Edição 2 
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OPINIÕES ...

A Escola entre as altas expectativas e os frustrantes desempenhos

Artigo de Luís Souta onde se equacionam outras razões para o insucesso escolar e para o insucesso do sistema, nomeadamente das novas exigências colocadas à escola, bem como do desajuste dos currículos e ainda o desconhecimento que os "utilizadores" têm da escola e a escola dos seus "utilizadores".

As ilustrações foram retiradas de um site dedicado a cartoons sobre educação e traduzidas para português.

ESCOLA entre as altas expectativas e os frustrantes desempenhos

Education Cartoons for Teachers

As esperanças na educação como fonte transformadora do homem e da sociedade é uma ideia de força, quase consensual. É verdade que muitos já não lhe atribuem o carácter "civilizador" que os republicanos de princípio de século lhe davam, numa época em que se afirmava que "abrir uma escola era fechar uma cadeia". Somos hoje mais cautelosos no poder do ensino e, principalmente, mais cépticos em relação à capacidade da escola para a superação das desigualdades e resolução dos "males" que afligem a sociedade.

Novas exigências e males crónicos

Todavia, persiste-se em dar à escola novos objectivos, exigir dos professores novas funções, atulhar o currículo com novos conteúdos. A escola é hoje, na nossa sociedade, o "muro das lamentações" sociais. A cada novo problema que surge espera-se que ela lhe dê a resposta adequada, da toxicodependência à sida, do tabagismo à poluição, dos acidentes de viação ao racismo. Esta situação acaba por evidenciar duas debilidades adicionais da escola.
A primeira, é a incapacidade para antecipar cenários; a escola não marca a agenda e anda sistematicamente a reboque dos acontecimentos, das políticas conjunturais e das modas.
A segunda, prende-se com a nossa tradicional rigidez curricular que faz com que os problemas de hoje sejam incorporados na reforma da próxima década. Entre nós, as revisões curriculares funcionam em ciclos longos, o que é incompatível com os acelerados processos de mudança científico-tecnológicos da modernidade.
E quando se reestrutura é sempre em simultâneo; ora os conteúdos disciplinares não se desactualizam ao mesmo ritmo: a Biologia e a Informática exigem actualizações menos espaçadas que a dos programas de Português e Desenho, por exemplo. O caso mais paradigmático desta dificuldade em inovar no tempo certo é nos dada pela disciplina de Desenvolvimento Pessoal e Social: dez anos depois de criada, e tais foram os acidentes de percurso que ainda agora se está a recolher pareceres institucionais sobre o seu programa.






Escola virtual

Como explicar então este desencontro entre as altas expectativas sociais e os frustrantes desempenhos da instituição escola?
Em primeiro lugar, a generalidade da população desconhece em concreto a realidade dos estabelecimentos escolares: num estudo do IIE, 46,5% dos inquiridos afirma ter muito pouca informação sobre o funcionamento das escolas oficiais da localidade onde vive. Esse desconhecimento é ainda mais acentuado nas minorias étnico-culturais e naqueles pais que não frequentaram sequer a escola. Não admira pois que os locais onde estudam os seus filhos lhes sejam estranhos; que pouco ou nada saibam dos regulamentos e directivas - ficariam naturalmente espantados ao verificar que o próprio ME, no documento sobre o regime disciplinar, ao enumerar os treze 'deveres dos alunos', omite o principal, o dever do aluno estudar, trabalhar e aprender - ; para já não falar nos programas que lhes passam literalmente à margem.
Em segundo lugar, e como afirmava com certa graça e muita lucidez Rómulo de Carvalho a propósito da República que patenteava a sua musculatura nas páginas do Diário do Governo, os decisores da política educativa parecem mais interessados em perpetuar a sua memória nas páginas da 'folha oficial', com uma legislação excessiva de grandes projectos e brilhantes reformas, do que em transformar de facto a realidade educativa. E assim se alimenta a ideia de uma escola virtual.
Em terceiro lugar, é a própria escola que denota alguma dificuldade em contestar os seus objectivos, os seus programas e as suas práticas. Quando a organização curricular é posta em causa, os agentes educativos colocam-se na defensiva, têm relutância em assumir as debilidades da instituição e em questionar as suas acções. Por isso, aceitam mal as críticas e muito em particular quando vêm do exterior; veja-se o exemplo das repercussões dos artigos de Filomena Mónica no semanário Independente. Pena é que críticas deste tipo a algumas questões estruturais do sistema, tal como as que foram avançadas no jornal Público por Victor Lobo, procurem (implicitamente) o retorno a velhos métodos e práticas.
Hoje, bem pelo contrário, o tempo é para implementar novos processos, desbravar caminhos inovadores e não recear as rupturas desde que elas conduzam à qualidade e à eficácia do sistema educativo.

