Edição 3
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Tema desta edição: A Escola e a Sociedade da Informação

O número 3

A sociedade da informação, da aprendizagem ou do conhecimento é tema de abundante literatura e amplo debate em amplos sectores da sociedade. É mesmo motivo de debate político ao mais alto nível, quer em Portugal e EU, quer no resto do mundo dito "civilizado".
As implicações dos paradigmas emergentes desta sociedade "pós-industrial" (outra designação possível) afectam a escola, quer por via das suas funções sociais ("formar a futura geração"), quer nas profundas alterações que introduz nas pedagogias. Estas não existem sem comunicação. E, mesmo os mais críticos terão de aceitar que esta mudou bastante!
Informação, conhecimento e aprendizagem permanente – através da comunicação em múltiplos suportes possíveis com os desenvolvimentos tecnológicos desta área – são os temas que abordamos neste número em visões de perspectivas temporais e mesmo espaciais muito diversas.



 
  • Índice:

  • Sondagem:

    Porque é que dentro da escola continua tudo como se o
    desenvolvimento tecnológico não existisse?


    A ÁGORA destina-se a ser um espaço de partilha, reflexão e informação feita por Professores para a comunidade de professores, em particular, e para as comunidades educativas em geral. Esta noção de espaço virtual projectado das diversas realidades geográficas, educativas e humanas constitui o património de uma teia de relações que se tornarão visíveis em suporte telemático. Do ponto de vista prático, a animação deste espaço estará a cargo das escolas Prof 2000 que definirão periodicamente um tema, razoavelmente oportuno e polémico, em torno do qual se explorarão diversas visões. Para sustentar esta ideia estarão disponíveis serviços permanentes criados especificamente para este efeito que permitirão:
    * a publicação de artigos, entrevistas, referências, etc.
    * conversas e debates em Forum
    * trocas de opiniões com especialistas convidados em directo (Canal de irc)
    * "medir" as sensibilidades na Sondagem sobre o tema em destaque
    * a partilha de Percursos na rede sobre os assuntos abordados neste número 
    Além desta base temática a ÁGORA terá um Observatório de educação como um "espaço" de actualidades aberto à participação das comunidades educativas (Associações de pais, Órgãos de gestão de escolas, Associações de professores, etc.)

    A ÁGORA electrónica será sustentada por "nós", grupos de 3 escolas, a quem caberá a tarefa de a tornar num espaço vivo. Cada "nó" será responsável pela ÁGORA sendo substituído no período seguinte por um novo grupo de escolas.


    Escolas editoras:

    Escola Básica 2,3 Oliveirinha - Aveiro
    Escola Secundária / 3°CEB da Batalha
    Escola Básica 2,3 António Dias Simões - Ovar



    Contacto:

    agora@mail.prof2000.pt



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    ENTREVISTA
    "... um bom professor com um computador pode ser melhor professor. Do mesmo modo que um mau professor com um computador também pode ser melhor."

    Carlos António Maranhão Espadana, professor do 1º CEB, concluiu a sua formação no ano de 1965. Iniciou a sua carreira na Escola do 1º CEB N.º 4 de Nazaré, tendo ao longo de 35 anos exercido funções nas escolas de Famalicão, N.º1 e N.º 2, todas no Concelho de Nazaré.
    Actualmente, desempenha o cargo de Coordenador dos projectos do 1º CEB na equipa do Centro de Competência Nónio Séc.XXI "Entre Mar e Serra" e aceitou responder às nossas questões para o ÁGORA:

    Como surgiram os computadores na sua vida?

    Por volta de 1984 resolvi oferecer ao meu filho, então com 8 anos, um computador Spectrum como prenda de Natal.
    Comprei-o em Outubro, numa ida a Lisboa e guardei-o num armário até ao dia 24 de Dezembro.
    Entre Outubro e Dezembro, todas as noites esperava que todos fossem para a cama e, pé ante pé, ia à sala,
    desembrulhava a prenda do garoto (o Computador), usava-o até às três, quatro da manhã, e antes de ir para cama embrulhava-o, novamente com lacinho de prenda e tudo e guardava-o no armário.
    Quando finalmente lho entreguei, na noite de Natal, olhou-o, mirou-o e remirou-o e disse-me: - Tem graça, as teclas estão gastas como se já tivessem sido muito usadas! 

    Quando pensou no computador como ferramenta de ensino?

    Ainda com o Spectum comecei a utilizar alguns programas para classificar alunos e a fazer pequenas aplicações que me
    ajudassem na estatística e na gestão da escola. Muito jeito fez uma impressora de papel térmico que imprimia uma folhinha no género das que o Multibanco nos entrega em cada operação. 
    Mais tarde, já em 1990, comprei o primeiro PC e, em 1994, entrou o primeiro computador na minha sala/escola.
    A partir daí, a necessidade de motivar os alunos, e porque nesse tempo praticamente não havia o hoje chamado software educativo, levou-me a construir uma série de materiais, hoje claramente desfasados tecnologicamente, mas que me foram preciosos naquela época.

    Como evoluíram as estratégias de aplicação do computador com os seus alunos?

    A estratégia foi sempre prepará-los para utilizar o equipamento o melhor possível. O PC chegou à escola numa turma do 1º ano. 
    Começaram aos 5/6 anos a utilizar o computador para escrever pequenos textos de uma ou duas linhas com as palavrinhas que iam aprendendo. Ao mesmo tempo, faziam desenhos alusivos no Paint. No final do ano, fiz uma apresentação em Power-Point que "encheu o olho" aos pais e aos colegas da escola.
    Adicionalmente, os alunos utilizavam pequenos programas que fui desenvolvendo e que permitiam que, sempre que possível, fizessem no computador aquilo que o computador sabia fazer melhor, nomeadamente contas, tabuadas, etc.

