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Aprendizagem ao Longo da Vida e as Possibilidades das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação: Uma reflexão sobre uma experiência de formação de professores utilizando a Internet


Este artigo baseia-se numa acção de formação desenvolvida no Centro de Formação de Penalva e Azurara (CFAE dos Concelhos de Mangualde e Penalva do Castelo), para professores do 1º Ciclo Ensino Básico, do 5º grupo do 2º Ciclo Ensino Básico e 5º grupo do 3º Ciclo/Secundário, intitulada “Educação e Cultura Visual”. A acção foi realizada através do Programa Prof2000, utilizando a Internet como espaço e suporte, entre os meses de Maio e Junho de 2000. A experiência demonstrou que é possível, vantajoso e eficaz, utilizar a Internet na promoção de cursos para a aprendizagem ao longo da vida.


O objectivos da acção centraram-se na compreensão do conceito de cultura visual na sociedade pós-moderna. A metodologia foi determinada por um quadro teórico onde a aprendizagem se baseia na partilha de ideias, no debate, análise crítica e avaliação. A partir de uma selecção de textos relativos ao tema, e “sites” da Internet relacionados com Educação Artística, estabeleceu-se um diálogo crítico, partilha de experiências, troca de descobertas e troca de material pedagógico construído ao longo da acção.

Os intervenientes situados em diferentes pontos do país partilharam as suas experiências pedagógicas, debateram em conjunto as novas teorias sobre educação artística e juntos iniciaram uma busca de material que depois de ser analisado e discutido em grupo foi a base para futuros projectos de trabalho.

A página do Prof2000, foi uma das chaves do sucesso da actividade através da rapidez da informação, da sincronização das conversas on-line e da facilidade de navegação proporcionadas. Outra causa foi a motivação dos professores envolvidos, profissionais competentes, actualizados e com vontade de aprender.

A Internet adapta-se perfeitamente ao contexto pós-moderno: não-linearidade, ligações, interactividade, interconexões, obra aberta, não-hierárquica, descentralizadora, o modelo em aranha, etc. Professores e alunos de todo o mundo podem partilhar experiências, divulgar trabalhos, corresponder-se sobre os mais variados temas. É comum encontrarmos “sites” de alunos ou de professores, foruns e "Chats" onde se trocam opiniões e experiências. "A interactividade é um campo infinito para desenvolver projectos, interdisciplinares, multiculturais, enriquecidos à medida que a teia se constrói. Professores e alunos embarcam nesta viagem, nesta Odisseia cheia de surpresas.” diz June Julian, uma das autoras de um projecto on-line intitulado: "A World Community of Old Trees" (http://www.nyu.edu/projects/julian/toc.html).

Donovan (2000) refere: "A facilidade com que se pode usar a World Wide Web e a quantidade de recursos que aí se podem encontrar tornam a Internet um veículo ideal para aprender e ensinar.”

De facto a Internet é um banco de dados, de imagens, de textos, de sons formidável, aí podemos encontrar colecções artísticas com obras de todo o mundo, textos críticos ou apenas descritivos sobre as mais variadas matérias. As ligações que se podem efectuar tornam possíveis comparações entre obras, autores, períodos históricos e campos da educação e da arte.

Mas a Internet é sobretudo comunicação; diálogo. Pessoas interessadas no mesmo assunto podem contactar-se, ler-se, ver-se, revelar-se e partilhar. E é pensando nesta segunda vantagem que a Internet se torna numa ferramenta fundamental para a aprendizagem ao longo da vida nomeadamente porque as condicionantes de localização geográfica são abolidas e porque os custos são baixos .

Eisner (1998) considera que na preparação dos professores para o século XXI é essencial que se contemple a educação ao longo da vida, terá que se reconhecer que aprender para ensinar é uma actividade para toda a vida, um professor não se faz em quatro ou cinco anos de universidade mas em toda a sua carreira, e é também importante que se considere a necessidade de existir um feedback construtivo da experiência pedagógica do professor. Para tal é necessário que se criem actividades de autoformação centradas na prática pedagógica, onde os professores possam partilhar e avaliar as suas experiências. As acções de formação para professores teriam à partida esse objectivo, mas devido ao seu carácter obrigatório e à falta de oferta especializada elas têm sido vistas como mais uma actividade imposta do que uma necessidade sentida. No entanto graças a um maior leque de escolhas e diversificação dos temas pouco a pouco as acções de formação tornam-se mais populares e finalmente são vistas como uma solução para um problema real.

A utilização da Internet na aprendizagem ao longo da vida dos professores apresenta vantagens notórias, primeiro porque é possível criar grupos independentemente das localizações geográficas, segundo porque é possível fomentar temas de formação especializados que respondam efectivamente às necessidades de formação, terceiro porque é possível proporcionar o feedback construtivo da prática pedagógica individual e, por último, porque facilita o diálogo e a partilha profissional.

As seguintes afirmações dos formandos desta acção ilustram os pontos positivos :

«Penso que estamos no bom caminho para a construção de um centro de recursos de educação visual, ou artística.»

