados para a pesquisa e para a resolução de situações problemáticas, onde o objectivo é apelar à criatividade dos formandos, no sentido de resolver situações com algum grau de complexidade. O formador tem como função facilitar a troca de informação e de conhecimento entre os formandos, intervindo nos debates e providenciando para que todos os formandos interajam mutuamente. Este modelo tende a ser adoptado progressivamente pelas mais variadas instituições de ensino e formação, visto que para além de atingir todos os objectivos propostos pelos modelos anteriores, desenvolve nos formandos uma maior criatividade, uma maior atitude crítica, fortalecendo o espírito de grupo e desenvolvendo capacidades de comunicação interpessoal.

No entanto, para que os modelos anteriores possam ser implementados no terreno, é necessário que assentem em determinadas plataformas tecnológicas. 

  • As tecnologias de difusão suportam o modelo centrado no formador. Exemplos típicos são as emissões de difusão por televisão. Estas tecnologias suportam um processo de comunicação de um para muitos, que embora possibilite aos formandos alguma flexibilidade a nível de localização geográfica, exige um rígido cumprimento dos horários de transmissão dos cursos. Estas tecnologias atribuem ao formando um papel passivo no processo pedagógico, aparentando bastantes semelhanças com os métodos de formação tradicionais. 
     
  • As tecnologias interactivas suportam o modelo centrado no formando, permitindo-lhe a aquisição de novas competências, através da simulação de ambientes específicos de aprendizagem. São exemplos o Ensino Assistido por Computador e alguns produtos multimédia, em formato CD-ROM. Embora estas tecnologias permitam que o formando progrida ao seu próprio ritmo, testando o seu grau de aquisição de novos conhecimentos, a interacção é bastante limitada visto que o aluno interage com a própria tecnologia. 
     
  • As tecnologias de trabalho colaborativo suportam o modelo centrado no grupo, possibilitando a criação de espaços virtuais de aprendizagem onde os formandos podem interagir mutuamente, orientados pela acção do formador. Estas tecnologias assentam sobretudo nos serviços de comunicação síncronos e assíncronos disponibilizados pela Internet.

 
 
Sistemas de comunicação

A plataforma de formação assenta num sistema de comunicação electrónico, baseado em meios de comunicação síncronos e assíncronos, destinados a promover a interacção entre todos os intervenientes no processo formativo. 

  • Os serviços de comunicação síncronos, nomeadamente o Internet Relay Chat, permitem o estabelecimento de canais de comunicação em tempo real, possibilitando o debate espontâneo de ideias, bem como a partilha de experiências.
     
  • Por outro lado, os serviços de comunicação assíncronos, nomeadamente os fóruns de discussão e o correio electrónico, permitem uma comunicação em tempo diferido, sendo normalmente utilizados em circunstâncias que exigem uma maior reflexão e aprofundamento dos temas abordados durante a formação. 

Para tirar partido de todas as suas potencialidades, é necessário adaptar as suas características intrínsecas aos modelos pedagógicos utilizados na formação. Assim, uma das facetas mais importantes destes meios de comunicação reside no facto de possibilitarem a implementação de novos modelos pedagógicos, baseados em aprendizagens colaborativas, bem como no estabelecimento de novos padrões de interacção, aspectos potenciadores das dinâmicas inerentes às comunidades virtuais de aprendizagem.
 

 
Desafios para o formador

A formação a distância traz novos desafios ao formador. Assim, contrariamente aos modelos de formação tradicionais, o formador tem uma área de actuação muito maior, exercendo um conjunto mais vasto de funções. No entanto, uma das principais funções do formador relaciona-se com a moderação de conferências, no sentido de proceder a uma gestão eficaz dos debates previstos no plano de formação.

Para isso, é necessário estar devidamente familiarizado com as tecnologias, conhecer o potencial pedagógico das ferramentas disponíveis, conhecer metodologias relacionadas com as dinâmicas de grupo, ter disponibilidade para analisar as contribuições dos formandos e para lhes fornecer todo o feedback necessário. 

Ainda a propósito deste aspecto, nomeadamente em ambientes de formação síncronos, é fundamental que o formador saiba exercer adequadamente as funções de moderador, procurando manter o rumo dos debates e evitando situações que conduzam à dispersão dos formandos em torno de assuntos paralelos à própria formação. 

Para além disso, o formador deve actuar como um gestor de consensos no seio do grupo de trabalho, introduzindo momentos de síntese, destinados à clarificação e à sumarização dos temas em debate. 

No final das sessões, o formador tem a possibilidade de disponibilizar os registos referentes aos conteúdos dos debates, de forma a facilitar a revisão e a reflexão dos temas tratados durante a formação.
 
