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A formação de professores a distância na construção de comunidades educativas


O presente documento pretende reflectir acerca da introdução das novas tecnologias ao serviço da formação docente. A crescente exigência, por parte dos alunos, de práticas pedagógicas motivadoras de sucesso educativo conduzem a uma diferente perspectiva na formação contínua docente. A formação on-line, ou teleformação, surge, no contexto, como resposta às necessidades docentes neste âmbito.


A crescente necessidade formativa evidencia-se pela aposta no manejo inteligente da informação. Vivemos numa época em que o sector informacional domina as atenções e projecta-nos nas novas tecnologias da informação e da comunicação. O conhecimento que anteriormente se depreendia de um texto escrito transformou-se e deu lugar ao espaço multimédia, que permite avançar para novos âmbitos como a transmissão de sensações ou a comunicação audiovisual.

Actualmente o processo formativo não depende de um espaço físico. Apenas se requer disponibilidade para que através de um computador o sujeito aprendente possa aceder a qualquer tipo de informação, em qualquer parte do mundo. No entanto, toda esta facilidade de acesso pode ser perversa. O ambiente virtual, como meio privilegiado de formação, tem de defrontar um grande desafio: a necessidade de interacção que emerge de qualquer situação de aprendizagem. Deste modo, toda a formação passível de ser realizada virtualmente deve oferecer actividades paralelas que facilitem o próprio diálogo entre os sujeitos envolvidos.

Os diferentes cursos presenciais baseiam-se em conteúdos de modo a atingir determinados objectivos. Assim, planificam-se diversas estratégias adequadas a cada grupo alvo. No que se refere à formação à distância, e referindo o contexto específico da formação realizada on-line, a formação de professores em Portugal ainda se encontra em fase quase embrionária.

Neste contexto, encontramos o programa nacional de formação a distância que fornece uma plataforma informática com os recursos necessários ao desenvolvimento de acções de formação on-line denominado Prof2000. Este programa apenas chegou ao sul do país no final do ano de 2002 e de forma residual, com apenas duas escolas associadas.

Não obstante, consideramos que a educação a distância tem potencialidades para ser eficaz se: ampliarmos as possibilidades de interacção, adoptarmos maior qualidade dos conteúdos leccionados, reflectirmos na metodologia inovadora, variarmos o leque de opções de aprendizagem e investirmos na própria formação de formadores. Desta forma estaremos perante o que Aguilar (1997) descreveu como sendo:

"[...]o aumento da produtividade da população, mediante a aquisição de habilidades e conhecimentos que permitem o desenvolvimento de actividades criativas, inovadoras e úteis à sociedade, elevando directamente a competitividade da nação."

A formação de professores está intimamente condicionada pelas premissas anteriormente apontadas por Aguilar. Continua a ser na escola que se efectivam aprendizagens essenciais para o desenvolvimento global dos alunos. Este aspecto permite que recaia nos professores a grande responsabilidade de dar resposta às solicitações de uma massa crítica de alunos ávida de novos desafios. Muitos alunos procuram respostas através das novas tecnologias da informação e comunicação, que se reflecte no decurso das práticas lectivas devido ao crescente desinteresse e desmotivação nutridos pelas aulas tradicionais.

O grande desenvolvimento tecnológico afecta forçosamente a formação docente. Esse desenvolvimento apresenta-se nas telecomunicações, na tecnologia audiovisual e na informática. O processo ensino-aprendizagem não se pode limitar ao decurso de actividades em contexto tradicional de sala de aula. Antes que o professor possa transpor o ambiente virtual para as suas aulas deve obter conhecimentos e desenvolver capacidades que o habilitem ao exercício de novas práticas, sustentadas nas novas tecnologias.

Face ao exposto considera-se impreterível reflectir sobre duas considerações relacionadas com a formação de professores à distância:

- benefícios da alternância do processo Ensino-aprendizagem entre a formação tradicional, decorrendo num espaço físico concreto, e a formação aplicada on-line;

- desenvolvimento de um processo formativo mais participativo e envolvente que confira a equipendência entre a acção individual e em grupo.