«Enriquecimento pessoal e profissional pelo incremento do relacionamento interpessoal; pela diversidade de pontos de vista; pela recolha de novos materiais; pelo intercâmbio de experiências com pessoas sujeitas a inquietações profissionais e artísticas semelhantes num espaço geográfico mais amplo do que é habitual nas acções de formação confinadas aos Centros de Formação Locais.»

«A fértil troca de saberes, ideias e projectos, e a útil partilha de experiências, que tanto enriqueceram o meu conhecimento e tanto me irão ajudar futuramente no meu percurso profissional.»


Uma desvantagem para a nossa cultura latina é o tipo de relação não corporal. Segundo a opinião de um formando:

«A palavra, apenas, escrita, não revela, não pode revelar, não substitui, não pode substituir a expressão da oralidade, os olhares que se cruzam... as "cumplicidades" que florescem, as empatias que se forjam num espaço presencial real.»

No entanto esta desvantagem poderá ser reduzida por um melhor domínio da ferramenta. A utilização de símbolos gráficos e de um banco de frases feitas prontas a colar proporciona a representação de emoções no suporte digital.

Outra desvantagem não menos importante é que à partida os professores terão que dominar computadores e Internet. No entanto é fundamental que os professores dominem as novas tecnologias, não só porque elas fazem parte do quotidiano dos alunos mas também pelas inúmeras possibilidades de informação que eles oferecem, nem sempre os professores são avessos à experimentação; uma formanda iniciou esta acção com muitas dificuldades técnicas e no final constatou que tinha encontrado uma nova ferramenta.

Outras desvantagens são causadas pela própria ferramenta, o ecrã é cansativo, é desaconselhável realizar sessões muito longas.

Um aspecto importante deste tipo de formação é também o papel crucial do formador que terá que possuir capacidades especiais no seu papel de moderador e de orientador. Grupos heterogéneos são difíceis de moderar, ainda que da mesma área, professores de diferentes graus de ensino têm diferentes interesses e isso leva a que nem sempre se consiga desenvolver a fundo um tema específico, a menos que os temas sejam gerais, o que não apresenta vantagens para os professores que necessitam focar-se em questões muito específicas. No entanto um grupo com professores de diferentes graus de ensino ou com professores de diferentes áreas pode ser interessante para desenvolver temas transdisciplinares ou de articulação entre graus de ensino.

Mas voltando às recomendações de Elliot Eisner este tipo de acção proporcionou uma partilha de saberes e uma avaliação construtiva das práticas de cada um, nas palavras dos formandos:

«Foi bastante importante para o meu crescimento como professor. Quero dizer, sinto-me com um bocadinho mais de maturidade.
Sinto que me foi útil.
Faz muita falta que estes temas e assuntos sejam abordados e discutidos. Para bem dos nossos alunos!»

«Foi a primeira vez que tive a possibilidade de partilhar experiências com colegas que, não hesito em afirmar, têm muito mais experiência no âmbito pedagógico do que eu.
Por vezes sinto-me um pouco desmotivado a nível profissional, dada a gritante fragilidade da minha situação profissional (que de profissão garantida tem muito pouco), no entanto, acredito ter um futuro promissor e gratificante. Sinto-me com energia para poder mudar algo.
Sinto que me enriqueci, pois aprendi coisas novas e interessantíssimas, através do testemunho dos colegas presentes, mas sobretudo, pela lúcida experiência de saber feito demonstrado pela orientadora.»


No entanto pesando os prós e os contras chega-se à conclusão que a acção de formação foi muito positiva e poderá servir de exemplo para futuras experiências. Para finalizar deixa-se a opinião de uma formanda:

«Uma acção com um tema sugestivo como este "Educação e Cultura Visual" levou-me a avançar, a inscrever-me e a "ver" como era.
Talvez devido às minhas expectativas julguei que iríamos mais longe nesta perspectiva da Cultura Visual, no entanto foi-me muito agradável, muito gratificante e saí certamente mais enriquecida. Vi-me confrontada com a minha postura enquanto docente, percebi o que se passa nesta área com outros colegas. Julgo que foi útil para todos, esta atitude não tendo sido de mudança foi pelo menos um alerta para a necessidade desta mudança. Por isso foi pertinente, demos um passo em frente.
Continuemos para bem dos nossos alunos, para nosso próprio bem.»


Setembro, 2000.

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Referências:

• Donovan, R. W. (2000) - Rethinking How Art Is Taught. Thousand Oaks: Corwin Press.

• Eisner, E. (1998) - The Kind of Schools We Need . Portsmouth: Heinemann.

• Julian, June (1997) - "A post modern Backpack: Basics for the art teacher on-line". Studies in Art Education, Vol. 50 (23) pp. 23-42.


Maria Teresa Torres Pereira de Eça - Formadora da Acção 14/2000 – Educação e Cultura Visual – dinamizada pelo Centro de Formação Penalva Azurara no âmbito do Programa Prof2000