| Como surgiram os computadores na sua vida?
Por volta de 1984 resolvi oferecer ao meu filho, então com 8
anos, um computador Spectrum como prenda de Natal.
Comprei-o em Outubro, numa ida a Lisboa e guardei-o num armário
até ao dia 24 de Dezembro.
Entre Outubro e Dezembro, todas as noites esperava que todos fossem
para a cama e, pé ante pé, ia à sala,
desembrulhava a prenda do garoto (o Computador), usava-o até
às três, quatro da manhã, e antes de ir para cama embrulhava-o,
novamente com lacinho de prenda e tudo e guardava-o no armário.
Quando finalmente lho entreguei, na noite de Natal, olhou-o, mirou-o
e remirou-o e disse-me: - Tem graça, as teclas estão gastas
como se já tivessem sido muito usadas!
Quando pensou no computador como ferramenta de ensino?
Ainda com o Spectum comecei a utilizar alguns programas para classificar
alunos e a fazer pequenas aplicações que me
ajudassem na estatística e na gestão da escola. Muito
jeito fez uma impressora de papel térmico que imprimia uma folhinha
no género das que o Multibanco nos entrega em cada operação.
Mais tarde, já em 1990, comprei o primeiro PC e, em 1994, entrou
o primeiro computador na minha sala/escola.
A partir daí, a necessidade de motivar os alunos, e porque nesse
tempo praticamente não havia o hoje chamado software educativo,
levou-me a construir uma série de materiais, hoje claramente desfasados
tecnologicamente, mas que me foram preciosos naquela época.
Como evoluíram as estratégias de aplicação
do computador com os seus alunos?
A estratégia foi sempre prepará-los para utilizar o equipamento
o melhor possível. O PC chegou à escola numa turma do 1º
ano.
Começaram aos 5/6 anos a utilizar o computador para escrever
pequenos textos de uma ou duas linhas com as palavrinhas que iam aprendendo.
Ao mesmo tempo, faziam desenhos alusivos no Paint. No final do ano, fiz
uma apresentação em Power-Point que "encheu o olho" aos pais
e aos colegas da escola.
Adicionalmente, os alunos utilizavam pequenos programas que fui desenvolvendo
e que permitiam que, sempre que possível, fizessem no computador
aquilo que o computador sabia fazer melhor, nomeadamente contas, tabuadas,
etc.
Qual a reacção dos alunos a essa novidade?
Não houve reacção especial. Eles chegaram à
escola e o computador já lá estava. Fazia parte da mobília.
A reacção mais significativa foi sempre dos alunos das
outras turmas, que se lamentavam de não terem, também eles,
acesso a estas maravilhas.
Estes meus alunos sempre acharam que a escola com computadores era
uma coisa natural. Quando chegaram ao 4º ano a sala (no 1º ciclo,
note-se), tinha 5 computadores Pentium 133.
Depois foram para o ciclo e aí sim tiveram alguma reacção.
O 2º ciclo estava tecnologicamente pior equipado do que a sua anterior
sala do 1º ciclo.
No contexto actual, qual a importância que atribui à
utilização das TIC na escola, em geral, e nas escolas do
1º CEB, em particular?
Já não é só o problema da utilização
das TIC "na escola", mas também, e principalmente, a importância
da utilização das TIC "pela escola".
Na minha mais que suspeita opinião, a escola de hoje tem que
perceber que as TIC não são algo que se proporciona aos alunos.
As TIC estão lá para toda a comunidade educativa.
Todos temos que estar motivados para saber fruir das potencialidades
que uma máquina multimédia ou um acesso à Internet
podem trazer, quer aos alunos, quer ao professor no seu trabalho na escola.
Estamos a falar de acesso à informação, de partilha
de saberes, de conteúdos multimédia que deixam um professor,
sensaborão e chato, a milhas, na atenção e interesse
que pode despertar nos alunos.
Nas escolas do 1º Ceb, tendo a conta a limitada capacidade de
concentração dos alunos, tudo isto é ainda mais importante.
Além de que o 1º CEB é, ainda, a porta de entrada
no sistema de ensino. Quanto mais cedo os alunos desenvolverem competências,
mais facilmente passam a outros estádios de desenvolvimento. Por
outro lado, a maior quantidade e, talvez, melhor qualidade do software
educativo é feito para este grau de ensino.
Da sua experiência junto das escolas, quais pensam ser as maiores
condicionantes na utilização das TIC?
Duas condicionantes fundamentais: a primeira, é seguramente o
número de computadores por aluno que, na maioria dos casos, é
de 1 para 20 (há mesmo escolas ligadas ao projecto Nónio
em que essa relação é de 1 para 100); a segunda, comum
a todos os graus de ensino, será a pouca apetência de alguns
colegas para estas coisas do virtual. Mas, a pouco e pouco, lá chegaremos.
Na sua perspectiva, as novas tecnologias são apenas um novo
material/equipamento de ensino ou um factor de reforma das pedagogias,
em geral?
Apetece responder "nim"...
São de facto um novo material. Um computador pode ser lápis
e caderno, tabuada, calculadora, manual escolar, livro de consulta, enciclopédia,
tamagoshi, etc.E deveriam ter influência directa nas pedagogias.
No entanto, em relação às pedagogias, é bom
notar que a pedagogia é o professor.Conheço bons professores
que não usam computadores, e conheço maus professores que
usam computadores.Não é determinante.
Agora o que parece ser determinante, por mais que custe a muito boa
gente, é que um bom professor com um computador pode ser melhor
professor. Do mesmo modo que um mau professor com um computador também
pode ser melhor.
Parece possível, em teoria, haver professores que teimosamente
continuem de fora, a dizer que o branco é preto e que as TIC são
um acessório dispensável nestas coisas do ensino-aprendizagem.
Felizmente, só é possível em teoria!
O que tem sido a sua experiência no contacto com as escolas
do 1º CEB e Jardins de Infância no âmbito das
funções que desempenha no Centro de Competência
"Entre Mar e Serra"?
Tem sido uma experiência muito enriquecedora, a todos os níveis.
É gratificante constatar que estamos a fazer passar a mensagem
do nosso entusiasmo para a generalidade das escolas Nónio que apoiamos
e que muita coisa está a mudar, quer no entusiasmo palas TIC por
parte dos colegas, quer na concretização da sua aplicação
no dia a dia da escola. Porque as crianças, essas, não precisam
que lhes espevitemos o entusiasmo.
A chegada dos computadores às escolas foi um festa, para professores
e alunos.
Como é evidente, há problemas. E o maior deles será
seguramente o facto de que os dois professores requisitados pelo ministério
para apoiar as mais de oitenta escolas não chegam para as encomendas,
e são bem a medida, não da pouca importância, mas das
descoordenação da equipa do ministério que entrega
material às escolas e depois não cria as condições
mínimas para a sua correcta rentabilização.
Por último, dê-nos uma imagem de um futuro desejável
para as nossas escolas.
As coisas nunca serão à medida dos nossos desejos. Os
professores que agora entram no sistema passarão, por certo, pela
mesma falta de meios e pelas mesmas dificuldades de que nós sempre
nos queixámos. É dos livros.
Mas, mais do que a existência ou não de computadores na
sala de aula (e espero bem que os haja), o que é desejável
é que os professores vejam criadas as condições para
cumprir cabalmente a sua função, numa escola onde a insuficiência
de meios não coarcte as expectativas de toda a comunidade educativa.
Mas esta é, só mesmo, uma imagem de um futuro desejável.
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