A integração das TIC na escola:
desafios, condições e outras reflexões…
Introdução
Hoje, mais do que nunca, é inegável que ter acesso à
informação significa ter acesso ao poder.
É urgente que a escola desempenhe o seu papel de educar os futuros
cidadãos através “duma reflexão analítica sobre
a produção e a gestão da informação
no mundo (CARRIER, 2000, 107). Esta prática levará a uma
educação para a cidadania, que contribuirá para a
construção de uma sociedade verdadeiramente democrática.
Como diz René de la Borderie “saber informar-se e compreender os
mecanismos de produção e de difusão da informação
exige uma formação específica a que se convencionou
chamar Educação para os Media”. Esta consiste na “aprendizagem
dos mecanismos de funcionamento dos media e deveria constituir uma das
prioridades da nossa prática pedagógica (Borderie, 1997)”.
Com a irrupção das cadeias de informação
na Internet, a informação tem cada vez mais tendência
para a quantidade (versus qualidade) e para a rapidez (versus análise
e reflexão). Esta situação só serve para reforçar
a necessidade de práticas pedagógicas que forneçam
aos alunos os elementos indispensáveis que lhes permitam compreender
os actuais mecanismos da informação. Um trabalho sobre a
informação será assim necessário à construção
da cidadania futura das crianças de hoje.
As TIC na escola: que desafios?
Sociais
É importante que as TIC ajudem a lembrar e a pôr em prática
os princípios fundadores da escola democrática: a igualdade
de oportunidades, a formação crítica dos futuros cidadãos
e a adaptação das crianças à sociedade, nomeadamente
no que respeita a inserção profissional. O simples fornecimento
de equipamento informático às escolas não contribui
automaticamente para atingir este objectivo.
É necessário que o projecto político da introdução
das TIC na escola encontre um consenso entre todos os intervenientes no
processo educativo, desde os alunos aos professores, dos pais aos autarcas.
Cremos que já ninguém tem dúvidas sobre a presença
das TIC e a sua forte dimensão social. O desafio agora é
de reflectir sobre o lugar que elas ocupam e de perceber as funções
que elas podem desempenhar.
Pedagógicos
Em primeiro lugar, cremos que deverão ser evitados dois tipos
de desvio: o desvio tecnicista e o desvio produtivista. O primeiro consiste
em fazer crer que a partir do momento em que a pessoa sabe utilizar uma
máquina, já sabe transformá-la numa ferramenta pedagógica.
O desvio produtivista consiste em acreditar que o objectivo principal é
fazer produtos muito originais (CARRIER, 2000).
Ora, a integração das TIC na escola pode ser uma boa
oportunidade para redescobrir o prazer na aprendizagem, contribuindo para
desenvolver ou fazer surgir o gosto de aprender.
Porém, essa integração não é por
si só garantia de eficácia pedagógica. Alguns produtos
multimedia são maus produtos pedagógicos e também
há más utilizações pedagógicas de alguns
materiais multimedia, por muito bons que eles sejam. A eficácia
pedagógica tem de ser construída. A escola pode (e deve)
utilizar produtos multimedia que não foram concebidos a pensar na
escola. Um bom produto multimedia para situações de aprendizagem
deverá ter, além de qualidades estéticas, uma coerência
lógica. Como é que o interface orienta o utilizador de modo
que ele não se perca? E que liberdade é que o interface dá
ao utilizador para que ele possa construir o seu próprio itinerário?
Além disso, as TIC podem contribuir muito para a alteração
da relação prof./aluno, por exemplo, através da diminuição
do poder do professor, pelo facto de muitos alunos terem mais conhecimentos
das tecnologias, através de uma pedagogia activa centrada no aluno
(a interactividade verdadeira pode ser um elemento fundamental de aplicação
das pedagogias construtivistas.)
As TIC na escola: que condições?
As TIC deverão ser introduzidas logo a partir do pré-escolar,
tendo em conta a idade dos alunos e a sua receptividade, que constituem
um trunfo. (Ver Potencialidades pedagógicas.)
Ensinar com as TIC deverá corresponder a uma prática
educativa global, planeada, inserida numa ampla estratégia educativa
centrada no aluno, tornando os alunos activos e criativos, renovando as
formas de acesso aos conhecimentos e oferecendo novas formas de aprendizagem.
A entrada das TIC na educação pressupõe que sejam
desenvolvidos, em paralelo, a formação dos professores e
o apetrechamento das escolas. As prioridades da formação
de professores devem procurar proporcionar, mais do que uma competência
de manipulação de computadores, a capacidade de fazerem uma
reflexão crítica sobre as TIC e sobre as suas possibilidades
de utilização pedagógica.
As condições de integração das TIC na escola
não têm de ser, obrigatoriamente, as mesmas para todas as
escolas. Numas poderão ser integradas nas salas de aulas, a fim
de serem completamente introduzidas no quotidiano curricular dos alunos;
noutras, poderão ser integradas no centro de recursos educativos,
na biblioteca, podendo neste caso a sua integração ser orientada
por um professor responsável ou por uma equipa.