    Qual a reacção dos alunos a essa novidade?

    Não houve reacção especial. Eles chegaram à escola e o computador já lá estava. Fazia parte da mobília.
    A reacção mais significativa foi sempre dos alunos das outras turmas, que se lamentavam de não terem, também eles, acesso a estas maravilhas.
    Estes meus alunos sempre acharam que a escola com computadores era uma coisa natural. Quando chegaram ao 4º ano a sala (no 1º ciclo, note-se), tinha 5 computadores Pentium 133.
    Depois foram para o ciclo e aí sim tiveram alguma reacção. O 2º ciclo estava tecnologicamente pior equipado do que a sua anterior sala do 1º ciclo.

    No contexto actual, qual a importância que atribui à utilização das TIC na escola, em geral, e nas escolas do 1º CEB, em particular?

    Já não é só o problema da utilização das TIC "na escola", mas também, e principalmente, a importância da utilização das TIC "pela escola".
    Na minha mais que suspeita opinião, a escola de hoje tem que perceber que as TIC não são algo que se proporciona aos alunos. As TIC estão lá para toda a comunidade educativa. 
    Todos temos que estar motivados para saber fruir das potencialidades que uma máquina multimédia ou um acesso à Internet podem trazer, quer aos alunos, quer ao professor no seu trabalho na escola. Estamos a falar de acesso à informação, de partilha de saberes, de conteúdos multimédia que deixam um professor, sensaborão e chato, a milhas, na atenção e interesse que pode despertar nos alunos.
    Nas escolas do 1º Ceb, tendo a conta a limitada capacidade de concentração dos alunos, tudo isto é ainda mais importante.
    Além de que o 1º CEB é, ainda, a porta de entrada no sistema de ensino. Quanto mais cedo os alunos desenvolverem competências, mais facilmente passam a outros estádios de desenvolvimento. Por outro lado, a maior quantidade e, talvez, melhor qualidade do software educativo é feito para este grau de ensino.

    Da sua experiência junto das escolas, quais pensam ser as maiores condicionantes na utilização das TIC?

    Duas condicionantes fundamentais: a primeira, é seguramente o número de computadores por aluno que, na maioria dos casos, é de 1 para 20 (há mesmo escolas ligadas ao projecto Nónio em que essa relação é de 1 para 100); a segunda, comum a todos os graus de ensino, será a pouca apetência de alguns colegas para estas coisas do virtual. Mas, a pouco e pouco, lá chegaremos.

    Na sua perspectiva, as novas tecnologias são apenas um novo material/equipamento de ensino ou um factor de reforma das pedagogias, em geral?

    Apetece responder "nim"...
    São de facto um novo material. Um computador pode ser lápis e caderno, tabuada, calculadora, manual escolar, livro de consulta, enciclopédia, tamagoshi, etc.E  deveriam ter influência directa nas pedagogias. No entanto, em relação às pedagogias, é bom notar que a pedagogia é o professor.Conheço bons professores que não usam computadores, e conheço maus professores que usam computadores.Não é determinante.
    Agora o que parece ser determinante, por mais que custe a muito boa gente, é que um bom professor com um computador pode ser melhor professor. Do mesmo modo que um mau professor com um computador também pode ser melhor. 
    Parece possível, em teoria, haver professores que teimosamente continuem de fora, a dizer que o branco é preto e que as TIC são um acessório dispensável nestas coisas do ensino-aprendizagem. Felizmente, só é possível em teoria! 

    O que tem sido a sua experiência no contacto com as escolas do 1º CEB e Jardins de Infância no âmbito das
    funções que desempenha no Centro de Competência "Entre Mar e Serra"?

    Tem sido uma experiência muito enriquecedora, a todos os níveis.
    É gratificante constatar que estamos a fazer passar a mensagem do nosso entusiasmo para a generalidade das escolas Nónio que apoiamos e que muita coisa está a mudar, quer no entusiasmo palas TIC por parte dos colegas, quer na concretização da sua aplicação no dia a dia da escola. Porque as crianças, essas, não precisam que lhes espevitemos o entusiasmo.
    A chegada dos computadores às escolas foi um festa, para professores e alunos.
    Como é evidente, há problemas. E o maior deles será seguramente o facto de que os dois professores requisitados pelo ministério para apoiar as mais de oitenta escolas não chegam para as encomendas, e são bem a medida, não da pouca importância, mas das descoordenação da equipa do ministério que entrega material às escolas e depois não cria as condições
    mínimas para a sua correcta rentabilização.

    Por último, dê-nos uma imagem de um futuro desejável para as nossas escolas.

    As coisas nunca serão à medida dos nossos desejos. Os professores que agora entram no sistema passarão, por certo, pela mesma falta de meios e pelas mesmas dificuldades de que nós sempre nos queixámos. É dos livros.
    Mas, mais do que a existência ou não de computadores na sala de aula (e espero bem que os haja), o que é desejável é que os professores vejam criadas as condições para cumprir cabalmente a sua função, numa escola onde a insuficiência de meios não coarcte as expectativas de toda a comunidade educativa.
    Mas esta é, só mesmo, uma imagem de um futuro desejável.