Edição 1 
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OPINIÕES ...

GESTÃO FLEXIVEL DO CURRICULO ... EM ANÁLISE
Como membro da equipa que coordena a implementação do Projecto de Gestão Flexível do Currículo na Escola Básica Integrada com Jardim de Infância de Pardilhó e fazendo uma apreciação geral relativamente ao processo já iniciado em Setembro de 1999, acredito, honestamente, que esta possibilidade revertida a favor da Escola de poder organizar todo o processo de Ensino/Aprendizagem numa perspectiva de flexibilização e articulação curricular conduzirá necessariamente a bom porto. 
Numa Escola como a nossa, inserida num contexto com características muito particulares, onde se denotam graves problemas sociais, económicos e culturais e que inevitavelmente se traduzem em alguma disfuncionalidade dos agregados familiares e consequentemente na postura e aproveitamento dos alunos, esta oportunidade de se poder gerir não só a carga horária como também a componente curricular em função das suas necessidades e interesses acaba por se tornar um imperativo indispensável ao sucesso. 
Para além da organização horária, com inevitáveis alterações nos tempos lectivos e nas interrupções para intervalo, procedeu-se igualmente à implementação de uma área curricular não disciplinar (Área de Projecto, Estudo Acompanhado e Educação para a Cidadania ) valorizando-se, aqui, o desenvolvimento de projectos inter e transdisciplinares, a aquisição de competências de estudo e a formação cívica dos nossos alunos. 
Por outro lado e respeitando-se o que havia sido definido a nível nacional como aprendizagens nucleares, tem sido nossa preocupação a definição de formas de articulação horizontal e vertical dos conteúdos disciplinares. 
É inegável que este processo tem exigido de todos nós um esforço acrescido de trabalho e entrega, apostando-se numa dinâmica de cooperação que se orienta, na minha opinião, para a postura que pretendemos nos dias de hoje. 
As dificuldades inerentes à implementação de um projecto desta natureza têm sido bastantes, mas a discussão, a partilha de opiniões e a dinâmica que sempre caracterizaram esta escola têm-nos permitido superar os problemas surgidos e possibilitado avançar. 

Jorge Almeida 
PQND do 4º Grupo 

 
A GESTÃO FLEXÍVEL DO CURRÍCULO NA E. B. INTEGRADA COM J. I. DE PARDILHÓ
As questões relacionadas com a definição de um modelo de Gestão Flexível do Currículo na Escola E. B. Integrada com J. I. de Pardilhó tem vindo a ser alvo de toda a atenção por parte dos intervenientes em todo o processo educativo. 
Penso que este tipo de experiências deverá ser divulgado para que os professores e as escolas passem a ter uma postura diferente face aos alunos que apresentam determinadas características tais como, muitas dificuldades a nível cognitivo e comportamental, dando origem a uma forte desmotivação o que os leva frequentemente ao abandono escolar, porque a escola não responde às suas necessidades. 
Assim, para que se consiga uma resposta mais positiva, é necessário que  haja um forte empenhamento de toda a comunidade educativa e muito particularmente dos professores, com todo um trabalho de cooperação e articulação entre as várias disciplinas, o que se tem vindo a verificar nesta escola. Há uma grande preocupação em se atender ao meio em que a escola está inserida, às caracteristicas sócio-familiares, económicas e culturais dos alunos, bem como, a todo o historial individual de cada um. Só assim se poderá construir um currúculo que esteja adequado às necessidades reais dos alunos, de forma a proporcionar uma melhor integração na sociedade e no mundo do trabalho. 
Pretende-se pois, uma unidade global do ensino básico, que só é conseguida através da "articulação entre ciclos obedecendo a uma sequencialidade progressiva, conferindo a cada ciclo a função de complementar, aprofundar e alargar o ciclo anterior", tal como vem referenciado no artigo 8º da Lei de Bases do Sistema Educativo. 

" Pensar globalmente agir localmente " 

Isabel Bizarro 
PQND do 4º grupo 

 

