Edição 6
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A formação de professores em novas tecnologias - um ofício de paciência…
 

Não vou aqui fazer a apologia do uso das TIC como finalidade no ensino, nem partirei em defesa da necessidade absoluta e primordial do domínio daquelas ferramentas pelos professores, e, não me peçam, também, que defenda que a utilização constante do computador em sala de aula motiva e facilita o desenvolvimento cognitivo dos nossos alunos…

Parece terrivelmente contraditório e chocante olhar para estas afirmações, quando a minha prática, aparentemente, se coloca no lado oposto destas revelações.

Tentarei, pois, justificar esta minha posição, inspirada na praxis e na observação empírica do quotidiano, enquanto docente, formador ou, simplesmente, como assíduo leitor de estudos especializados nesta matéria.


Que professor? Que aluno? Que ensino?

Hoje, o professor já não vê o computador como um inimigo, aquele que vem ameaçar a sua autoridade, a sua segurança ou a sua profissão. Já não o vemos a rejeitar liminarmente o seu uso, nem a afirmar que nunca precisará daquela máquina para transmitir conhecimentos…

Pelo contrário, o educador já sabe que o seu papel, como pessoa, é inigualável, pois só ele poderá desempenhá-lo bem. 

Também já se verifica que aquele emaranhado de complexos fios, com inertes teclados e inofensivos ratos não passam de "monstrinhos" úteis e facilitadores de tarefas repetitivas, que só vieram melhorar o desempenho e o trabalho do professor. E, para nossa surpresa, depressa descobrimos o professor, novo ou mais velho, a procurar acções de formação com conteúdos que o levem a dar os primeiros passos neste caminho irreversível que deixou de ser futuro para ser o presente!

Aquela ideia desenraizou-se do espírito do docente! 
Reflictamos, pois, no que o terá levado a mudar a sua atitude.

É por todos nós sentida a aceleração que a história levou nos últimos tempos. As adaptações e readaptações são constantes, incessantes e até esgotantes. Ora, no que diz respeito à educação, o cenário desenha-se com a mesma velocidade.

O professor, agente responsável (ou responsabilizado!) pela educação e instrução dos cidadãos de amanhã, vê-se confrontado com alunos, por vezes de tenra idade, que parecem viver numa era mais avançada que aquela que se vive na escola… E ele é "downloads" para aqui, é "chats" para acolá, são os "mp3", são os "emails", uma verborreia incompreensível, por vezes intimidante… 

Aquele que se achava detentor de todo o conhecimento vê-se ultrapassado por saberes que desconhece! O aluno mostra-lhe outros centros de interesse, outras formas de acesso à informação e manipulação da mesma e o magister dixit é posto em causa, dando lugar à frustração!

O professor percebeu, pois, que o que está em risco é a sua segurança da detenção do saber! Este ser humano jamais poderá comportar um conjunto de saberes que uma máquina, uma base de dados, pode reunir. Isto parece claro e óbvio!

Nesta linha de pensamento, logo compreendemos que o conceito e a função de professor mudaram. Ele tem de abandonar os métodos tradicionais, munir-se desse enormíssimo volume de informação proveniente de tão diversas fontes e construir com ela uma aprendizagem em que o aluno possa interagir, reconstruir, confrontar e reflectir, de maneira a criar um conhecimento que, pessoalmente, tenha significado.

As modalidades activas

É, então, que entra em cena uma oferta de formação variada e rica na área das novas tecnologias de informação e comunicação (NTIC).
Para responder à gradual e acentuada procura, os Centros de Formação desenharam planos de formação, onde proliferam as acções de formação naquele âmbito. O professor pode escolher um vasto leque de acções que o podem ajudar a colmatar as suas necessidades, no que concerne à utilização do computador.

Contudo, verifico que há cuidados a ter quanto à escolha das modalidades de formação, pois considero que as ditas modalidades activas - oficinas, projectos e círculo de estudos centrados nas escolas - garantem maior eficácia, por se revestirem de uma forte componente prática e de permitirem a reflexão e a pesquisa sobre experiências profissionais.

