Edição 6
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Os Computadores na Sala ou a Sala dos Computadores !?
 
O problema que agora levanto carece de contextualização! Falo obviamente de um tipo de escola bafejada pela sorte de estar tecnologicamente bem equipada, com um número médio de computadores por aluno que em muito se aproxima do ratio previsto pela Iniciativa Nacional para a Sociedade da Informação. 

As conclusões que cada um tirar da sua leitura serão inevitavelmente diferentes e extrapoladas para a sua própria realidade. No entanto, ficará sempre o gosto saudável de se ter pensado no assunto!


A
arbitrariedade com que são muitas vezes distribuídos os equipamentos informáticos pelas escolas começa logo com a pouca clareza dos critérios que levaram à sua distribuição. Quantas vezes, escolas pouco dinâmicas e sem qualquer sensibilização para apostar na vertente tecnológica se vêem "invadidas" por equipamento de último grito, para o qual não têm espaço nem projecto...

A ideia de construir uma Escola Informada não passa apenas pela colocação de computadores na Escola, passa também, e essencialmente, por uma política de gestão da sua utilização. Urge por isso contrariar a tendência ignorante de quem pensa ter o problema resolvido só por ter os computadores na escola. A frequente inexistência de um projecto sustentado para a rentabilização dos recursos informáticos tem as suas raízes no nosso universo cultural, onde é mais fácil mostrar que se tem do que fazer com o que se tem.

O assunto que aqui discutimos pode contextualizar-se desde logo naquela que foi a meta estabelecida para o apetrechamento dos estabelecimentos escolares1

1 In Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal, Página 20

Medida 1.1 - Apetrechar os Estabelecimentos Escolares para a Sociedade da Informação

A meta de um computador multimédia por sala de aula dos ensinos básico e secundário é assumida para o ano 2000, como objectivo mínimo, pressupondo a ligação desses computadores a uma rede local com acesso às redes telemáticas nacionais e internacionais.

A vontade de colocar um computador multimédia por sala de aula, se compreensível nas escolas do ensino básico, parece-me nesta fase do processo de informatização das escolas do terceiro ciclo e secundárias perfeitamente descabida. Não que eu pense ser inútil a existência de um computador multimédia em qualquer sala, mas como professor não posso deixar de questionar a sua utilidade e eficácia sem o apoio de um videoprojector - equipamento ainda a preços proibitivos - na maior parte das disciplinas, cujas turmas raramente têm menos de vinte e cinco alunos.

Decorrente da reflexão que acabo de fazer parece inevitável a necessidade de discutir o assunto em cada escola de forma a cumprir o pressuposto para "...que computadores e redes electrónicas estejam acessíveis em locais públicos, nas escolas, em bibliotecas (...), de forma a evitar a exclusão de todos os que não dispõem de condições de acesso no lar ou no local de trabalho."2

A distribuição do equipamento informático na escola não deverá por isso ficar subjacente ao critério de lobbies mais ou menos instalados, mas antes orientar-se para um verdadeiro combate à info-exclusão e democraticidade no acesso à informação para que "Munidos destes novos instrumentos os alunos [se tornem] "exploradores" activos do mundo que os envolve [e] os professores [ensinem] os alunos a avaliar e gerir na prática a informação que lhes chega" 3

O Coordenador TIC

É justamente para este trabalho de planificação e de consultoria que deveria criar-se a figura do Coordenador TIC. A seu cargo ficariam o estudo e a organização do equipamento existente e a adquirir, estudo esse fundamentado em critérios de rentabilidade pedagógica e económica, pois a constante evolução do mundo tecnológico e a dificuldade que a Escola de hoje tem em manter-se actualizada assim o exigem. 

Nada deveria ser adquirido sem uma consulta ao Coordenador TIC, pois a simples compra de uma impressora levanta um número infindável de questões.
 
A primeira será sempre a pergunta de partida: 
- Faz-nos mesmo falta uma impressora?, ...que tipo de impressora? ...para servir quantos computadores? ...será melhor ter potencialidades ao nível de funcionamento em rede? ...e os consumíveis, quanto custam? ...e a velocidade de impressão, está ao nível da concorrência?!...

Como um dia disse Stephen Kanitz: "Não são os grandes planos que dão certo; são os pequenos detalhes ..." 

Considerando a realidade da maioria das escolas do nosso país parece-me, onde isso for possível, mais acertada uma filosofia de parcerias e uma gestão centralizada dos recursos que possibilite a criação de pequenos laboratórios de informática com verdadeiras condições multimédia para usufruto de toda a comunidade escolar.

Jorge Edgar Gregório Brites
Escola Básica 2,3 de Marrazes - Leiria


1 In, Livro Verde para a Sociedade da Informação em Portugal, Página 20
2 Idem, 1.1 A Sociedade da Informação e a Democracia, Página 13
3 Ibidem, 4.4 Qualificação do professor para a Sociedade da Informação, Página 46