EM CONVERSA COM...
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Jornal – Quais são os grandes desafios a que a Comissão Executiva se entregou neste ano lectivo? 
P.C.E. – Os projectos em curso seguem a linha de continuidade lançada nos anos anteriores. A Comissão Executiva está apostada em promover a melhoria da qualidade de sucesso, pretendendo que os alunos aprendam mais e melhor; o combate ao absentismo, que tem sido complicado... Houve um ano em que se conseguiu reduzir bastante o número de abandono escolar, mas depois isso teve implicações ao nível do insucesso, porque acabou por aumentar muito a sua percentagem. Curiosamente, esse facto coincidiu com o primeiro ano em que a Escola funcionou ao abrigo do projecto dos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (T.E.I.P.).
Jornal – As estatísticas do insucesso, às vezes, são falsas... 
P.C.E. – Exacto. Sobretudo pelo número de alunos em falta, e por aqueles que, mesmo vindo à Escola, e que estão forçados pelo Tribunal, não comparecem nas aulas. Esses casos contribuem muito para aumentar os níveis de insucesso. O nosso objectivo, principalmente para os alunos que pretendem prosseguir os estudos, é dar-lhes uma visão e uma formação adequada. Para os alunos que não pretendem prosseguir ao estudos, e que, infelizmente, são muitos, o nosso objectivo é dar-lhes «armas» que lhes permitam sobreviver no mercado de trabalho e no mundo que vão ter de enfrentar. 
Jornal – A Escola possui os meios suficientes para lhes dar essas «armas»? 
P.C.E. – Vamos tendo esse meios. Claro que o corpo docente desempenha um papel fundamental nesse aspecto.
Jornal – Será que a grande prioridade passa pela estabilização do corpo docente? 
P.C.E. – Passa muito por aí. Nós temos conseguido uma estabilização do corpo docente que nos deu a possibilidade de requisitar os professores mais responsáveis pelo T.E.I.P.. No próximo ano, não sei como as coisas vão decorrer. Mas, que a estabilidade dos professores é fundamental, é realmente importante. Para que os projectos funcionem, é necessário que os professores estejam continuadamente com os alunos; que conheçam os alunos; que conheçam a filosofia da Escola e que percebam o que se pretende. Frequentemente, as pessoas têm a ideia de que a Escola é para meninos pobrezinhos. Esta opinião até já partiu dos pais.
Jornal – Como consegue, a Escola, diversificar os meios para combater o absentismo e a falta de preparação que, segundo opiniões externas, parece subsistir? 
P.C.E. – Ainda há pouco tempo o afirmei noutra entrevista concedida a uma rádio: os níveis de insucesso no 10º ano são generalizados. Alguma parte do sistema não estará bem coordenada. É, portanto, um problema nacional. O que se pretende é que os alunos que fazem nesta Escola a sua aprendizagem até ao 9º ano, prossigam os seus estudos com um razoável nível de competência. A nossa preocupação, é atender às características específicas de cada aluno. No fundo, todos os alunos têm necessidades específicas – o bom aluno tem necessidades que, no aluno considerado mau, não existem. E vice-versa. Portanto, difícil é conseguir responder a uma diversidade muito grande de expectativas dos alunos. Por um lado, temos uma franja da população escolar, que é claramente minoritária e com expectativas muito elevadas em relação à Escola, que interpreta muitas actividades como um ponto de favorecimento das capacidades dos alunos com mais dificuldades; por outro lado, temos a maioria da população escolar que tem uma perspectiva muito distorcida da Escola e não valoriza aquilo que nela se realiza. Muitos nem sequer querem cá estar... Apesar disso, temos que contribuir para o sucesso desses alunos.
Jornal – Atalhando pelos pais... 
P.C.E. – Também pelos pais, sempre que possível, embora seja muito complicado. 
Jornal – Como têm recebido a mensagem da Escola? 
P.C.E. – Há sempre casos pontuais, e lá vem a velha história de que não se pode agradar a gregos e a troianos. Uns acham que se faz de mais; outros acham que se faz de menos. Outras vezes dizem que o que se fez não deveria sequer ter começado. Mas eu penso que, apesar desses casos pontuais que vão surgindo, os pais começam, cada vez mais, a perceber a mensagem da Escola. Estaremos no bom caminho, ainda que haja um longo trajecto a percorrer. 
Jornal – Que dizer sobre a entrada na Gestão Flexível do Currículo? 
P.C.E. – Tanto quanto nos é dado  perceber e avaliar, pensamos que está a ter resultados positivos. Mesmo a própria reacção dos alunos, que inicialmente se mostravam reticentes. Do que temos ouvido, da parte dos professores e encarregados de educação, estão a achar a experiência positiva. Os alunos estão a ter um comportamento melhor do que, sinceramente, eu esperava. Nesta fase de implementação do processo, estava um bocado céptica, uma vez que estava consciente que esta novidade iria mexer com formas de trabalho já instaladas. Este processo alterou a elaboração de horários; o funcionamento geral da Escola e a mobilização de pessoal não docente nos diferentes serviços. A título de exemplo: a Escola está muito mais calma, dado o facto de os intervalos permitirem melhor aproveitamento dos tempos de lazer. Dos contactos com os professores, tenho verificado que nem eles próprios tinham a percepção do que é trabalhar 90 minutos consecutivos ou trabalhar 45 minutos mais 45 .
 