Em qualquer destes casos, ou noutro qualquer, cremos ser importante
haver objectivos bem definidos, uma coordenação entre os
centros de recursos educativos, centros de documentação,
bibliotecas, mediatecas, clubes, todos devidamente articulados com as estruturas
directivas da escola (sobretudo na sua vertente pedagógica), de
modo a que todas as acções desenvolvidas estejam devidamente
integradas num Projecto Educativo. Só com uma pedagogia de projecto
será eficaz esta integração das TIC na escola. Em
lugar de se partir de uma aprendizagem técnica, deverá partir-se
da utilização que os alunos quiserem fazer tendo em vista
um determinado objectivo. É claro que este projecto educativo deve
ser entendido duma forma relativa, isto é, por projecto educativo,
entende-se qualquer projecto seja da escola seja de turma seja dum clube,
etc. com objectivos pedagógicos.
O que é importante é que a exploração das
possibilidades de aprendizagem que as TIC oferecem deverá ser baseada
numa análise crítica do seu significado social e cultural.
Muitos produtos multimedia não passam de bonitas embalagens de velhos
conteúdos e de velhas pedagogias e alguns projectos de utilização
da Internet têm mais a ver com o trabalho dos professores do que
dos alunos.
As potencialidades pedagógicas das TIC
Para as crianças em idade pré-escolar, o CD-ROM, por
exemplo, pode contribuir decisivamente para o desenvolvimento das capacidades
de observação e reflexão, de coordenação
psico-motora. As potencialidades do multimedia tornam-no um instrumento
quase insuperável já que reúne em simultâneo
a imagem, a cor, o som e ainda todos os efeitos visuais e sonoros que conseguem
prender a atenção da criança. Porém, há
que ter cuidado com “as ambiguidades do ludo-educativo” (Carrier, 1997),
etiqueta frequentemente usada pelo marketing para atrair as crianças
(ludo) e os pais (educativo) e que muitas vezes tem muito do primeiro e
pouco do segundo.
Para todos os alunos (sobretudo do básico e secundário),
as práticas pedagógicas que utilizam as TIC duma forma planeada
e sistemática permitem:
-
o desenvolvimento de uma competência de trabalho em autonomia (fundamental
ao longo da vida), já que os alunos podem dispor, desde muito novos,
de uma enorme variedade de ferramentas de investigação. “Se
é verdade que nenhuma tecnologia poderá jamais transformar
a realidade do sistema educativo, as tecnologias de informação
e comunicação trazem dentro de si uma nova possibilidade:
a de poder confiar realmente a todos os alunos a responsabilidade das suas
aprendizagens (Carrier, 1998)”.
-
uma prática de análise e de reflexão, confrontação,
verificação, organização, selecção
e estruturação, já que as informações
não estão apenas numa fonte. As inúmeras informações
disponíveis não significarão nada se o utilizador
não for capaz de as verificar e de as confrontar para depois as
seleccionar. A recolha de informações sem limite pode muito
bem provocar apenas uma simples acumulação de saberes.
-
a abertura ao mundo e disponibilidade para conhecer e compreender outras
culturas;
-
a criação de sites (em colaboração com os colegas
e professores da sua ou de outras escolas), a qual vai permitir que os
alunos realizem um trabalho de estruturação das suas ideias;
uma organização espacial; uma preocupação estética;
uma pesquisa histórica, geográfica e cultural sobre a escola,
o local e a região onde habitam e estudam; um registo de sons e
imagens (fotografia e vídeo); uma tradução em várias
línguas.
Além destas potencialidades, a realização de um jornal
da turma (ou da escola) levará os alunos a reflectirem sobre a informação,
a confirmar a informação a transmitir e a pensar num público
de leitores à escala mundial e já não confinada aos
muros da escola (como acontecia com o tradicional jornal de escola).
O novo papel do professor
Para uma eficaz integração das TIC no sistema educativo,
além de uma adequada formação de professores, terá
de haver uma transformação da atitude dos professores. Esta
transformação vai exigir que os professores reconheçam
que já não são os detentores da transmissão
de saberes e aceitem que as novas gerações têm outros
modos de aprendizagem, baseados em estruturas não lineares, completamente
diferentes da estrutura sequencial em que assentam os saberes livrescos
tradicionais. Mais do que um transmissor de saberes, o professor será
um facilitador de aprendizagens, um mediador de saberes, praticando uma
pedagogia activa centrada no aluno e terá um papel decisivo na construção
do cidadão crítico e activo.
Conclusão
Tal como dizia Geneviève Jacquinot relativamente aos media, as
TIC “só podem servir de fonte de acesso ao conhecimento se forem
integradas, dentro ou fora da escola, no quadro de um projecto ou de uma
metodologia. (…) É urgente definir uma nova função
da escola na sociedade actual. A questão mais importante é
a de saber como vamos fazer uma educação democrática
para todos ou, pelo menos, para uma maioria. (…) Devemos construir um discurso
sobre a nova função da escola na sociedade tecnológica
e criar práticas novas. Uma educação para os media
bem controlada, exigente, pode ajudar-nos muito nessa tarefa (Jacquinot,
1995)”.