Luís Souta (ESE Setúbal) em Página da Educação
 
A CLASSE MÉDIA ESTÁ A REAGIR CONTRA A INVASÃO DAS ESCOLAS PELOS FILHOS DA 'PELINTRADA' 

Um artigo onde António Magalhães desmistifica a ideia de que a "massificação" é a culpada do insucesso observado nos ensinos básicos e secundários. Pelo contrário, parecem ser os professores, as suas práticas e a escola como sistema, que não reconhecendo o novo público que têm à frente, o condena ao insucesso. 

As ilustrações foram retiradas de um site dedicado a cartoons sobre educação e traduzidas para português.

Leitura interessante... de espírito aberto e sem pré-conceitos!
António Manuel Magalhães em entrevista à Página

Education Cartoons for Teachers


É verdade que os jovens chegam mal preparados ao Ensino Superior? Que o ensino tem vindo a piorar?

AMM - A questão do nível enforma a preocupação central de 'Orgulhosamente filhos de Rousseau'. A discussão sobre se o nível sobe ou desce é velha de milhares de anos, e desde a academia platónica que as gerações mais velhas se queixam das mais novas. No entanto, a carpideira a propósito da descida de nível tem de ser enquadrada, hoje, e em Portugal, de uma forma diferente, no sentido de que os professores - e acho que a sociedade em geral - ainda não assumiram a escola de massas.
De facto, se até aos anos 60 apenas os filhos da classe média frequentavam o ensino liceal, o que acontece hoje é que os filhos das classes trabalhadoras também já vão chegando ao Secundário, sobretudo com os instrumentos administrativo-pedagógicos que foram instalados no sistema. Contudo, verifica-se um fenómeno interessante - o senso comum dos professores interiorizou uma imagem de aluno urbano, de classe média, que dispõe de livros, vídeo, música, etc.; e esta imagem faz com que os professores, enquanto classe profissional, padeçam de uma espécie de miopia pedagógica que os impede de reconhecerem os alunos que têm à sua frente.

Um pouco a ideia de que os professores programam e planificam para os filhos deles...

AMM - E para os filhos dos seus colegas. Isto é tão mais interessante quanto o discurso de sala de professores afirma que os alunos são cada vez piores, aprendem cada vez menos, falam cada vez pior, não se conseguem ensinar; chegam a fazer listas dos disparates que os alunos dizem, esquecendo que eles são seus alunos. Ou seja, os professores constroem o discurso da sua própria profissionalidade com base na desqualificação dos alunos, e isto sem que se dêem conta que com a desqualificação dos seus alunos são eles próprios que se despromovem.

O Ensino Secundário é o ponto fraco do sistema?

AMM - De facto, a questão do nível tem-se levantado mais em termos do Ensino Secundário.

Que, portanto, deveria ser prioritário. Ou não?

AMM - Neste momento, parece-me que não podemos estar a discutir muito por qual ponta devemos pegar, mas julgo que a enfatização da importância do Pré-Escolar - e eu tenho algumas dúvidas acerca desta designação - é interessante como forma de perspectivar a Escola em termos de igualdade de oportunidades de sucesso e de escola democrática, porque é nas primeiras fases da vida escolar, nomeadamente no Básico, que as questões se colocam com mais premência.
As taxas de insucesso no Básico são assustadoras e as investigações parecem mostrar que as desiguais oportunidades de sucesso são devidas a questões de classe social ou etnia - na generalidade, os alunos ciganos e de origem africana, bem como os filhos das classes trabalhadoras, pagam a maior factura. Neste sentido, estou absolutamente de acordo em que se insista no Pré-Escolar e no 1º Ciclo.
No entanto, e porque o foco da minha atenção se centra no Ensino Superior, digamos que algumas problemáticas se deslocam dessa preocupação pela igualdade de oportunidades para o Superior. Mas parece-me essencial insistir na perspectiva de que a sociedade e os professores em geral têm dificuldade em assumir o ensino de massas; há um pré-conceito e um preconceito elitista, sobretudo no Secundário.