Jornal – Esta novidade torna o trabalho mais eficaz? 
P.C.E. – Sem dúvida. Claro que tem que existir, primeiro da parte dos professores, uma adaptação de estratégias para que cada bloco de aulas funcione da melhor maneira e sempre dependendo dos alunos que possuímos. Pode dar-se o caso de uma turma só ter um bloco de aulas por semana, o que implica correcta planificação de actividades. O tempo tem de ser muito bem gerido.
Jornal – Como explicar aos que nos lêem a Gestão Flexível do Currículo? 
P.C.E. – Essa sensibilização já foi feita. Tivemos uma reunião com os pais e encarregados de educação, na qual esteve presente o Director Regional Adjunto, Dr. Linhares de Castro, que apresentou claramente a situação. Nessa reunião, muito participada, explicou-se que, com a Gestão Flexível do Currículo, haveria uma alteração dos tempos lectivos, cuja mudança se deveria traduzir numa melhoria da qualidade das próprias aulas, para que os alunos tivessem melhores condições para aprender. É esse o objectivo deste novo projecto. Desta forma, os conteúdos devem ser seleccionados e articulados interdisciplinarmente, para que não haja uma separação total entre as matérias das várias disciplinas. Para além disso, a forma como estão organizados os tempos lectivos pretende, também, dar melhores condições de aprendizagem
Jornal – Para atingir esse plano de objectivos, há ou não formas de acompanhamento complementares? 
P.C.E. – Os alunos acabam por estar mais acompanhados, quer através do Estudo Acompanhado, quer através da Área de Projecto ou da Educação para a Cidadania. Nessas áreas, também se têm diversificado as estratégias de acordo com os perfis e características dos alunos. Portanto, os bons alunos podem nem saber estudar muito bem, dados os métodos ao seu alcance. Assim, as duas horas que as turmas têm possibilitam o confronto diversificado de estratégias de estudo, por  forma a levar o aluno a atingir os objectivos.
Jornal – Que tipo de problemas podem condicionar o envolvimento dos pais nas actividades da escola? 
P.C.E. – A nível dos pais, o envolvimento tem mais a ver com a desvalorização de iniciativas organizadas pela Escola. Eles próprios não percebem que a escolarização é muito importante, independentemente do facto de os filhos apenas quererem vir a ser trolhas ou carpinteiros. Frequentemente, ouvimos respostas do género: «- Faz-me tanta falta para trabalhar, e  tem de ir para a Escola...». Há ainda situações, em que o aluno não quer vir nem o pai quer que ele venha, o que nos obriga a solicitar o Tribunal para enviar o aluno à Escola. Nos casos em que a formação é entendida como algo dispensável, os pais acham que a Escola só tem deveres.
Jornal – A Gestão Flexível do Currículo contempla este tipo de situações? 
P.C.E. – A Gestão Flexível pretende ser uma resposta global às expectativas da população escolar. É um processo que incide particularmente nos alunos, embora o trabalho junto dos pais não dependa directamente da Gestão Flexível do Currículo. A questão é que, independentemente da existência ou não da Gestão Flexível, o investimento na formação deve ser feito com maior incidência.
Jornal – Esta é a grande aposta no presente ano lectivo. 
P.C.E. – Este ano, a grande aposta é esta. Já percorremos outras etapas: a articulação curricular entre ciclos; a melhoria do processo educativo, possível com a diversidade dos apoios prestados aos alunos. Este ano a aposta é a Gestão Flexível do Currículo.
Jornal – Com que limitações se defronta a Escola no presente ano lectivo? 
P.C.E. – Nós temos algumas dificuldades, desde o campo humano ao campo material. Neste aspecto, há a salientar a falta de espaço, pois a nossa Escola não tem arrecadações e nem sequer há uma sala de convívio para funcionários. O espaço está muito adaptado às necessidades e foram feitas muitas remodelações para melhor optimização dos meios de trabalho. As instalações para o Pré-escolar não foram previstas e também não temos espaço para arquivos. Há diversas salas adaptadas a outras disciplinas que não aquelas para que foram concebidas. Para ultrapassar o problema da escassez de espaço, está projectado um pavilhão a ser construído na zona mais a norte do recreio. A construção só poder ficar viabilizada se um terreno anexo for expropriado. O proprietário não vende, pelo que esta fase de expropriação se vai arrastar imenso tempo. Só quando o terreno estiver em nome da Câmara Municipal é que se pode projectar a ocupação do espaço destinado ao novo pavilhão.
Jornal – E em termos de recursos materiais e humanos? 
P.C.E. – Para já, não nos podemos queixar. O facto de sermos uma das escolas incluídas no projecto T.E.I.P. permite a atribuição de um financiamento específico para adquirirmos bons meios técnicos. Em termos humanos, há falta de professores de apoio aos alunos do primeiro ciclo com necessidades educativas especiais. Ainda ontem recebi um ofício da Coordenação da Área Educativa (C.A.E.), dando conta da não satisfação das nossas pretensões. Também sentimos a escassez de pessoal auxiliar, sobretudo nas horas de almoço ou quando algum funcionário falta. 
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In Jornal do Celeiro, ( da E. B. I. com J. I. de Pardilhó ) Ano I, nº1, Dezembro,1999, pp.2-5. Entrevista à professora Lurdes Pereira, conduzida pelos professores Helder Ramos e Amparo Morais.
 

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