Ainda são poucos os docentes que se sentem familiarizados com a aprendizagem em ambientes virtuais consultando páginas na Internet, recebendo e enviando mensagens via e-mail, discutindo questões em fóruns ou em salas de formação virtuais e divulgando pesquisas e projectos próprios.

É urgente fomentar a educação on-line em educadores, alunos e nas próprias instituições da comunidade. Se o corpo docente desenvolvesse competências no uso da Internet como uma parte integrante da sua formação seria possível alargar o âmbito institucional, muito restrito, dos distintos grupos disciplinares para uma comunidade docente a nível nacional e mesmo internacional. A abertura ao mundo de outros professores com realidades completamente novas seria uma forma de melhorar a nossa própria actuação enquanto professores, mas também enquanto sujeitos em fase de aprendizagem ao longo da vida.

Os cursos de formação podem intercalar momentos de encontro num espaço físico concreto e outros em que se aprende cada um, em interacção com todos, no seu local de trabalho ou mesmo em casa, conectados através de redes electrónicas. O acesso à Internet permite flexibilizar a organização dos momentos de aprendizagem virtual de modo integrado.

No que se refere a novas experiências no âmbito da formação de professores e/ou formadores a utilização da formação à distância via Web representa uma opção para quebrar a monotonia do contexto tradicional. Centrar a formação no docente e ultrapassar os limites estabelecidos pelo tempo e pelo espaço são as grandes apostas que pretendemos destacar.

Apesar das vantagens que a formação à distância permite Horton (2000) alerta-nos para algumas dificuldades que devemos ter em consideração ao elaborar uma formação on-line:

- A planificação e desenvolvimento de um curso através da Internet requer mais trabalho que um curso presencial.

- Requer mais esforço por parte do formador uma vez que terá que ter capacidade de resposta a dúvidas de diferentes formandos, não se refere a um formando médio.

- Requer mais tempo que um curso presencial.

- Exige dos formandos um maior esforço.

- Determina uma boa planificação institucional e correspondente produção.

- Os formandos temem perder o contacto humano uma vez que não contactam presencialmente com o formador.

- Muitos consideram ser uma formação impessoal.

- Exige dos formandos autodisciplina e regulação temporal.

- Pelas características apontadas o risco de abandono pode ser elevado.

A formação à distância, on-line, não é panaceia da formação, mas um percurso imprescindível de resposta, neste âmbito, às distintas necessidades formativas docentes. Apesar do crescimento verificado nos últimos anos relativamente à formação profissional, Portugal mantém-se na cauda da Europa revelando grandes dificuldades na divulgação formativa que incorpore as novas tecnologias da informação e comunicação.

O Programa Prof2000 traduz-se numa ferramenta de teleformação ao serviço do desenvolvimento da formação de professores e consequentemente ao longo da vida dos sujeitos activos. A reflexão acerca dos conteúdos da formação têm um papel relevante, mas a diligência urgente refere-se à construção da formação on-line com uma metodologia adequada às competências dos profissionais e promotora de aprendizagens significativas grupais, que motivem a reformulação das práticas pedagógicas. Urge preparar a formação de formadores para que se desenvolva uma rede humana e virtual de troca de conhecimentos, capacidades, projectos e experiências.



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Bibliografia

Anderson, T. et al. (2001). Assessing Teaching Presence in a Computer Conferencing Context. JALN, Vo. 5, No. 2,

Collis, B. (1996). Tele-learning in a digital world. The future of distance learning. London, International Thomson Computer Press.

Horton, W. (2000). Designing Web-Based Training. New York, John Wiley.

Marcelo, C. (1999). Formação de professores para a mudança educativa, Porto, Porto Editores.


Mónica Aldeia - Coordenadora Concelhia do Ensino Recorrente e Educação Extra Escolar de Albufeira, Direcção Regional de Educação do Algarve

 

               Comentários (3)

de amália monteiro, em 13-05-2003

A Última das Monotonias

A introdução das novas tecnologias ao serviço da formação docente leva-me a pensar que a informática já nada tem a ver com os computadores, mas sim com a vida.