Quanto a mim, e voltamos ao princípio, esta é a reacção de uma sociedade que está a lidar com o ensino de massas pela primeira vez de uma forma clara, mas que ainda não incorporou esta realidade no seu senso comum.
O que Filomena Mónica diz e que soa muito bem nos ouvidos de alguns professores - aquele carpir de que os alunos aprendem cada vez menos, estão cada vez menos preparados, não se interessam por nada - é, no fundo, a reacção do senso comum que ainda mantém o modelo de classe média urbana e europeia; urbana por contraposição a rural, europeia por contraposição às outras etnias. Digamos que é esse senso comum que provoca a tal miopia e faz com que muitos professores desqualifiquem os seus alunos.
Portanto, acho que a reacção aos 'filhos de Rousseau', e ao rousseauianismo filosófico porventura presente em algumas políticas, tem a ver com o facto de ainda não se haver interiorizado nos processos pedagógicos e na organização e gestão da Escola precisamente esta presença de alunos muito diferentes dos de há 20 anos e com interesses muito diversificados. Mas não podemos continuar a pensar o ensino-aprendizagem como se não se tivesse passado nada, como se a Escola não tivesse sido deslocada da centralidade em que se encontrava - pensar o professor de hoje como 'o' recurso pedagógico é ridículo; hoje, aprende-se de muitas e diferentes maneiras, o processo de ensino-aprendizagem não é monopólio da Escola e quanto mais indiferente a Escola for à multiplicidade e diversidade de lugares e tempos de aprendizagem mais se reforçará o discurso de desqualificação.

Ou seja, a classe média está a reagir à sua eventual proletarização, reorganizando-se na tentativa de atenuar o fosso que alguns teóricos afirmam estar a alargar-se cada vez mais entre os cada vez mais ricos e os cada vez mais pobres?

AMM - Sim, sim. Eu penso que em Portugal nunca tivemos uma classe média actuante e que estamos a começar a tê-la, mas muitas das reivindicações relacionadas com a qualidade - que é, no fundo, o discurso de Filomena Mónica - descuram a realidade da escola de massas e a necessidade de democratizar o ensino. E, quando insistimos na democratização, somos muitas vezes inquiridos sobre a excelência académica - então, para garantir a igualdade de oportunidades de sucesso, fazemos o nivelamento por baixo?
Evidentemente, nós estamos preocupados com a questão da qualidade, com a excelência, mas numa sociedade como a nossa, em que a escola de massas ainda não assentou arraiais, não nos entrou nos hábitos e ainda nos faz confusão, parece-nos mais importante enfatizar os aspectos relacionados com a igualdade de oportunidades de sucesso e com a imbricação da sociedade na escola de massas. Claro que se correm riscos e que os meninos que vão para a Escola são socializados numa linguagem e com preocupações diferentes das da Escola - um exemplo desta miopia pedagógica: alunos do 9º ano com negativa a Inglês conseguem traduzir as letras das músicas rock e entendem perfeitamente as estrelas do rock. Então, o que é que se passa?
Por tudo isto, um dos nossos vectores de análise fundamental é este - o que é que constitui o atractivo num discurso como o de Filomena Mónica: a afirmação dos valores da classe média? A afirmação da instrumentalidade do ensino em relação às preocupações dos filhos da classe média?

Último desafio que lhe proponho: uma ideia que considere fundamental para dar a volta ao texto.

AMM - Já que me falou em formação, atrevo-me a sugerir que a formação de professores poderia ser rentabilizada com uma dimensionação mais sociológica. Isto, porque os cursos de formação de professores têm, em geral, um teor psicologizante que remete para questões ligadas ao desempenho individual, quando a investigação vem mostrando que os constrangimentos parecem ser mais de ordem social e cultural. Dito isto, considero que a miopia pedagógica que referi - o não reconhecimento dos alunos concretos que os professores têm perante si e que está na base do discurso desqualificador - tem a ver com o facto de a formação de professores não se dimensionar também em termos sociológicos.
 

António Manuel Magalhães em entrevista à Página da Educação