Porto, 12 de Junho de 2000
Referências bibliográficas
AS TICE (Tecnologias de Informação e Comunicação
na Educação)
-
CARRIER, J.-P. (1997)”Les cédéroms dans le biberon: le multimédia
et l’éveil des tous-petits.”, Apprendre avec le multimédia.
Où en est-on?, Paris : Retz, p. 61-70.
-
CARRIER, J.-P. (2000) L’école et le multimédia, Paris : Hachette
Education.
-
CARRIER, J.-P., Le Multimédia éducatif - Quels dispositifs
d'aide pour quels apprentissages?, http://www. aquitaine.iufm.fr/fr/08-tice/09-reflexionp/
-
DEPOVER, C., GIARDINA, M., MARTON, P. (1998) Les environements d’apprentissage
multimédia. Analyse et conception, Paris, L’Harmattan.
-
DEVAUCHELLE, B. (1999) Multimédiatiser l’école, Paris Hachette
Education.
-
FIGUEIREDO, A. D. (1998) “Importância e Complexidade da Formação
de Professores na Sociedade da Informação”, A Sociedade da
Informação na Escola, Lisboa, Conselho Nacional da Educação.
-
JACQUINOT, G. (1997) “Nouveaux écrans du savoir ou nouveaux écrans
aux savoirs?”, Apprendre avec le multimédia. Où en est-on?,
Paris, Retz, p. 157-164.
-
LANCIEN, T. (1998) Le Multimédia, Paris, Clé International.
-
LINARD, M. (1996) Des machines et des hommes, apprendre avec les nouvelles
technologies, Paris, L’Harmattan.
-
MARQUES, R. (1998) “Os Desafios da Sociedade de Informação”,
A sociedade da informação na escola, Lisboa, Conselho Nacional
da Educação.
-
MELO ROSA, L. (1998) “Les TIC au Portugal. Quels chemins?”, Vers l’Éducation
Nouvelle, nº 487.
-
MELO ROSA, L. (1999) “As Tecnologias de Informação e Comunicação
na escola e os Centros de Recursos Educativos. Algumas reflexões.”,
Almada, II Encontro de Centros de Recursos Educativos, Escola Emídio
Navarro.
-
OLIVEIRA, T. (1998) “As Novas Tecnologias de Informação e
o Desenvolvimento das Competências Cognitivas”, A sociedade da informação
na escola, Lisboa, Conselho Nacional da Educação.
-
TARDIF, J. (1998) Intégrer les nouvelles technologies de l'information.
Quel cadre pédagogique?, Paris, ESF.
Educação para os Media
-
BAZALGUETTE, C., BEVORT, E., SAVINO, J. (coord.) (1992) L’Education aux
Médias dans le monde: nouvelles orientations, Paris, Clémi.
-
BORDERIE, R. de la (1997) Education à l’image et aux médias,
Paris, Nathan.
-
GONNET, J. (1997) Éducation aux médias, Paris, PUF, Coll.
Que sais-je?
-
JACQUINOT, G. (1999) “L'éducation aux médias: entre langage
et citoyenneté”, Actas do Ciclo de Colóquios Uma Tensão
entre o Global e o Local, Porto, Universidade Aberta (no prelo).
-
MASTERMAN, L., MARIET, F. (1994) L’Education aux Médias dans l’Europe
des années 90, Les editions du Conseil de l’Europe.
-
Vários autores (1984) L’Education aux Médias, Paris, UNESCO.
Utilização das imagens em pedagogia
-
CALADO, I. (1994) A utilização educativa das imagens, Porto,
Porto Editora.
-
COMPTE, C. (1994) La vidéo en classe de langue, Paris, Hachette.
-
COOPER / LAVERY / RINVOLUCRI (1991), Video, Oxford, Oxford University Press.
-
JACQUINOT, G. (1977), Image et Pédagogie, Paris, PUF.
-
JACQUINOT, G. (1985) L'école devant les écrans, Paris, Les
éditions ESF.
-
JACQUINOT, G. (1996) “Audiovisuel et pédagogie: des pratiques en
question”, Les Genres Télévisuels dans l’enseignemant, Paris,
Hachette Education.
-
JOLY, M. (1993) Introduction à l’analyse de l’image, Paris, Nathan
Université.
-
LANCIEN, T. (1986) Le document vidéo dans la classe de langues,
Paris, CLE International.
-
LONERGAN, J. (1984) Video in language teaching, Cambridge, Cambridge University
Press.
-
PINTO, M.; SANTOS, A. (1996) O cinema e a escola, Público.
-
PORCHER, L. (1994) Télévision, culture, éducation,
Paris, Armand Collin.
-
STEMPLESKI, S. / TOMALIN, B. (1990) Video in action, Recipes for using
video in language teaching, Cambridge: Prentice Hall International.
Sítios na Internet
TICE (Tecnologias de Informação e Comunicação
na Educação)
Educação para os Media
|