Por outro lado, e aqui poderei relatar a minha experiência pessoal como formador, a atitude do formador face à formação de professores deve englobar, além de um sólido conhecimento científico, um conjunto de qualidades, nomeadamente, de compreensão para com colegas que, em horário pós-laboral, afastados das famílias, se esforçam por melhorar a sua actividade profissional, de sensibilidade face à insegurança e às incertezas que as constantes mudanças na educação colocam aos docentes, de paciência perante as mais simples dúvidas e de proximidade junto dos seus formandos. Deve conhecer exactamente as necessidades dos professores e procurar responder com eficácia a tais demandas! Deve aproximar, o mais possível, os conteúdos da acção às realidades vividas pelos docentes nas suas escolas, de modo a evitar, no final da mesma, sentimentos de frustração maiores do que aqueles que possuíam quando se candidataram à formação…

O formando deve sair da acção com a convicta sensação de ter realmente aprendido algo muito útil; de ter vontade de aplicar o que assimilou na sua prática pedagógica; e, sobretudo, de desejar aprofundar, de conquistar novos conhecimentos que lhe confiram maior segurança e maior e melhor capacidade de resposta, para apresentar a desejada e necessária diversidade de métodos pedagógicos em sala de aula. 
É fundamental compreendermos que, enquanto os docentes mais novos estão a realizar normalmente a sua aprendizagem, os mais velhos procuram readaptar-se à complexidade das máquinas actuais. É, pois, nestes que a minha atenção se tem centrado com ênfase!

Não querendo transmitir a sensação de exagero ou de falsa modéstia, afirmaria, no entanto, que nestes últimos quatro anos, o meu trabalho, na Escola EB 2.3 de Vale de Cambra, tem visado estes objectivos e, creio ter atingido níveis de sucesso elevados!
Seria, contudo, insensato não valorizar o empenhado apoio do órgão de gestão, inventariando as necessidades dos seus docentes na questão da formação e concedendo-lhes as melhores condições de trabalho, quanto à disponibilização de meios informáticos, que permitem aos formandos pôr em prática aquelas metodologias de que, há pouco, falávamos.
  

 
Estamos no bom caminho (?)
  
Percorrida esta reflexão, levantarei algumas questões preocupantes: agora que o professor já domina o dito "monstrinho", como poderá ele usá-lo? O que deverá o aluno aprender e o que deverá o professor ensinar? Como poderá o computador auxiliar o professor na sua prática educativa? Que métodos de trabalho e de pesquisa e/ou ferramentas informáticas utilizar no processo de ensino/aprendizagem com os alunos?
A estas e outras questões procuro responder nesta fase de formação - em acções já em curso, outras a efectuar - tanto nas escolas, como através do Ensino à Distância, no Prof2000.
Pessoalmente, considero esta etapa a mais inquietante e a mais desafiadora!
Queremos pôr os alunos a trabalhar, queremos motivá-los, seduzi-los, mostrar-lhes como é bom aprender e como é essencial saber gerir a informação que lhes chega em avalanche desordenada…
Queremos utilizar estes meios, sim, mas não queremos ser dominados nem ver os nossos alunos obsessivamente dependentes destas máquinas…
Queremos as TIC como auxílio, como uma ferramenta de trabalho, mas não queremos que se torne no único veículo de transmissão de conhecimentos, na única fonte do saber…
Queremos alunos capazes de conviver em sociedade, aptos para reflectir, dialogar, criticar…

Para tal, o professor implementará espaços múltiplos, onde estas capacidades sejam desenvolvidas!

Fruto da experiência, do contacto constante e sistemático com as TIC, posso afirmar peremptoriamente que aquelas competências essenciais - ainda! - não provêm de uma máquina!

Saibamos, pois, definir o conceito de professor e reconhecer as vantagens e as desvantagens do uso destes meios no exercício da nossa profissão e não caiamos na tentação de sobrevalorizar, agora, os meios informáticos e de reduzir o melhor que há no contacto pessoal: os afectos, os sentimentos, as emoções, as sensações…

Somos insubstituíveis, mas não deixemos que nos substituam!

 

José Paulo Rodrigues dos Santos
Escola Básica 2,3 de Vale de Cambra