Primeiro os computadores eram gigantescos e foram saindo das suas salas, passaram para cubículos, depois para secretárias e agora para o nosso colo e para o nosso bolso. E isto não é o fim! Um dos grandes objectivos é que o leitor passe a “ler” neste “ser digital” e que ponha a sua imaginação à prova entre cores, sons e movimentos – e que “leia” num “livro universal” onde se cruzam ideias que fermentam com um simples toque. O espaço físico simplesmente desaparece e o “leitor” pode agora aceder a qualquer tipo de informação em qualquer parte do mundo, desde que haja interacção – neste sentido é preciso que a classe docente esteja alerta para uma preparação cuidada de materiais e actividades que possam estar ao dispor do “leitor”. Esta preparação para os docentes terá que ser bem estudada e bem fecundada a fim de se poderem colher bons frutos: ampliar possibilidades de interacção, estudar os conteúdos, analisar as metodologias diversificadas.

Mas a escola (local de aprendizagem) e o docente em especial são os efectivos veículos mais importantes da informação em prol do desenvolvimento do aluno, no seio da comunidade educativa. As respostas podem ser dadas a esses alunos ávidos de novos desafios – as tecnologias estão sempre prontas e lançam rapidamente o feedback sempre insaciável por parte dos alunos.

A questão pode ser outra: imaginemos a situação em que um aluno pergunta ao seu ecrã: o que é isto? Quem é ela? Como chego lá? Quero isto, ela, lá são definidos pela direcção do nosso olhar naquele momento. Estas perguntas dizem respeito a um contacto, a um contexto. Os olhos não podem ser considerados como dispositivos de saída. A maneira como os homens detectam a direcção dos olhos, a forma, a intensidade com que o fazem é uma espécie de magia que faz da relação docente-aluno, única e insubstituível. Ora isto não é o mesmo que resolver um problema de trigonometria em que a mensagem entre os nossos olhares pode perfeitamente ter um papel irrelevante, que o resultado será invariavelmente sempre o mesmo. Se há problemas, questões, temáticas que poderão passar pelos olhos do computador, outros nem pensar; seria uma mera utopia e ousadia só de pensá-lo nestes moldes.

É preciso preparar os docentes e integrá-los neste mundo tecnológico on-line. É preciso investir cada vez mais na sua formação sempre com as devidas cautelas e nunca reduzir o docente à máquina.

Fomentar a educação on-line a toda a comunidade parece ser um pensamento pimaveril, que deve desabrochar e crescer de forma colorida, ultrapassando as dificuldades e quebrar a monotonia do contexto tradicional. A monotonia no ensino é outra questão que me leva a pensar na sociedade de consumo, nas novas educações, nas novas opções, nas novas maneiras de estar na vida, na política educacional, nos valores... não caberia neste contexto, certamente que me iria desviar do assunto, todavia esta “monotonia” faz vibrar as minhas vísceras e quase me impele a esferográfica para a frente ...mas resisto a ela e fico-me por aqui!!!

Lucinda Amália Brandão Ferreira Monteiro

de Jorge Edgar, em 20-02-2003

Gostei de ler, Mónica!
Concordo com as questões pertinentes que levantas e fico contente de as poderes partilhar connosco no espaço do Prof2000.
É fundamental para todos que se produzam este tipo de reflexões. Deixo como remate a este meu breve comentário uma afirmação de Jerome Bruner, que diz:

"Thinking about thinking' has to be a principal ingredient of any empowering practice of education"

Parabéns!

de José Martins, em 20-02-2003

Parabéns pelo texto. Espero que o exemplo frutifique e venham mais. O artigo exprime de forma correcta as questões em torno da formação presencial e da formação a distância. Aliás é um excelente instrumento de leitura dos novos formandos, até para que eles percebam que as dificuldades que sentem não são únicas e fazem parte digamos do modelo. Foi feita referência à questão da formação inicial e dos conhecimentos em novas tecnologias. Recentemente pesquisei curricula de vários cursos de formação de professores. Fiquei impresionado pelo facto de que em 2002 se continuarem a formar docentes sem uma única disciplina ligada a tecnologias, software educativo ou semelhante. Esta realidade continua a existir em muitos cursos. Assim é de facto difícil pois esta questão é deixada unicamente para a formação contínua. A formação inicial é um problema muito grave em Portugal e que exige alterações a curto prazo.