 

Desafios para os formandos

A formação a distância apresenta um conjunto de características peculiares, com implicações bastante importantes no perfil dos formandos. Assim, contrariamente à formação tradicional, os formandos têm que lidar com diversas situações em simultâneo. Para além de terem que aprender os conteúdos previstos no plano de formação, os formandos têm que aprender a manusear as tecnologias e os serviços subjacentes à plataforma de formação, bem como as novas regras de comunicação inerentes aos sistemas de formação a distância. 

Estas situações criam algumas dificuldades acrescidas nos formandos, principalmente naqueles que revelam menores níveis de autonomia na utilização das novas tecnologias. Para superar estas dificuldades, os formandos contam com o apoio do Líder de Escola, um elemento fundamental deste modelo de formação, que presta um apoio do tipo 'just in time' e 'just in place', contribuindo para que toda a complexidade tecnológica permaneça transparente ao processo de formação.

Por outro lado, os formandos apresentam diversos estilos de aprendizagem. Assim, alguns deles preferem os modelos pedagógicos tradicionais, resistindo frequentemente à ideia de aprendizagem colaborativa. Este facto pode estar relacionado com o percurso escolar e profissional dos formandos, com reflexos evidentes na sua prática pedagógica. Neste aspecto, torna-se evidente a importância que a formação a distância pode assumir na inovação do processo de ensino-aprendizagem, pela integração gradual de novos modelos pedagógicos, baseados numa aprendizagem mais activa e participativa.

Relativamente aos debates, verifica-se que os contributos dos formandos excedem largamente os contributos do formador, referenciando frequentemente os contributos dos restantes colegas do grupo. Assim, contrariamente à formação tradicional, verifica-se que a formação a distância pode proporcionar um maior poder de intervenção aos formandos

No entanto, as taxas de participação nos debates podem ser bastante distintas, conduzindo a situações extremas. Por um lado, formandos muito activos podem acabar por dominar os debates, impedindo a participação dos restantes colegas. Por outro lado, formandos muito passivos podem acabar por ser meros leitores. Importa prevenir estas situações, pelo que se deve ter em atenção as características do grupo de trabalho, nomeadamente a personalidade e o grau de auto-confiança dos formandos, bem como o seu interesse pelos conteúdos do plano de formação.
 
 

Metodologias de avaliação

A formação a distância permite implementar formas inovadoras de avaliação. Assim, para além dos aspectos relacionados com a avaliação da acção, a qual geralmente ainda é feita segundo moldes tradicionais, importa referir a forma como pode ser feita a avaliação dos formandos, nestes novos ambientes de formação. 

Uma das formas de avaliação mais adequadas consiste no recurso à análise dos respectivos portfolios electrónicos individuais. Esta forma de avaliação, baseada no trabalho desenvolvido pelos formandos ao longo da acção, possibilita uma visão global quer sobre o processo de aprendizagem, quer sobre o próprio percurso formativo dos formandos. 

Deste modo, é possível ter uma avaliação mais objectiva, mais consistente e mais rigorosa, visivelmente mais adaptada às características dos ambientes de formação a distância.
 

 
Conclusão

Analisando todos os aspectos mencionados ao longo deste artigo, verifica-se que o modelo de formação Prof2000 possui um conjunto de potencialidades que devem ser transpostas para a prática docente, com vista a melhorar a qualidade de todo o processo de ensino-aprendizagem. 

Assim, para além deste modelo de formação permitir uma familiarização progressiva com as novas tecnologias da informação e da comunicação, a qual ocorre de forma semi-transparente ao utilizador, possibilita ainda a implementação de modelos pedagógicos mais adequados aos diferentes estilos de aprendizagem revelados pelos nossos alunos. 

Deste modo, o modelo de formação aponta claramente para a promoção de ambientes de aprendizagem activa, baseados na utilização dos recursos disponíveis na Internet e nas facilidades de comunicação e colaboração proporcionadas pelas novas tecnologias, possibilitando a implementação de novas metodologias de avaliação

Para além disso, o modelo de formação evidencia grandes capacidades de criar e manter redes de relacionamento entre todos os intervenientes no processo formativo, contribuindo para a formação de comunidades virtuais de aprendizagem, factor bastante importante para o desenvolvimento de novos canais de comunicação no interior das comunidades educativas.

Deste modo, o modelo de formação Prof2000 pode constituir-se como um agente de inovação nas nossas escolas, podendo contribuir de forma bastante positiva para um processo transformativo de práticas pedagógicas, mais adequadas à realidade actual.

 

António João Lopes
Escola Secundária de Esmoriz
 


Referências Bibliográficas

Salmon, G. (2000) - E-Moderating: The Key to Teaching and Learning Online.
MacEke, Paul (2000) - Directions in E-Learning.
Eastmond D. (1997) - Alone But Together: Adult Distance Study Through Computer Conferencing.
Mason, R. e Kaye, A. (1989) - Mindweave: Communication, Computers and Distance Education.